13 janeiro 2013

Histórias e Estórias do Crato de Antigamente - Por: Ivens Mourão - 13/01/2013


FRESCURA

Júlio Saraiva era freqüentador assíduo da Praça Siqueira Campos. À noite a sua presença era sagrada. Durante o dia, naquelas horas em que o calor era mais intenso, ia sempre à Sorveteria Glória tomar um refrigerante ou algo gelado, que abrandasse o calor.
O Veridiano, meu primo, que hoje mora em Teresina, trabalhou certo período na Sorveteria do Luís. Costumava atender ao Júlio. Um dia, porém, ficou confuso com um seu pedido, ao pé do balcão:
- “Me dá uma frescura, aí.
- Oxente, “seu” Júlio, uma frescura?
- Sim, uma frescura!
- Não estou entendendo. O senhor quer um refresco?
- Não, refresco é fresco duas vezes. Eu só quero uma frescura.

CORNO INDO E VOLTANDO

Chico Soares tinha um filho de nome Chico Pão. Destacava-se bem no futebol do Crato. Certo dia vinha dirigindo seu jeep quando percebeu o pai atravessando a rua, calmamente. Resolveu, então, brincar com ele. Ao passar perto, gritou:
- Sai do meio da rua, “seu” corno velho!
Chico, sem nem olhar para o motorista, respondeu, a todo pulmão:
- Corno é teu pai, “seu fela” da puta!

O SABOR DO PICOLÉ

Desde que comuniquei, através do Blog do Crato, coordenado pelo Dihelson Mendonça, o endereço deste Livro na Internet, tenho recebido comentários. O Antônio Morais, muito amigo do meu tio Luís, contou mais alguns “causos” do Chico Soares, que me apresso a incluí-los no “Só no Crato...” Quando o meu tio foi morar no Rio de Janeiro, repassou a Sorveteria Glória para o Sr. Miguel Siebra de Brito. Em certa ocasião estava ele na sorveteria, fazendo companhia ao Chico Soares, que tomava uma cerveja. Então, tocou o telefone e ele foi ao escritório atender, e pediu para o Chico prestar atenção ao local. Nesse momento, entram duas estudantes do Colégio Santa Teresa e perguntam se tem picolé. O Chico, de imediato, disse que sim. Elas, lógico, indagam de que é que tinha. Ele vai até o freezer, levanta a tampa e observa uma variedade de picolés, em diversas cores. Sem ter a menor idéia dos sabores, vira-se para as mocinhas e diz:
- De grude!

A MÃE DO QUIXABA

O Quixaba era muito conhecido no Crato. Nos dias de hoje seria dito ser um autêntico afro-descendente. A sua cor negra era pura, imprescindível saber para entender o presente fato. O Sr. Antônio Morais namorava a filha do Sr. Miguel Siebra, na época em que o Chico Soares espantou as freguesas com o tal picolé de grude. Somente dez anos após o casamento, teve coragem de contar essa história para a Dona Nair. Ela, que já não simpatizava com o Chico Soares, criou mais abuso dele. Depois de alguns anos, resolveu levar o Chico Soares para almoçar em sua casa, numa tentativa de acabar com essa mal querença. A esposa do Sr. Antônio é uma católica fervorosa e, como tal, devota de Nossa Senhora Aparecida. Na sala principal e em local de grande destaque tem uma imagem de uns 30 cm de altura, da padroeira do Brasil. O Chico, usando a máxima de que perde o amigo, mas não perde a piada, disse:

- Dona Nair, onde foi que a senhora encontrou essa imagem da mãe do Quixaba?
Até hoje, quando o Sr. Antônio fala do Chico Soares para a Dona Nair, ela diz, com enorme desprezo:
- Não sei como você pode ter sido amigo dum cabra daqueles!

JOSINO

A conversa estava animada entre os freqüentadores da Praça Siqueira Campos, mas sentiram a falta do Josino e da sua famosa frase: “Vai correr uma mão de...”
- “Cadê Josino? Nunca mais ele apareceu por aqui!”
Até que alguém soube que ele tinha sido hospitalizado e estava em casa, ainda muito doente. O Brigadeiro Macedo sugeriu:
- “Pessoal, vamos fazer uma visita ao Josino. Afinal de contas, é nosso companheiro daqui. Pode ser que ele esteja precisando de alguma coisa”.
Mas ninguém sabia onde morava o Josino. Por fim, descobriram que ele morava para as bandas do Seminário. E lá foi a comitiva, em busca da casa do Josino. Perguntaram a uma pessoa que deu a informação correta:
- “É aquela casa onde tem uma gaiola com um cabeça vermelha”.
Ao chegarem, encontraram o Josino deitado numa cama Patente, bastante cadavérico e arquejando. Uma irmã, já velha, cuidava dele. Quando o grupo ficou em torno da cama, Josino falou para a irmã:
- “Trás aí uma mão de cadeira”.
- “Não se preocupe não, Josino. Nós estamos bem. Você logo, logo vai ficar bom e voltar lá para a praça.!”
Demoraram mais um pouco e o Josino voltou a falar para a irmã:
- “Ô menina, trás aí uma vela que vai correr uma mão de mooooorte...”
E morreu mesmo!!!

DISCRIMINAÇÃO NO CRATO

No ano de 2008, a minha turma de Engenharia completou 40 anos de formatura. Como uma forma de congregar os colegas, organizamos um blog onde são disponibilizadas fotos e histórias de “causos”. O meu colega, João Vianney Gurgel Fernandes, contou um que se passou no Crato e, de imediato, pedi a sua autorização para incluir no “Só no Crato...”, no que fui atendido. Na nossa época o curso de engenharia tinha os dois primeiros anos como básico. No terceiro ano, você podia escolher por fazer Civil ou Mecânica. Eu escolhi Civil e o Vianney, Mecânica. A turma do Vianney, então, foi fazer estágios nas indústrias do Plano Asimov, no Cariri, mais precisamente nas cidades do Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha. Num final de semana, um dos coordenadores do projeto, residente no Crato, convidou a turma de estudantes para uma visita ao Clube Grangeiro. Ao chegarem ao clube, ficaram bastante entusiasmados com a mulherada na piscina e pensaram que poderiam surgir alguns namoros. Afinal de contas, podiam tirar uma onda de jovens da capital e, principalmente, estudantes de engenharia. Tinham o seu real prestígio! Antes, tentaram, sem muito sucesso, uma partida de futebol naquele campinho que tem ao lado. Logo alguém apareceu com uma garrafa de pinga, o que apressou a ida para a piscina. Era a hora de comprovar o prestígio que acreditavam ter, segundo o Vianney, junto às “garotas”, como se dizia à época. Foi só eles caírem n’água, todos os freqüentadores se retiraram. Não apenas da piscina, mas do local. Simplesmente foram embora, resmungando. O Vianney conta que chegou a ouvir o seguinte diálogo, entre duas moças que se afastavam, indignadas:

- É fulana, hoje aqui deu um “cabocal”, hein!
- É, esse clube já foi mais bem freqüentado.
Por isso, para o Vianney, que já se imaginava inserido na fatia nobre da sociedade, teve seu primeiro contato com a discriminação. Foi uma dura experiência.

É MUITO FEIO

O Luís ficou encarregado de levar o Patativa à rodoviária do Crato, a fim de embarcá-lo para Petrolina. Enquanto aguardava a saída do ônibus, Patativa foi ao banheiro, urinar. Na Rodoviária cobravam-se cinqüenta centavos para auxiliar na manutenção do banheiro. Quando ele voltou, estava indignado com aquela cobrança. Dirigiu-se para o ‘cobrador’, em verso improvisado:

“Meu Deus que sorte precária,
A Vida está mesmo rija
Aqui na Rodoviária
Quem não tem ficha, não mija.

Vou voltar daqui dizendo
Que achei bastante feio
Ver um sujeito vivendo
À custa do mijo alheio.

POESIAS INÉDITAS DO PATATIVA

O meu tio Hermógenes Martins tinha uma incrível facilidade para fazer amizades. E uma delas era com o famoso poeta repentista Patativa do Assaré. Certo dia, visitando o meu tio era o aniversário de sua filha Ruth. Ganhou de presente estes versos do poeta

Mote

Que se reproduza esta data
Para alegria da gente

Glosa
De pobre vocabulário
Ruth um poeta tu tens
Que te entrega parabéns
Pelo teu aniversário

Que se reproduza esta data
Para alegria da gente

Não te direi o contrário
Estou alegre e contente
Desejo extremosamente
Nesta hora doce e grata

Que se reproduza esta data
Para alegria da gente

Crato, 28 de julho de 1955 (16,30 horas)

José Gonçalves da Silva (PATATIVA)

Em outra ocasião, mais precisamente no dia 14/08/1970, fez os seguintes versos para as filhas da Ruth:
Sandra e Cinara
Poeta Patativa (improviso)

Esta menina pequena
Nos fascina nos encanta
Parece mesmo uma santa
Esta garota morena

Além disso não malandra
É muito trabalhadora
Será nossa professora
Esta pequenina Sandra

E a sua irmã Cinara
Que possui beleza além
Se a sua beleza é rara
O nome é raro também

A BAGACEIRA

Chegou ao Crato um promotor novo e que logo se entrosou com os componentes da Câmara dos Comuns. Era jovem, bastante culto e de uma conversa muito agradável. Costumava freqüentar a Sorveteria Glória para tomar café. Um dia notou, na prateleira, algumas garrafas de uma cachaça gaúcha, chamada Bagaceira. Era uma cachaça que estava encalhada e que ninguém queria. O promotor fez o seguinte comentário:

- “Luís você tem Bagaceira! Isso é uma raridade!”.
E levou uma garrafa. Dias depois um amigo do Luís veio trazer a novidade:
- “Luís, aquela Bagaceira que você vendeu para o promotor fez a maior bagaceira!”
- “Mas como, e por que?”.
- “O promotor é alcoólatra e desde que chegou ao Crato estava se segurando. Com a Bagaceira ele teve uma recaída e bebeu a garrafa inteirinha. Foi para o meio da rua fazer discurso, totalmente nu!!”
Tiveram que transferi-lo para longe das Bagaceiras do Luís!

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