09 setembro 2012

Histórias e Estórias do Crato de Antigamente - Por: Ivens Mourão


REPRISE - Atendendo a um pedido de uma leitora do Blog do Crato 


Os “carros de praça” alinhados em espinha de peixe na Praça Siqueira Campos. Ao lado, os respectivos motoristas.

O CACHORRO E O BOLO

Certo dia, de movimento fraco, o Luís resolveu fechar a Sorveteria Glória mais cedo. Preferiu participar de uma roda de conversa em um bar em frente, na própria Praça Siqueira Campos. O proprietário era o Edson Donizetti, sobralense que casara com uma cratense, a Sarita, irmã do Dr. Quixadá Felício, bastante conhecido na cidade. Este, por sua vez, quando ficou viúvo casou com uma irmã do Edson. Na calçada do bar, que era de esquina, estavam várias freqüentadores sentados em torno de uma mesa. O Luís sentou-se numa cadeira de costas para a rua e de frente para o bar. Ao lado dele, na mesma situação, estava o Melito. Todos os demais, inclusive o proprietário, estavam acomodados de frente para a rua e de costas para o bar. O Edson estava explicando o motivo da grande quantidade de pessoas da família Frota em Sobral, bem como a origem do nome. No bar existia um “fiteiro” que é uma espécie de balcão onde eram guardados os bolos e outras guloseimas. Na parte da frente tinha vidro, para que todos pudessem ver os produtos expostos. Fechando o fiteiro, na parte de trás, existiam portas de correr. Naquele dia todas estavam abertas.

 
O bar, local da “farra” do cachorro ficava na esquina, à direita.

Nesse momento entra no bar, pelo outro lado da esquina, um “freguês” nada desejável: um cachorro vira-lata, hoje chamado “street dog”. Dirige-se para a parte de trás do fiteiro e vai direto num bolo “Bem Casado”. Trata-se de um bolo amanteigado e mole. Imaginando o que poderia acontecer, o Luís faz menção de avisar ao Edson e é interrompido bruscamente pelo Melito que o segura pelo braço e o encara firmemente, dizendo: - Luís, deixa o Edson contar a história dele! Por favor, não atrapalha! O Luís “captou a mensagem” e, percebendo a verdadeira intenção do Melito, ficou quieto. E os dois ficaram observando o cachorro e ouvindo “de longe” a história de uma Maria da Frota, de Camocim. O cachorro, a cada mordida que dava no bolo, espirrava “Bem Casado” pelas laterais da boca. Ele dava nova mordida e mais bolo era espirrado. Por fim, enjoou desse bolo e foi para o vizinho, conhecido como “Sousa Leão”. Estava partido em diversas fatias. Por ser um bolo de boa consistência o cachorro pode abocanhar várias fatias e sair com elas para comer tranqüilamente na rua. Quando terminou, lambeu o paralelepípedo em busca das últimas migalhas do bolo. Sentou-se nas patas traseiras e ficou lambendo os dentes e a boca. Percebendo que o cachorro estava satisfeito, o Melito resolveu comunicar o fato ao proprietário e disse:
- Oh Edson, vai dar um copo d’água a este cachorro!
- Por quê?
- Ele comeu todos os bolos do teu fiteiro e o bichinho agora está com sede!...
O que se viu, em seguida, foi o proprietário aos chutes e aos maiores impropérios enxotar o vira-lata. Mas, na sua desabalada carreira, ele ia, graças ao Melito, saciado, embora com sede...

NUM PNEU

No Crato era comum as pessoas chegarem a uma idade bem avançada, quase centenárias. Alguns desses foram encurvando, provavelmente por algum problema de coluna. Um que estava com este problema muito acentuado mereceu o seguinte comentário do Chico Soares, na Praça Siqueira Campos:
- “Sabe o Sr. Salim? Ele tá encurvando tanto, tá tão encurvado que, quando morrer vai ser enterrado dentro de um pneu...”

CORNO INDO E VOLTANDO

Chico Soares tinha um filho de nome Chico Pão. Destacava-se bem no futebol do Crato. Certo dia vinha dirigindo seu jeep quando percebeu o pai atravessando a rua, calmamente. Resolveu, então, brincar com ele. Ao passar perto, gritou:

- Sai do meio da rua, “seu” corno velho!Chico, sem nem olhar para o motorista, respondeu, a todo pulmão:
- Corno é teu pai, “seu fela” da puta!

INGLÊS FLUENTE

Uma Universidade americana resolveu desenvolver um projeto de auto-suficiência em uma região de um país sub-desenvolvido, no intuito de aproveitar a potencialidade local e investir no seu desenvolvimento. O Presidente da OEA de então, que era brasileiro e cearense, ao tomar conhecimento do interesse da Universidade, indicou a região do Cariri, no Ceará, para a implantação dessa idéia. Assim, foi firmado um convênio entre a Universidade americana e a Universidade Federal do Ceará, para implantação do Projeto Asimov. Vieram vários técnicos americanos, todos jovens falando ainda um português bem atravessado. Só com muita boa vontade era possível entendê-los. Anos depois, no começo da década de oitenta, realizei um trabalho num projeto com o Banco Mundial. Um dos técnicos me chamou a atenção, pois falava bem o português, mas com um forte sotaque caririense. Conversando com ele, soube que fizera parte desse projeto, tendo morado no Crato. Perdera o sotaque americano, mas o do Crato... Muitas indústrias foram implantadas, tendo à frente pessoas da região. Posteriormente foi oferecida, a alguns dos participantes do projeto, a oportunidade de conhecer os Estados Unidos. Dentre eles foi o José Justino, habitual freqüentador da Praça Siqueira Campos. Uma viagem dessas, na década de sessenta, era um acontecimento! Um mundo totalmente novo! O José Justino, que é moreno, resolveu assistir um filme. Ao entrar no cinema, pensando que estava no Cassino, foi barrado por não ser branco. Encarou, porém, esse fato com naturalidade, já que não estava em seu país. Procurou um cinema só para pretos. Quando ia entrando, foi novamente barrado: não era preto! O José Justino, perplexo, perguntou:
- “Que diabo eu sou, então? Não sou gente, não?”Esta viagem rendeu muitos outros acontecimentos pitorescos. O José Justino contou ao Luís o seguinte fato: um dos viajantes resolveu comprar um relógio, para levar de lembrança. Não falava uma palavra de inglês, mas isso não era problema, pois tinha certeza de que falava inglês fluentemente. Com a maior naturalidade, dirigiu-se à vendedora e, apontando para um relógio, falou, enrolando a língua:
- “Quanta custar esta relógia?”A moça totalmente atarantada, sem entender nada. E ele novamente falou:
- “Mim falar bem devagar. Mim querer esta relógia. Mim querer esta relógia. Quanto custar preço desta relógia?”.O José Justino, vendo aquela presepada, chegou e disse:
- “O que o senhor está falando não é inglês não. A moça não está entendendo nada!”E ele, indignado com aquele comentário:
- “Como não!!! Não é esse o inglês que os gringos falam pra gente lá no Crato e a gente entende tudo!...”

O ENTERRO

O Brigadeiro Macedo tinha uma fama de birrento, ruim. Ele não ligava a mínima. Até gostava. Tornou-se grande amigo do Chico Soares, conhecido como, ele próprio se dizia, o maior caloteiro do Crato. Na verdade, o Chico era um grande brincalhão e não se sabia o que de verdade tinha nessa fama de caloteiro. O Brigadeiro, justificava esta grande amizade dizendo que, já que falavam que ele não prestava, tinha que fazer amizade com quem não prestava também! Um dia estavam os dois na Praça Siqueira Campos, quando ia passando o enterro da primeira esposa do Professor José do Vale que, aliás, foi meu professor. Lembro-me que, ao atravessar a porta da sala de aula, já ia fazendo o sinal da cruz e rezando o “padre” nosso. A classe inteira, instantaneamente, ficava de pé e rezava com ele.
A esposa do professor, também professora, era muito estimada. Uma multidão acompanhava o féretro. Os alunos dos diversos colégios, todos uniformizados, faziam parte do cortejo. O Brigadeiro perguntou para o Chico Soares:

- “Chico, será que no meu enterro vai ter tanta gente assim?”
- “Depende, Brigadeiro, se você for enterrado vivo!...”

SOLIDARIEDADE

Um grande amigo do Luís recebeu um representante comercial de Fortaleza, com quem tinha negócios, e este desejou visitar a Glorinha. Foi levá-lo para conhecer a mais famosa boate da cidade. A sua esposa, por acaso, passou dirigindo o carro dela em frente à boate da Glorinha. Para sua surpresa, viu o carro do marido estacionado lá. Parou e foi confirmar de perto. Conferiu a placa. Ficou um tempo pensando no que fazer. Depois saiu. Nisto, o guardinha que cuidava dos veículos, entrou e foi avisar à Glorinha que a esposa do amigo do Luís tinha reconhecido o carro dele. Imediatamente foi acionado o esquema de proteção a marido infiel. A Glorinha fez parar um carro, dirigido por um homem, e explicou-lhe a situação. Enfiaram o amigo do Luís no banco de trás, com a ordem de despejá-lo, urgente, na Praça Siqueira Campos. A esposa, ainda transtornada, ficou rodando na cidade, arquitetando um plano para dar um flagra no marido. Pensou em buscar a ajuda de umas amigas a fim de invadir o cabaré da Glorinha. Nisto, passou na Praça Siqueira Campos e avistou-o, tranqüilamente sentado num banco, numa roda de amigos. Estacionou o carro. Chegou perto do marido e ele se adiantou, com a cara mais sonsa do mundo:

- “Oi, Amor! Você por aqui! Senta aqui.”
- “Onde é que está o teu carro?”
- “Ah, Bem! Eu emprestei para aquele meu amigo de Fortaleza! Ficou de me devolver agora, às 10 horas. Tô esperando por ele.”

MUITO MOVIMENTO

Um dia apareceu no Crato uma pessoa de Altaneira, que estava se mudando para a cidade. Procurava um ponto comercial para comprar. O Bantim, grande contador de estórias, tinha um amigo proprietário de uma bodega quase sem nenhum movimento. O negócio estava muito ruim e essa era uma oportunidade para ele se ver livre daquele péssimo comércio. Então, propôs vender o ponto com tudo dentro, pois estava querendo ir embora para Fortaleza. Marcou com o interessado para ir conhecer a bodega. Mas, por sugestão do Bantim, combinou com vários amigos para entrarem na bodega, um após o outro, e ‘comprar’ algum produto. Um comprava um rolo de fumo, outro um litro de querosene, mais outro cigarro, alguém perguntando se algum produto já tinha chegado etc. Ou seja, não parava de entrar freguês. Quando os “atores” terminaram a encenação, o interessado disse:
- “É, estou vendo que o seu ponto é muito movimentado. Mas, não era bem isso que eu estava querendo não. Estou procurando um ponto de pouco movimento, só para eu passar o tempo e não ficar dentro de casa”.

A CHUVA

Um dia o Chico Soares ia saindo de casa com a esposa e percebeu que estava “bonito para chover”, como diz o cearense. Sugeriu, então:

- “Antonieta vamos voltar para casa que vai chover”.Como de fato. Foi só chegar e começou uma chuva pesada. Então ele saiu-se com o seguinte comentário, que mereceu o devido protesto da Dona Antonieta:
- “Antonieta, se esta chuva fosse de rapariga, eu ia destelhar a casa, com a tua ajuda, tapar todos os esgotos para enchê-la todinha de rapariga!”

NÃO IA MAIS SAIR DE LÁ

O Chico Soares também era um freqüentador do cabaré da Glorinha. Ia mais para bater papo. Um dia, estava com a esposa na Praça Siqueira Campos quando ia passando a Glorinha. Falou para ela:
- “Antonieta você não conhece a Glorinha, não é? Olha, é aquela ali. Aquela loura!”
- “Eu quero lá saber de rapariga! Respeite-me, Chico”.
- “É porque você nunca foi lá! Se você fosse, não ia mais querer sair de lá!”

Por: Ivens Mourão - PROIBIDA A REPRODUÇÃO SEM AUTORIZAÇÃO DO AUTOR 

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