05 maio 2013

Histórias e Estórias do Crato de Antigamente - Dia 05 de Maio de 2013




Foto Histórica à frente do antigo Crato Hotel

A PERÍCIA
No período em que o Marcelo trabalhou com o Dr. Raimundo, no Crato, este sempre lhe dava algumas tarefas para, aos poucos, ir se entrosando nas atividades e ser conhecido na cidade.
Estavam um dia no consultório fazendo Perícia Médica. Era dia de uma Junta Médica, isto é, quando são avaliados pedidos de benefícios que foram indeferidos em uma primeira instância e passavam por uma segunda avaliação, de dois ou três médicos. Chega a vez de uma mocinha jovem, lá pelos seus 16 ou 17 anos, de nome Maria Imaculada, que entra no consultório acompanhada pela mãe.
Dr. Raimundo pergunta para a paciente qual o problema e essa lhe responde, apontando para a barriga:
- “É esse caroço aqui que não para de crescer”.
O Dr. Raimundo, já imaginando do que se tratava – provável gravidez – perguntou:
- “Desde quando começou a crescer esse caroço?”.
- “Foi depois de umas mangas que eu comi”.
Até aí a mãe ali, firme, sem falar nada.
O Dr. Raimundo pede para a jovem deitar na mesa de exame para fazer a palpação do abdômen, o que realmente acaba por confirmar a sua suspeita inicial. Pede para o Marcelo também examinar, sem comentar nada. Só então fala para a mãe da jovem:
- “Cumade, esse caroço vai nascer daqui a uns três meses!”.
Nisso, a mãe da jovem se levanta da cadeira, se perfila diante do Dr. Raimundo e do Marcelo e, brandindo o braço direito com o punho cerrado diz:
- “Doutor a minha filha é MOÇA!!!”.
O Dr. Raimundo, com toda a calma, diz para ela se acalmar que vai chamar o especialista em Obstetrícia, o Dr. Tarciso Pinheiro, que tinha o consultório ao lado e que fazia parte da junta. Afinal, ele poderia estar enganado...
Dr. Tarciso vem até o consultório, examina e confirma o diagnóstico anterior:
- “Útero grávido de sete para oito meses”.
A mãe não se conforma:
- “Doutor a minha filha é MOOOÇA!”.
O Dr. Raimundo vira-se para o Dr. Tarciso e comenta:
- “Baixinho (era assim que eles se chamavam um ao outro), será que é outra obra do Espírito Santo? Afinal, a menina se chama Maria Imaculada!”

A CERVEJA!

Durante a IIª Guerra Mundial existia no Brasil uma congregação de padres alemães que tinha sido escorraçada de diversas cidades, por suspeitas de serem espiões nazistas. O Crato e a Diocese os acolheram. Meu pai, inclusive, foi um dos que batalhou pela sua permanência na cidade. A Igreja de São Vicente ficou sob a administração deles. Como prova de gratidão para com a cidade, realizaram diversos trabalhos, não só de evangelização, mas também, sociais. Chegaram a fundar um seminário, conhecido como ‘Seminário dos Alemães’, que tinha uma grande inovação: os seminaristas não usavam batina. Atualmente, no prédio onde funcionou o Seminário, funciona um hospital. Concluíram a Igreja de São Vicente, construíram a Igreja de São Miguel, inclusive uma creche/escola. Interferiram para obter recursos da Alemanha para ampliação do Hospital São Francisco. O pároco da Igreja de São Vicente era sempre desta congregação. Um dos mais populares era o Padre Frederico Nierhoff. Lembro-me bem dele! Alto, louro, uma voz possante. Fumava cigarros Asa ou Astória, os mais fortes e peduros. Falava bem o português, mas tinha o sotaque bem característico do alemão. O Mourãozinho do meu pai era sempre “môrrãosium!”. Era um padre bem avançado para a época, antes do Papa João XXIII e do Concílio Vaticano II. Suas homilias eram uma atração. Lembro-me bem de sua maneira bem simples, popular, de explicar o Evangelho:
- “São José não era besta não! Quando viu a barriga de Maria crescer, tratou de arrumar as trouxinhas dele, botar nas costas e cair fora! (fazia o gesto de botar uma trouxa nas costas e caminhar de ponta de pé). Foi quando Deus fez o anjo aparecer em sonho e explicar tudo!”.
O Padre Frederico não suportava injustiça. Não teve dúvidas em esconder na sua casa e ajudar na fuga para a Europa, um filho da terra, um Arraes, perseguido pela Ditadura Militar. Fez o mesmo que muitos padres fizeram, principalmente na Alemanha, escondendo judeus do horror nazista.

Seminário dos Alemães. Hoje funciona um Hospital.
Outra vista do Seminário dos Alemães, pelo lado interno.

Por ser querido de todos, era sempre convidado para as festas. Certa ocasião foi a uma festa na zona rural. Chegando lá, na mesa principal da festa tinha, no centro, uma poncheira cheia de cerveja, com uma concha dentro. Para servir a cerveja como se fosse ponche. Para um alemão, aquilo era o cúmulo do absurdo! Jogou a concha fora, pegou a poncheira com as duas mãos e bebeu toda de uma vez só! Quando terminou, disse, antes daquela gargalhada característica:
- “Cadê a cerveja, menino? Isto é lá cerveja!”

QUEBRA CADEIRA
O Padre Frederico, além de alto, mais de 1,90 m, era forte. Pesava mais de cem quilos. Em uma festa de aniversário, deram para ele sentar uma cadeira dessas de conjunto de mesa de jantar. Eram ditas ‘modernas’!. Suas pernas eram finas com a seção reduzindo de cima para baixo. Ele olhou para a cadeira, segurou-a numa mão só e girou-a, dizendo:
- “Esta cadeira ‘non’ agüentar”.

Interior da Igreja de São Vicente. A nave central era reservada às mulheres. Os homens ficavam nas laterais.

E o dono da casa:
- “Não padre, pode sentar, agüenta sim!”
- “Olhe lá! Cadeira vai quebrar!”
- “Não Padre, não tenha receio”.
Pe. Frederico não teve dúvidas. Sentou-se com todo gosto! A cadeira se despedaçou toda! Mais que de repente, levantou-se e já foi agarrando a segunda cadeira para sentar-se e ir quebrando uma a uma! Foi quando o dono da festa pediu-lhe pelo amor de Deus para não sentar e arranjou-lhe uma cadeira de ferro. Acomodou-se, em meio à famosa gargalhada.

O CABARÉ

Por algum tempo, o Padre Frederico andava de motocicleta. Usava, muito a contragosto, uma batina creme, menos quente que a preta. Na Alemanha não usava batina. Para andar de moto, arregaçava-a quase até a cintura, metia um chapéu de palha na cabeça e saía pela cidade, para espanto de todos.
Ia sempre lá em casa. Ao chegar, ia logo dizendo:
- “Ô de casa”
E, em passadas largas, entrava casa adentro. Pedia sempre um ‘cafessio’. Mamãe mandava logo coar um cafezinho fresco. Certa vez a empregada chegou na sala e disse:
Padre Frederico, na época da sua ordenação, na Alemanha.

- “Dona Giseuda não tem café não!”
Mamãe toda constrangida, e o padre às gargalhadas! O vexame foi logo solucionado. Mamãe mandou-me ir correndo à bodega do Sr. Luis pegar um pacote de café Itaytera e pedir para anotar na caderneta (o que ele fazia com aquela letra horrível). Pouco depois o aroma do café rescendia por toda a casa e o Padre pode saboreá-lo de um gole só. A xícara perdia-se na sua mão!
O Padre e meu pai eram muito amigos. Papai era quem cuidava da contabilidade da Igreja.
Para o padre ir de motocicleta até a sua Igreja, saindo da nossa casa, na Nelson de Alencar, tinha que dobrar à esquerda na segunda rua. Mas se não dobrasse e continuasse, entraria no quarteirão da prostituição.
Por isso que, quando montava na sua motocicleta e se despedia de papai, em frente à nossa casa, dizia, seguido da costumeira gargalhada:
- “Eita Môrrãozium amanhã vão dizer que o Padre foi ‘pro’ cabaré!!!!”.

CRATO ANTIGO:


Acima: Foto do Palace Hotel ( Acervo de Ivens Mourão )

Por: Ivens Mourão
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