11 abril 2013

Os animais - Por: Emerson Monteiro


Já transcorreram décadas de quando morava na fazenda. Vida junto de uma natureza agreste guardava características distantes do mundo de hoje nas cidades. Essa mudança do campo ao universo urbano significou o que costumam chamar de transição do feudalismo ao modelo industrial exportador, no Nordeste brasileiro. Porém foi verdade real, experimentada pela geração que cumpria missão de atravessar o choque cultural inevitável do progresso, talvez face de marcas sentimentais profundas, tanto nas famílias quanto na história individual. E os sintomas das tais consequências retornam através dos sonhos, espécie de tratamento natural.

Vez por outra, presencio emoções resistentes daquela época, lembranças dos bichos, dos habitantes, lugares, matas; de invernos, sequidões, estradas desertas; moagens, riachos, açudes; pescarias, diversões, acontecimentos ocasionais da religiosidade; viajantes que passavam e pousava alguns dias; tipos esquisitos dos andarilhos sem rumo; as noitadas prenhes de luas e muitas estrelas, de brilho típico do sertão; as narrativas de aparições das visagens e os ancestrais desaparecidos penados; a brisa fria das manhãs; o mormaço nos fins de tarde; as flores coloridas e perfumadas, cultivadas nos jardins de minha mãe; as quermesses de minha avó, nas datas da igrejinha; o canto dos pássaros e suas evoluções nos céus do verão; o silêncio contundente; o calor do meio dia até três, quatro horas das tardes causticantes; e os imprevistos.

Sim, os bichos, animais de tração, de montaria, os bois de bagaço do engenho, as vacas de leite, os movimentos do curral, chocalhos batendo pelo escuro misterioso das madrugadas, latidos de cães tresmalhados, alvoradas alegres, torreões de nuvens grandiosas, a formar imagens contundentes no firmamento longínquo. Sonhos pelo ar livre da infância que sumiram remotos de um período infantil.
Contudo, o que toca com maior força o teto dessas saudades corre nos rebanhos ovinos, carneiros, ovelhas, marrãs e borregos que os meninos conheciam e batizavam.

Havia dois currais a curta distância, um dos carneiros de meu pai e outro dos de meu avô, divididos nas assinaturas das orelhas, perversidade que todo ano acontecia, cortes de peixeira que sangrava o chão dos cercados e salpicava na gente. Independente de acompanhamento, os bichos conheciam seus apriscos, e a eles se dirigiam na volta do pasto aos fins de tarde, momento agradável de vê-los regressando à segurança das casas, guarnecidos da onça e doutros riscos noturnos.

Logo cedo retomariam o caminho, sozinhos e apressados, quais quem regressa ao trabalho, lá na manga do São Luiz. Eu, da varanda de casa, os via deslizar na paisagem querida e aproveitava esses instantes de paz a coletar na alma as minhas melhores recordações do tempo de menino.

Por: Emerson Monteiro

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