30 março 2015

Um passeio de trem - Por: Emerson Monteiro

Semear árvores e observar pássaros no céu azul das tardes invernais; contemplar o Sol e seus movimentos lineares, multicores, algo semelhante a sobreviver da ausência absoluta das certezas do início, do meio e do fim que ora acontece; permitir herança digna da existência de tanta beleza, no entanto livro aberto às crateras enormes do amanhã. Querer preservar ao menos dentro do coração esse legado, e remetê-lo às novas gerações. Imaginar o sonho de regressar aqui e poder assistir aos outros filmes além das falcatruas epidêmicas que oferecem os noticiários da noite. Isto que possa mostrar outra face ao neto, ao bisneto, longe de velhas artimanhas dos lobos vorazes que espreitam os viajantes nas encruzilhadas. Indicar luzes ao caminho, vendo mexer sob a pele o que chamega feito culpa em comichão. Abrir os olhos e fitar o horizonte, na busca forte de encontrar o alvo perfeito a quanta vida em forma de mistério, na alegria dos sinais, dos amigos e dos amores.

Bom, e diante disso tudo que a existência apresente em forma de sonhos, no desejo imenso da vitória sobre as ilusões que ganham corpo e reclamam seriedade, no pulsar dos dias, jamais pretender apenas manchar inutilmente o vestido proceloso em que se transformaram os dramas cotidianos. Reclamar do sentimento maior confiança junto das sombras desta noite ainda que escura; poder oferecer, no altar sentimentos, algo que demonstre o quanto de luta a fim de vencer o desânimo e o desespero vale a pena. Quer mais do que justificar o injustificável e desparecer lá no íntimo do tempo, sem deixar nem vestígios de que existiram nuvens, ou foram só e apenas miragens de segredo inconfessável. Isso que pergunta aonde descerão os passageiros que enchem  o comboio apressado, todos perto de vizinhos mudos... Quanto durará, pois, o enigma dessa estrada longa, infinitesimal no entanto, linheira, talvez cheia de curvas fechadas, em cima do mesmo trilho brilhante.

Abra a janela do vagão e respire com intensidade o ar gostoso da verdejante campina. Lá à frente um pastor tange ovelhas a cruzar o destino metálico das paralelas ao encontro no Infinito sobre as quais desliza preguiçosa a composição. Transcorrem as casas de crianças a brincar no terreiro; mães a estender lençóis coloridos nos varais em distantes; bichos vários espalhados no momento, que observam o sequenciado das luzes do nascente. Meras paisagens de finalidade desconhecida ainda, contudo portas abertas de outras dimensões. E olhar num gesto verdadeiro a imensidão de acalmar a vida a revirar pelas entranhas... Vontade soberana de transformação que lhe sacode o corpo inteiro, de tocar em frente o sistema alguns meses ou milênios afora? – voz persiste no trabalho com as palavras acesas nesse chão das almas e outras compreensões.

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