05 setembro 2012

O macaco inesperado - Por: Emerson Monteiro


Ano passado, quando apareceu nessas bandas um macaco prego. Primeiro, movimentara casa das proximidades quebrando trens na cozinha. Depois, saltara o muro e passara a desafiar nosso cachorro. Descia da árvore onde se instalara e jogava terra nas fuças do canino, maior sem cerimônia, qual querendo provocar confusão, querendo briga, no dizer do povo. Jogava a terra e regressava ao cajueiro. Nessa hora, vimos que não estava para brincadeira, significava instigação à luta. 

Ligamos ao Corpo de Bombeiros, que já sabia da existência do simão, pois meses antes ele pusera em polvorosa algumas residências do Lameiro, bairro do outro lado distante, querendo tocar fogo nas casas dos sítios munido de fósforo. Daí, recebemos as instruções técnicas necessárias: Viriam buscar o animal se conseguíssemos pegá-lo e manter amarrado, então comunicar. Como fazer tais procedimentos? Usando comprimidos para dormir. Desci a Crato e, na casa de meu pai, obtive dois comprimidos de Rohydorm, dos que o médio lhe havia passado. De volta, quebrei bem o medicamento e nele untei uma banana, situando-a próxima do bicho, nas galhas do cajueiro. 

Veio logo, e comeu com gosto. Achei ainda pouco. Preparei nova dose da receita, adotando igual providência.

E toca a esperar a reação. Formávamos verdadeira torcida à espera do efeito do remédio. 15, 20 minutos... e nada. Acalmado, no entanto, olhava na nossa direção. Esquecera o cachorro e observava de lado, assim meio tonto, lento nos gestos e curioso. Desceu da árvore e passou a rondar perto da casa e dos presentes, indo parar na varanda. Dele me aproximei com cuidado, mas rosnou mostrando as presas afiadas e me afastei preocupado. Ao divisar alguns vidros de esmalte e óleo da manicure que trabalhava em banco das imediações, abriu um dos frascos e bebeu o conteúdo de óleo de amêndoa.

(O macaco prego (Sapajus libidinosus), proveniente de outras matas, nas encostas da Chapada do Araripe é bicho estranho, fora do habitat original. Sem outros parceiros de raça, vivera jogado nas redondezas durante certo período, peixe estrangeiro.) No meio tempo, duas horas passadas, caía de sono, contudo, longe de arriar de vez. Nalgumas ocasiões, fechava os olhos, tropeçava no próprio passo, e imaginei que atingia os limites da resistência sob o efeito do medicamento, o que parecia, no entanto, duvidoso, de botar a caçada a perder.

Obtivemos caixa média e nela fizemos alguns furos. Com jeito, mediante o auxílio de todos, trouxemos toalha grossa e nela envolvemos o visitante, que aceitou ser recolhido na caixa. Era início da noite quando apresentamos aos vigias do escritório do IBAMA, em Crato, o exemplar do gênero Sapajus que aparecera em nossa casa; dali receberia o encaminhamento devido desse órgão gerenciador da natureza.

Por: Emerson Monteiro
 

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