06 maio 2013

O sonho do avião - Por: Emerson Monteiro


Transcorria o ano de 1978. Voltara a Salvador, onde permaneceria por mais sete meses, isso face ao nascimento de Ceci, minha primeira filha, ocorrido em 19 de junho. Nesse período, ficaríamos em apartamento de um edifício circular, o Orixá’s Center, no Politeama, próximo à Avenida Sete.

Numa madrugada calorenta do agosto baiano, foi despertado de sonho de alta voltagem emocional, a mexer com intensidade nas minhas entranhas psíquicas e causar forte impacto nos meus pensamentos. Dada a clareza com que se apresentara, na forma plástica de um filme, com direito a se repetir tão logo que terminou a primeira sessão, pois as imagens se reproduziram duas vezes seguidas, seu efeito persistiu na minha consciência logo após o sono e ainda hoje o recordo com absoluta nitidez.

Ele se dava em Crato, no bairro onde mora minha família desde que aqui chegamos, em 1953. Na varada do segundo pavimento de uma residência situada no prédio em que funciona  a oficina de pré-moldados de meu pai, local da antiga serraria que ele possuiu, nos achávamos, minha mãe e eu, enquanto Lydia, minha irmã mais velha se aproximava, vindo de dentro de casa.

Nessa hora, notamos movimento incomum ao nível da fachada das casas em frente. Então, nessa direção, avistávamos uma bruxa de preto a voar numa vassoura, arrastando consigo seguro por uma corda quarto crescente de lua sem luz para fazê-lo coincidir com outro quarto de lua brilhante. No exato momento se superpunham, em que lua negra preenchia toda a superfície da forma idêntica que brilhava, ocorria no céu choque descomunal qual circuito elétrico expresso em detonação de proporções indescritíveis.

No mesmo instante em que isso se verificava, por trás das casas, ao longe na paisagem, um avião de passageiros caía e explodia ao tocar o solo. Algo me indicava que aquilo na realidade ocorreria no futuro próximo e diria respeito a pessoa de nossa família.

A impressão que a visão acarretara gelava-nos por completo, e quando a cena se concluiu repetiu-se no mesmo sonho, como antes dissera, quase sem nenhuma variação, parecendo fita gravada.

De imediato, a reação que esbocei foi me ajoelhar e rezar pedindo clemência a Deus. Minha mãe permanecia sentada, também rezando em voz alta. Dentro desse sentimento acordei assustado, sob o impacto das imagens que presenciara. Saturado de pavor, me levantei e sai do quarto para a sala do apartamento, buscando por longo tempo a coordenação das idéias e pedindo socorro ao Alto por causa do que vivenciara naquela noite.

Durante os anos seguintes, recordei algumas vezes desse sonho, querendo interpretar o seu sentido. A respeito do que falava de concreto? No entanto, não localizei sua finalidade.

No dia 08 de junho de 1982, quatro anos depois, residindo em Crato, para onde retornara, se registra o rumoroso desastre aéreo da Serra de Aratanha, no Ceará, envolvendo o Boeing 727-212A, da VASP, prefixo PP-SRK, vôo procedente de São Paulo, a ocasionar o maior acidente da aviação brasileiro, com o desaparecimento de 137 pessoas, dentre elas Francisco Wagner Dantas, esposo de Lydia, que estava comigo no sonho.

À época, perante o acontecido, minha mãe e eu nos deslocamos a Fortaleza, onde acompanhamos de perto todo o desenrolar do drama, incumbidos de confortar a família vitimada, sempre recorrendo ao amor divino para vermos minoradas suas dores.

Hoje admito, portanto, que existe um nexo entre aqueles sonhos e as circunstâncias do acidente posterior. Outrossim desconheço as razões da antecipação, uma vez que nada pude estabelecer no ânimo de evitar a trágica ocorrência.  

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