31 janeiro 2014

O ocaso de uma princesa – por Armando Lopes Rafael (*)


   Esta semana, na minha costumeira ida aos Correios para retirar minhas correspondências, percebi – com espanto e pesar – o quanto a Princesa do Cariri está maltratada e envelhecida. Um declínio que se acentuou de forma considerável nos últimos meses. Não me lembro de uma única obra de vulto construída pela Prefeitura Municipal nos últimos anos. Todos os empreendimentos de importância – feitos em tempos recentes, nesta cidade – foram iniciativas do Governo do Estado. A exemplo da requalificação das praças centrais, da construção da avenida que passa em frente à Expocrato, do plano de revitalização do bairro do Seminário.
    Ora, direis que até uma lady aristocrática também envelhece e fica encarquilhada. E que o dinheiro do município só dá para tocar o trivial – o “arroz com feijão" – como diz o povo. Interessante que cidades vizinhas (algumas com orçamento municipal menor que o de Crato), construíram mercados públicos, avenidas de acesso, urbanizaram áreas degradadas, implantaram parques ecológicos, pavimentaram ruas e mantêm suas praças com jardins bem cuidados. Aqui não! O dinheiro da Prefeitura só dá (e mal) para pagar o funcionalismo, para recolher o lixo, manter as escolas municipais e comprar remédios para os sucateados postos de saúde. Algo está errado nisso tudo.
   Não dá para fugir ao saudosismo da comparação. Na opulência do regime monárquico era a Vila Real do Crato – Cidade Cabeça de Comarca – quem capitaneava o processo civilizatório e o progresso, aqui e alhures, abrangendo o território da sua vasta Comarca, que se espraiava desde os sertões adustos de Quixeramobim até as faldas verdejantes da Chapada do Araripe. Mesmo depois do fatídico 1889, já nos decadentes e medíocres tempos republicanos, esta cidade ainda era um farol a espargir luzes pelas zonas que a circundavam. Isso durou até os anos da década 60 do século passado. Essas luzes refletiam educação, cultura, bons serviços de saúde, polo comercial, lazer, enfim um "adiantamento" como se dizia então.
   Quantos marcos de pioneirismo o Crato contabilizou! Foi a primeira cidade do interior cearense a fundar um jornal (“O Araripe”); a que teve os primeiros cursos de ensino superior (em 1922, no seminário São José), a primeira a instalar uma usina hidroelétrica em solo cearense; a implantar a primeira estação de rádio no interior; a primeira diocese; a primeira reserva florestal protegida por lei no Brasil... e outros tantos. 
          Hoje, até alguns melhoramentos que havíamos conquistado, como o sistema da zona azul para estacionamento de veículos, foi encerrado. Estacionar um veículo no centro de Crato voltou a ser um drama. Pior: carros são estacionados em cimas das faixas.  Não vemos fiscais do Demutran orientando sobre isso,  nem organizando os congestionamentos nas portas de escolas no início e fim das aulas. Parece que recuamos ao nível de cidades dos grotões da miséria e do atraso do Nordeste, aquelas que vivem em torno da esmola do Bolsa Família.
Pobre Princesa! Quando será que vai aparecer um estadista para estancar tanta mediocridade e tanta falta de visão administrativa?

(*) Armando Lopes Rafael é historiador.

Acima, Praça da Sé,  onde havia espaço da "zona azul", agora é área de estacionamento para "privilegiados" que visitam a Catedral de Nossa Senhora da Penha. Observem os cones do Demutran.



À direita, Praça da Sé, onde havia espaço para estacionamento de deficientes,  desde novembro de 2013 virou lugar para um parque de diversão.
Coisa de cidade minúscula...
 Texto e fotos: Armando Lopes Rafael




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