15 janeiro 2013

Nomes, animais e lembranças - Por: Emerson Monteiro


Quando criança, na fazenda do meu avô, algo me chamava a atenção, o jeito com que denominavam as reses do curral. Mimosa, Listrada, Xanduzinha, Caititu, Sabonete, Rosada, Padrão, Supimpa, Corró, Mandão, Traquina, Sobejo, Desmantelo, Mãe de Leite, apelidos que grudavam nos bichos, passavam de mão em mão e que logo se espalhavam até nas vizinhanças.

Landuá, Desconfiado, Fujão, Guaxinim, Rosita, Qualhada, Sabiá, Estrela, Chuviscada, Carne e Osso, às vezes tendo como base alguma característica física do animal, comportamento, malhas no couro, tudo numa lírica produzida no decorrer do tempo, na história do rebanho e das pessoas em volta. Outras vezes, fruto dos acontecimentos laterais do sítio, ou de aspectos só ocasionais, qual na política quando disputaram o governo do Estado os líderes Virgílio Távora e Parsifal Barroso, razão suficiente a nomearem dois touros, que competiam no meio das manadas, de Virgílio e Parsifal, os quais, na minha imaginação, pareciam em tudo por tudo com os respectivos candidatos da peleja governamental.

Bom, isso que falei do gado bovino chegava mais longe, ia aos burros de cambitar cana para o engenho e aos cavalos estradeiros de campear o gado. No chiqueiro das ovelhas, não raro exemplares que se destacavam também recebiam apelidos que encaixavam feito luva, na poesia dos caboclos sempre cheios de humor natural e satisfação em pronunciar ou referir a qualquer dos viventes da bagaceira, naquele universo típico do sertão.

Teimoso, Lavandeira, Lenço, Sariema, Atoleiro, Confusão, Suru, Preguiçoso, Socó, outros nomes dos bois do bagaço, a puxarem os restos da cana moída em cima de couros, tangidos pelos caboclos. Recordo com facilidade cavalo de meu Tio Jorge, animal bonito, todo preto, ligeiro que nem uma piaba, consagrado sob o título de Segredo, e que corria sem demora atrás das reses fujonas, parecido com o título do próprio nome.

No seu poema Os engenhos da minha terra, o poeta pernambucano Ascenso Ferreira cita os lugares da infância, correspondentes ao costume de que falo ligado à denominação do gado, quando diz: Dos engenhos da minha terra só os nomes fazem lembrar, Esperança, Estrela Dalva, Flor do Bosque e Bom Mirar.

Assim, vale considerar também nomes urbanos, os de nossos animais domésticos, tanto ligados às famílias que mais parecem originados na tradição das pessoas. Desde os primeiros momentos na cidade que presencio isso, Blecaute, Dog, Raf, Bob, Bela, Cinzento, Hulk, Duba e Feiurinha, sequência das várias épocas retidas na memória através desses irracionais que moram perto de gente e permanecem firmes nas lembranças, assinalando fases e circunstâncias, controlando a velocidade desse fluir constantes das gerações e dos dias.


Por: Emerson Monteiro
Escritor

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