06 abril 2013

O Povo é a Verdadeira Tropa de Elite - Por: Matheaus Siebra‏



"O sistema é muito maior do que eu pensava. Não é à toa que os traficantes, policiais e milicianos matam tanta gente nas favelas. NÃO É À TOA QUE EXISTEM AS FAVELAS".

Quando eu assisti ao Tropa de Elite 1 pela primeira vez, devia ter uns 15 anos. Lembro como se fosse ontem a emoção que sentia a cada cena de brutalidade do Capitão Nascimento contra os traficantes. Lembro que eu me sentia profundamente contemplado todas as vezes que ele criticava os direitos humanos, afinal, quem protege ladrão deve ser ladrão também. Minha forma de pensar era exatamente a mesma do personagem principal do filme: Bandido merece é porrada!

Eu me achava o máximo por não suportar bandidagem, fosse ela vinda das favelas ou de Brasília, que é a nossa favela moral - sem querer desmerecer o ambiente cultural riquíssimo e pouco valorizado destas zonas pobres das grandes cidades. Foi exatamente por isso que, quando assisti 3 anos depois ao "Tropa de Elite 2 - O Inimigo Agora é outro" ainda no cinema, eu aplaudi de pé ao término do filme. E não fui só eu. Outros companheiros indignados com a atual situação podre da política nacional também seguiram o meu gesto. Mas nós só enxergávamos aquilo que tinha sido explicitado no longa. Não conseguíamos ver o que tinha ficado nas entrelinhas do filme e que é o motivo de tanta politicagem, roubalheira, bandidagem, corrupção e jogos de interesses.

Calma que eu me explico. Quando a Globo anunciou que o próximo filme da "Tela Quente" seria este em questão (Tropa de Elite 2), eu lembrei que era um filmaço e tratei de assistir logo ao "Tropa de Elite 1" para me ambientar. Preparei-me todo para o filme e, como toda expectativa humilha a surpresa, decepcionei-me ao fim. Sabe aquele fato que você guarda na memória de algo da infância que parece ter sido fantástico e quando, depois de adulto, você tem a oportunidade de revivê-lo, já não é mais a mesma coisa? Pois foi exatamente isto que senti ao assistir semana passada o Tropa de Elite 1.

A bagagem que adquiri nos últimos 4 anos participando efetivamente e estando a frente de movimentos sociais e discussões políticas e ideológicas mudaram minha maneira de pensar e agir de forma que já não sou mais o mesmo de sete anos atrás. Ao fim do filme, olhando (sem ver!) aquelas letrinhas subindo sobre o fundo preto e ao som daquele funk de letra ridícula eu me perguntava: Como um filme pode ser tão terrível? Como eu pude um dia ter gostado de tamanha barbárie? Parecia que eu tinha me tornado o próprio Capitão Nascimento, caçando cegamente meu passado.

Pois bem, mesmo com a impressão terrível do 1, decidi assistir o 2, pois lembrava de algumas passagens que criticavam veementemente a corrupção. Desta vez ocorreu exatamente o contrário do que tinha ocorrido na semana passada. Talvez por não esperar coisa demais da trama, me surpreendi totalmente. Sabe quando você vai a algum encontro quase que de maneira obrigada e depois acaba percebendo que ele foi simplesmente demais? Pois foi exatamente isto que senti ao assistir ao Tropa de Elite 2 - O inimigo agora é outro.

No início do filme achei que seria a mesma chateação do seu antecessor, pois o - agora - Coronel Nascimento já iniciava sua fala esculachando o Fraga, defensor dos Direitos Humanos e, nas próprias palavras do narrador, "intelectualzinho de esquerda". Pensei: Lá vem mais críticas superficiais deste roteiristazinho de direita. Me enganei. Agora eu vejo que o José Padilha é um grande gênio. Já já eu explico o porquê.

Durante todo o decorrer do Tropa de Elite 2, o Coronel Nascimento fala sobre um tal "sistema". "O Sistema é isso, o sistema é aquilo, o sistema tal coisa" e por ai vai. O Coronel Nascimento não diz em momento algum que sistema é esse e leva o expectador a crer que ele está falando somente da corrupção. Quando eu tinha 18 anos e assisti ao filme pela primeira vez no cinema, também achei que era somente isso. Hoje eu percebo claramente do que o Nascimento estava falando e, ao meu ver, nisto consiste a genialidade de Padilha.

Não sei por qual razão, se financeira ou apenas estratégica, mas o diretor do longa fez primeiramente um filme pobre e altamente rentável, com um roteiro superficial, muito embora  atendesse aos anseios de grande parte da população, para logo depois se superar com um filme complexíssimo, onde o protagonista percebe que suas atitudes e ideais de antes não significam a resolução de todos os problemas de violência no Rio. Coronel Nascimento se deu conta de que, em vez de derrubar o sistema dos traficantes, ele estava contribuindo com outro sistema, bem mais cruel.  

Se você, assim como eu quando tinha 18 anos, não entende bem o que é este sistema, eu te digo: O sistema, amigo, não é nada mais que o seu dia-após-dia. O sistema é a influência da mídia na sua forma de pensar e agir. O sistema é o Big Brother e A Fazenda enchendo de lixo o horário que você poderia utilizar para se informar mais. O sistema é a educação de péssima qualidade que recebemos propositalmente para sermos impedidos de pensar, pois quem pensa entende e quem entende, age. O sistema é o fato de apenas uma minoria da população brasileira, a que tem dinheiro, deter o poder político e, consequentemente, governar à sua maneira o nosso país e nosso povo. Enfim, amigo, o sistema é este famigerado capitalismo, em nome de quem se mente e se mata. Em nome de quem se rouba e se corrompe. Em nome de quem se maquia atrocidades para passarem desapercebidas aos olhos ingênuos do povo.

Pensem um pouco sobre estas perguntas: O que leva um político a se corromper? Por que um homem decide vender drogas no morro? Por que moleques nas ruas assaltam? Se vocês pensarem bem vão chegar a esta simples resposta: Dinheiro.
É amigo, tudo gira em torno do dinheiro e do poder (que traz consigo mais dinheiro e poder). As pessoas só estão desesperadas por dinheiro por que quem possui mais dele possui mais privilégios também. Eu não condeno os privilégios, o problema é que somente uma pequena parte da população as detém. E esta pequena parte da população só os detém porque manipula e explora o que não tem.

É nisto que consiste o sistema ao qual se refere durante toda a trama o Coronel Nascimento: Desigualdade. Por isso eu transcrevi acima, logo no início deste texto, um trecho da última fala do personagem no filme e fiz questão de dar ênfase à frase que explica toda essa desigualdade... Meu amigo, não adianta lutar contra traficante nem contra corrupto enquanto mantivermos o capitalismo de pé. Por mais que modernizemos nosso sistema prisional e prendamos os bandidos, sempre vai haver um pobre lascado nas favelas da vida que, por ser negro, pobre ou favelado, não conseguirá emprego e vai ter que partir para a ilegalidade para conseguir sobreviver. Por mais que nos indignemos contra os corruptos e nos manifestemos com o objetivo de endurecer as leis contra eles, sempre vai haver um safado de olho nos privilégios do poder. Enquanto não derrubarmos esse sistema injusto, que gera tanta desigualdade, miséria e violência, qualquer luta para melhorar nossa sociedade será em vão, pois nunca faremos senão tentar tapar o sol com a peneira!

Matheaus Siebra

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Visite a página oficial do Blog do Crato - www.blogdocrato.com - Há 10 Anos, o Crato na Internet.