15 dezembro 2012

Cangaceiros - Por: Emerson Monteiro


Conta Leonardo Mota, no livro No Tempo de Lampião, que Sabino Gomes, lugar-tenente do Rei do Cangaço, andava na pista de Favela, o responsável pela morte de seu irmão Gregório, vítima de emboscada nos caminhos traiçoeiros daqueles idos sertanejos.

Um dia, se topou com ele de modo casual, quando o bando chegava na casa de fazendeiro amigo dos dois. Favela, desarmado, trazido ao plano limpo do terreiro, por fim purgaria os efeitos do crime nefando.

Antes, porém, Sabino quis conhecer as causas que haviam motivado a eliminação de Gregório, rapaz de si pacato e benquisto. Enquanto pelo meio se metia, a pedir de todos os santos, a dona da casa, com gritos lastimosos de clemência, de braços erguidos aos céus, reclamava mais tempo de sobrevivência para o prisioneiro. Deixasse-o viver. Alegava a amizade, dela, do marido, ao cangaceiro, porquanto sempre lhe ofereceram as portas do acolhimento, sigilo, proteção, etc.

Nisso, Sabino parou nalguns instantes e falou:

- Cabra, tu vai me dizer uma coisa: por que foi que tu matou meu irmão!

Segundo Mota, nessas bases se trataram os facínoras:

- Seu Sabino, eu matei seu irmão enganado.

- Enganado como, cabra mentiroso?

- Cabra mentiroso, não, seu Sabino! Eu matei seu irmão enganado! Matei ele enganado, porque eu ia matar era o senhor!

A grave confissão de Favela colheu de chofre o cangaceiro, dada a franqueza de que se revestiu, pondo ainda maior risco na vida do seu autor, condenação visível nas trocas de olhar entre o grupo, ligado no interrogatório.

- Me matar por quê, cabra, se eu nunca te fiz mal?

O infeliz considerou, então, que fora pago por Joaquim Manduca, da Boa Esperança, ao preço de quinhentos contos de réis, para que promovesse a ação criminosa em que se confundira ao eliminar Gregório invés do irmão.

As palavras do homem tocaram qualquer dobra interna na alma do cangaceiro, pondo-o a estudar as direções que poderiam lhe levar até ao lugar Boa Esperança, transferindo os instintos perversos a outro endereço vingativo, quando achasse Joaquim Manduca, aquele contratante da morte.

Para resumir esse episódio, Sabino Gomes, naquela hora, terminou por libertar Favela, sob as vistas de moradores e bandoleiros escurecidos pelas nuvens fumacentas dos cigarros brabos, enquanto o chefe dos celerados ainda resmungava:

- Um cabra destes não se mata! Deixa isso viver pra tirar raça! 

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