27 janeiro 2013

Romaria do vaqueiro em Crato


Lenda de mais de um século gerou festa religiosa que já faz parte do calendário cultural no Cariri

A tradição da festa da Romaria da Santa Cruz da Baixa Rasa, neste município, é fortalecida a cada ano. Centenas de cavaleiros e fieis reúnem-se hoje, em pleno coração da Floresta Nacional do Araripe para rezar pelo lendário vaqueiro que ficou perdido na mata até morrer de fome e sede. A lenda data de 1877. Os moradores e vaqueiros, com imagens de santos, percorrem desde o sítio Lameiro até o local, em meio a um clarão, no alto da Chapada do Araripe.Vaqueiros e fiéis peregrinam em devoção à cruz santa e depositam velas FOTO: ELIZANGELA SANTOS No local, há várias barracas com comidas típicas e a presença de grupos de tradição popular, para fazer reverências à cruz. A estimativa é que mais de três mil pessoas participem das comemorações.

Duas missas serão celebradas durante o dia. Neste ano, os veículos ficarão isolados por uma barreira. Os cavaleiros entram na área com os animais para a primeira missa, na chegada dos grupos, às 9 horas. Em seguida, os cavalos serão encaminhados para um espaço delimitado. Todos os anos também são escolhidas as rainhas da Baixada e do Vaqueiro, que seguem à frente do cortejo. A segunda missa acontece às 11 horas, para a comunidade e os visitantes, com a reza do terço ao meio-dia.

A intenção é fortalecer a manifestação popular, que é acompanhada por instituições como Ibama e secretarias de Cultura e Meio Ambiente do Crato. Uma fiscalização é desenvolvida no intuito de proteger a floresta de danos. A venda de bebidas alcoólicas é proibida no local.

Sustentável

De acordo com o chefe da Floresta Nacional do Araripe, William Brito, a maior dificuldade é tornar clara a importância da conservação da floresta para os frequentadores da evento. "O que nós queremos é que seja uma festa sustentável, que ao final a floresta esteja no mesmo estado de conservação e não cheia de lixo e degradada. Estamos tomando toda essa cautela para que a floresta fique intacta", afirma William.

Uma comissão com representantes do Distrito do Belmonte foi montada para discutir a organização da festa. Aline da Silva, bisneta dos fundadores da Festa da Baixa Rasa, é uma das integrantes. Ela destaca que a parceria da prefeitura ajudará a promover uma festa mais organizada e com segurança.

Para a secretária de Cultura, Dane de Jade, a Festa da Baixa Rasa faz parte do calendário da tradição popular, como manifestação enriquecedora e singular. Ela enfatiza a importância da união das secretarias no atendimento das demandas.

Grande parte das pessoas percorre mais de dois quilômetros a pé, até chegar ao clarão, em meio à flora. Ao lado do local onde está a cruz, protegida por uma pequena coberta, são encontradas outras sepulturas. São familiares de Expedita Gomes Magalhães, como irmã e mãe, que foram enterradas em covas vizinhas, e também de catadores de pequi. Pessoas que se embrenharam na floresta, adoeceram e não tiveram como sair, por conta da enfermidade.

A tradição se sustenta pela fé das pessoas, segundo um dos organizadores, Wilson Rosto, que defende o apoio de instituições ao festejo que já faz parte do calendário cultural. São mais de duzentos anos em que os homens e mulheres acendem suas velas, pagam promessas e reverenciam a cruz.

Morte do vaqueiro

Ainda de madrugada, os cavaleiros começam a sair de casa, de várias partes do Cariri e até do Estado de Pernambuco. Foi bem lá na divisa entre os dois Estados, na Baixa Rasa, que morreu o vaqueiro. Dias depois, o corpo foi encontrado ao lado do cavalo magro, que continuou com o seu dono. Desse tempo para cá, passou a ser reverenciado pela fé de todo o povo.

A devoção do vaqueiro sertanejo faz com que a originalidade da festa da Cruz da Baixa Rasa mantenha seu caráter religioso e festivo. Cerca de 400 vaqueiros de várias cidades participam todos os anos do cortejo e da missa. O percurso é feito em duas horas. Com santos nas mãos e o gibão de couro, os homens simples sobem a serra. Desde criança, os filhos dos vaqueiros decidem acompanhar os pais. É uma forma de não deixar morrerem os costumes. Há aqueles que preferem ornamentar o seu animal. O vaqueiro Inaldo Antônio de Amorim participa há mais de 13 anos. Ele vai com a esposa e filhos pequenos. Ainda sai animando os grupos para estarem presentes e não deixar a tradição cair no esquecimento. As rainhas escolhidas saem à frente numa charrete, em seguida, os vaqueiros caracterizados à frente do cortejo, com as imagens de Nossa Senhora Aparecida e a de São Jorge. Os gritos de aboio animam os integrantes do grupo. Em cima da serra também se encontra outro grupo a espera do cortejo. As pessoas pagam e fazem novas promessas. Pedem pela cruz, que consideram milagrosa.
Fonte: DN


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