07 janeiro 2015

Alma penada - Por: Emerson Monteiro

Pio Carvalho Brito, cratense de quatro costados, nascido em 1877, além de esmerado prosador e repentista, versejador qualificado, se consagrou no anedotário pelas façanhas engraçadas que protagonizou. Da geração de Teófilo Siqueira, Zé de Matos e Luiz Quezado, formou grupo impossível no seu tempo de mocidade em Crato.

Entre os estados do Ceará, Pernambuco, São Paulo, Pará e Amazonas, exerceu funções diversas, desde comerciante, farmacêutico, delegado, alfaiate, empregado nas primeiras obras da construção do Orós e trabalhador em um seringal da Amazônia. Aos 85 anos, faleceu em Iguatu a 23 de outubro de 1963, informações que se acham no livro O cômico, o satírico e o erótico na Literatura do Cariri, autoria de Jurandy Temóteo.

Segundo Flávio da Cunha Prata, em seu trabalho Estórias pitorescas do Nordeste, certa ocasião, Pio Carvalho se movimentava pelas quebradas sertanejas e chegara à noitinha na fazenda de um amigo para ali fazer o pernoite.

Depois das acomodações habituais, na conhecida hospitalidade do povo nordestino, a dona da casa convidou o viajante para saborear deliciosa coalhada escorrida.

Sem se fazer de rogado, entrou forte no apreciado quitute. Comeu de dar preocupação aos donos da casa.

Seguiram daí as tradicionais conversações noturnas, envoltas nas sombras do alpendre da casa, na presença de moradores e serviçais do lugar.

Lá adiante, veio a hora de recolher. Cada um para seu lado, em leitos macios e confortáveis, naqueles berços da fartura do Sertão.

Passava de meia noite quando o visitante acordou de pesadelo, experimentando graves consequências devido o excesso alimentar. Sua barriga registrava protuberância descomunal. De fora a fora, virara só dolorimento. Compreendeu, então, a bronca onde fora se meter. Aperta daqui, aperta dali, e nenhuma melhora. Tempo fechado no oco do mundo de escuridão da noite. Devagar, silenciosamente, buscou a localização apalpando as paredes do quarto. No piso dentro da casa, em tudo quer era lugar revirou, sem auxílio de qualquer luminária que orientasse a posição.

Nessa busca cega, precisava o quanto antes de sair no terreiro, pois já andavam difícil de conter as voltas que davam as tripas impertinentes.

Em meio à aflição (quem viveu conhece), bateu o pé em objeto rasteiro, que denunciou o som arrastado e inconfundível dos antigos urinóis (os penicos da antigamente).

Com a descoberta em mãos, Pio se abaixa agradecendo aos céus a chance de resolver o impasse.

- Onde posso nessa hora ter chegado, meu Deus? – pensava, enquanto rápido agia nas últimas dos intestinos agoniados.

- Mulher, só alma do outro mundo se move a fazer barulho assim – no escuro, ouviu a fala rouca do compadre, no quarto de quem o hóspede havia chegado sem saber.  

- Te esconjuro que é isso mesmo! – respondeu a esposa, e depois indagou: - O que a alma penada quer? Diga logo, minha amiga!

No meio de tudo, encastelado na boca larga do penico, Pio Carvalho cuidava de resolver a dificuldade emitindo zoeira de causar espanto.

- Eu queria só ir no mato, dona, mas não localizei a saída – agoniado e gemendo, se espremia o guloso do jantar.

De resto, apenas se escutava, quebrando o silêncio da madrugada fria, os latidos afastados de uns cães caçadores.

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