11 novembro 2012

Histórias e Estórias do Crato de Antigamente - Domingo, 11 de Novembro de 2012 - Por: Ivens Mourão



CRATO - Rua Nelson de Alencar, em 1950, vista na direção do Colégio Diocesano. Irmã do escritor Ivens Mourão ( Yara ) encostada no poste de madeira existente em frente ao portão da nossa casa. Ainda não existia a Rádio Araripe. Este poste e a parede delimitavam a “trave” nas nossas “peladas” com bola de meia ou de borracha.

A SAUDADE

A Rua Nelson de Alencar era uma rua sui-generis. Tinha de tudo. Começava com um cabaré. No primeiro quarteirão todas as casas eram prostíbulos. Os mais famosos: Odilon, velho José Alves, Iraci, entre outros. Ali só circulavam os homens e as prostitutas. Quando um garoto atravessava aquele quarteirão proibido, as prostitutas iam ‘enredar’ ao pai. Os outros quarteirões eram familiares. Tinha indústria de mosaico, revendedora da Chevrolet, a sede da maçonaria, a praça Francisco Sá, hotel, uma rádio e um cinema, dentista, colégio, carpintaria e terminava com um cemitério. Quando o Crato teve a sua primeira Juíza, ela tomou uma decisão que os outros juizes não tiveram coragem (também eram usuários...): expulsou o cabaré da Nelson Alencar para a periferia da cidade. Aquele trecho da rua, então, passou a se chamar: Rua da Saudade...


MEIO QUILO

Até o início da década de cinqüenta era raríssima a família que possuía uma geladeira em casa. No Crato, então, contavam-se nos dedos de uma mão quem dispunha desse avanço tecnológico. Sendo assim, os alimentos perecíveis tinham que ser comprados diariamente e apenas nas quantidades necessárias para o consumo. Portanto, todas as manhãs alguém da família era escalado para ir ao mercado comprar carne e verduras para o uso diário.
A responsabilidade de fazer essas compras na casa dessa nossa parenta, do Luís, e do meu pai (Alexandre Sauly Mourão), era de um empregado do meu avô, Sr. José Pereira. “Seu Zé”, como todos o chamavam. Era uma pessoa muita inteligente, perspicaz e bastante observadora. Lá em casa ele sempre comentava, rindo, as encomendas da nossa parenta, muito menores que a do meu avô e as lá de casa. No entanto, ela gostava de manter privacidade sobre o excessivo zelo financeiro com relação à alimentação. Assim, quando ia passar para o “Seu Zé” a encomenda do dia, se estava presente alguém estranho à família, recomendava:
- “Sr. Zé, hoje só basta meio quilo de carne”...

MAIS ÁGUA

A abundância de água no Crato era tão grande, que a Prefeitura, nas décadas antes de cinqüenta, não cobrava taxa. Era de graça. Nos chafarizes públicos, nos bairros afastados, como testemunha o Luís, as pessoas não tinham o hábito de fechar as torneiras. Ficavam derramando água direto. Uma vez ou outra havia uma deficiência no abastecimento, provocada por um problema qualquer no sistema. Mas essa nossa parenta mantinha sempre uma bacia d’água, que era utilizada para diversas finalidades.Ali a empregada dava banho em dois ou três meninos. Como a parte dos fundos da sua residência era em tijolo de chapa aparente, sem qualquer revestimento, precisava ser mantido sempre úmido, para não levantar poeira. Quando a empregada ia jogar fora aquela água já reutilizada ela gritava:
- “Não, não, não, aproveita para aguar o quintal...”

A FARINHA

José Teunas Soares foi um dos grandes empreendedores do Crato. Tinha um comércio de atacado de grãos e amealhou uma boa fortuna, possibilitando atuar na área financeira como sócio em Banco Regional. O Sr. Teunas fazia questão de alimentar a idéia de que estava sempre em dificuldades financeiras, criando a fama de avarento, ou seja, popularmente conhecido como “mão fechada”. Mas tudo não passava de uma estratégia, uma forma de exteriorizar o seu senso de humor fino. E com isso, foi criando esta fama.
Ele e sua esposa, Dona Iolanda, eram grandes amigos dos meus pais. E nós amigos dos filhos deles, principalmente do Melchior.
No entanto, quando precisava gastar, não fazia economia. Quando um dos filhos passou por um aperto financeiro, o Sr. Teunas pagou todas as dívidas dele. A Dona Iolanda comentou com minha mãe:
- “Mas Giseuda, eu não sabia que o Teunas era tão rico!”
Em certa ocasião ele estava vindo de Araripina/PE, para o Crato, em um caminhão de boléia aberta, trazendo uma carrada de farinha. O caminhão estava descendo a serra e sobrou numa curva, tombando. O braço direito dele ficou preso debaixo da carroceria, chegando a quebrar. Lembro-me bem de vê-lo com o braço engessado. O motorista se apressou em socorrê-lo. Mas ele, debaixo do caminhão, com uma voz meio espremida, disse:
- “Salve primeiro a minha farinha”.

A REVOLTA

O Colégio Diocesano do Crato tinha alguns aparelhos para as aulas de Educação Física. Alías, eram um martírio as tais aulas. Após os exercícios, tínhamos que tomar banho com água gelada. Na época fria, então...
Um destes aparelhos eram duas barras de ferro colocadas na vertical, com uns 4 metros de altura. Ficavam em frente à sala do Admissão. Nessa sala estudava-se durante um ano para fazer uma prova de “Admissão ao Ginásio”. Era uma espécie de vestibular. Para se passar para o ginasial, tinha-se que se submeter a essa prova.
O exercício, nessas barras, era subir até o topo usando a força dos braços e apoiando-se como as pernas entrelaçadas na barra. O Melchior estava tentando subir e o meu tio Galba, alertando-o do perigo de cair. E, de fato, o Melchior se despencou lá de cima e “se estatelou” no chão. Ficou sem fala e foi carregado para a Secretaria. No meio do ajuntamento de alunos curiosos, um disse:

- Eita morreu um aluno! Oba, três dias de feriado!!!
O Melchior, revoltado com aquele comentário e sem poder falar, apenas levantou o braço em meio àquela multidão de cabeças e manteve um longo e demorado COTOCO...

 Por: Ivens Mourão
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