10 março 2014

A primeira expedição - Por: Emerson Monteiro


Sob determinação do oitavo governador geral do Brasil, Diogo Botelho, no ano de 1603, chegou às terras cearenses o capitão-mor Pero Coelho de Sousa com objetivo de dar início à colonização da Capitania do Siará Grande.

Natural do arquipélago dos Açores, domínio de Portugal, e cunhado de Frutuoso Barbosa, donatário da Capitania da Paraíba, Pero Coelho entrou pelo rio Jaguaribe, realizando as primeiras incursões da nova terra. E ainda naquele ano, acompanhado de 65 soldados, aos quais reunira por volta de 200 índios guerreiros, permaneceu seis meses junto à embocadura do rio Ceará, onde consolidou uma povoação. No início do ano seguinte, chegou a Camocim e, em seguida, se deslocou até a serra da Ibiapaba, em cujo sopé travou combates vitoriosos com nativos e exploradores franceses, entre eles fazendo prisioneiros. Daí, marchou rumo ao Maranhão, meta que não conseguiu totalizar dada a resistência de parte das tropas que levava, insatisfeita devido aos maus tratos do percurso.

Por isso, retornou ao ponto original, na barra do rio Ceará, aí edificando o forte de São Tiago, em região que denominou de Nova Lusitânia. Ciente de permanecer mais tempo no ponto escolhido, se dirigiu à Paraíba no sentido de buscar a esposa, dona Maria Tomásia, e seus cinco filhos, viagem marítima que lhe custaria ano e meio de trânsito, apenas retornando no ano de 1606. Ao chegar de volta, porém, defrontou animosidade nos habitantes da vila que construíra, avessos às dificuldades no reabastecimento das instalações por parte do governo, motivo esse que os levou a sublevar, forçando imediata desistência da fortificação. A título de sobrevivência, Pero Coelho rumou à foz do rio Jaguaribe, erguendo na sua margem esquerda o forte de São Lourenço, pois ficava bem mais próximo do Rio Grande do Norte.

Além do desgaste de tantos empreendimentos, naquele instante outro obstáculo coube a Pero Coelho, fruto da primeira grande seca conhecida nas intempéries cearenses. Coagido pela falta de mantimentos, abandonado por efetivos orientados pelo seu imediato, o capitão Simão Nunes, e exausto, em desespero de causa diante do flagelo, só lhe restou deslocar a família e a guarnição que ainda levava consigo na demanda do forte dos Reis Magos, já no território riograndense, jornada de longos dias de exposição ao sol e às escaldantes areias praianas, léguas sem fim. Esse capítulo demonstra os extremos da inglória aventura de Pero Coelho, revezando nas costas os filhos crianças, secundado por dona Maria Tomásia, entre soldados tristes e claudicantes.

No segundo dia, cairiam as primeiras vítimas atingidas de fome, sede e esgotamento físico. O choro dos meninos lancetava de dor o coração dos pais aflitos. Sacudido pela morte de dois filhos menores, Pero Coelho emudeceu e se entregou ao desânimo mais profundo. Então a companheira chamou a si toda responsabilidade do comando da caravana e levou adiante os percalços da jornada. Logo depois, o primogênito, de 18 anos, também pereceria, antes mesmo de serem recolhidos nas dunas fronteiras a Natal pelo padre Manoel Correia Soares, vigário do Rio Grande, que lhes viera em socorro.

A propósito dessa bandeira trágica (segundo Euzébio de Souza, em História Militar do Ceará), escreveu o Visconde de Porto Seguro (Varnhagen): Honremos a memória do infeliz capitão-mor Pero Coelho de Sousa, que tanto trabalhou, sendo inocente vítima de seus próprios esforços e da maldade alheia.


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