19 abril 2013

Fim e recomeço - Por: Emerson Monteiro


Dentre as inúmeras narrativas budistas que falam na busca incessante da suprema realização do Ser empreendida através dos caminhos do mundo, uma existe que descreve com nitidez a longa peregrinação para encontrar a Verdade.

Desde bem jovem, devoto se pusera nas estradas da Índia querendo encontrar Sidarta Gautama, o Buda. Viajou anos seguidos com esse propósito, exposto às aventuras que oferece a vida nômade.

Em radiosa manhã, chegou ante as águas caudalosas do Rio Ganges necessitando de cruzá-lo, pois entre os viajantes se dizia que nas terras da outra margem o Santo reunia discípulos e ministrava o Conhecimento, toda razão da procura do incansável andarilho.

Depois de negociação demorada com o barqueiro a fim de atravessar o rio perante a cheia intensa, seguiu a pelejar nos riscos da embarcação nas águas pardacentas.

Já chegando a meio passo do trajeto, o religioso observou fardo escuro que ali boiava sobre as ondas revoltas do rio rumando na direção do barco.

Mediante a aproximação, notou surpreso o cadáver emborcado de um homem. Então  fez mais atento e procurou traços na figura sem vida, tendência natural dessas horas.

Ao desemborcar o corpo, inquietou-o ver no rosto do morto a sua própria fisionomia. Era de mais ninguém senão dele, portanto, o cadáver que, vagaroso, abandonado, descia no leito das águas onde navegavam!
Num instante, inesperada angústia lhe sacudiu as entranhas nisso de presenciar ele mesmo sem vida, enrijecido, inerme descendo naquela correnteza.

De imediato perdeu qualquer domínio sobre seus modos e, num berro monumental, deixou explodir tétrica e sonora gargalhada, que empalideceu de susto o barqueiro, pressupondo agora transportar passageiro sem juízo, perdido entre as fronteiras da lucidez ao desvario.

Em seguida, gesto semelhante, ambos se largaram no fundo da frágil embarcação, extáticos diante da cena, atitude em que demorariam longos minutos de torpor, sob o céu aberto de poucas e fumarentas nuvens de chuva.

Ao término da patética ocorrência, o monge vislumbrara no íntimo da alma que começava a encontrar de libertação com o Buda, o que viria a completar por inteiro ainda nas próximas horas, depois de pisar o solo firme da margem oposta e achar o recanto onde o Mestre transmitia seus ensinos magnânimos.
Em definitivo, nesse dia efetuara valiosos avanços na jornada espiritual para o Sempre.

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