19 agosto 2012

O blá, blá, blá romântico dos políticos -- por Ronaldo Correia de Brito (*)


"No cariri cearense, tem-se impressão de que velhos métodos coronelistas continuam em uso nas eleições" 


 O Crato ferve no mês de agosto. Toda região do cariri cearense está fervendo debaixo do sol quente nesse ano de estiagem e com as disputas eleitorais para as prefeituras. O silêncio, que se tornou raro nas cidades nordestinas, é o mais desrespeitado por dezenas de carros de som ziguezagueando rua acima e rua abaixo, apregoando as qualidades de futuros vereadores e prefeitos. Todos se proclamam “ficha limpa”, como se fosse virtude e não obrigação possuir um currículo impecável. A ênfase em que o candidato não responde por crime de corrupção ou peculato ilustra o quanto se tornou comum escândalo envolvendo políticos. E a baixa credibilidade deles junto ao povo.

 No cariri cearense, tem-se impressão de que velhos métodos coronelistas continuam em uso nas eleições. As pessoas ainda escolhem seu candidato pelo compadrio, por dívida de favor, porque não deseja perder o voto (perder o voto é votar em que não ganha), para garantir o emprego, porque é um empresário bem sucedido, administrou seus negócios com lucro e poderá fazer o mesmo na prefeitura. Ainda confundem bem privado com bem público e acham que o esforço para gerir em causa própria será o mesmo para o coletivo.

 Outra falácia dos candidatos é apregoar-se um autêntico filho da terra. Dizem que nunca abandonaram o torrão natal, que sempre estiveram ali no batente, chafurdando e conhecendo os problemas da região em que escolheram viver. Pura demagogia. Bem melhores são os candidatos arejados, que correram o mundo, receberam formação em outras universidades, vivenciaram culturas e democracias. Esse xenofobismo político é o que existe de mais tacanho e atrasado. Nada melhor do que as fronteiras abertas, novos discursos e práticas.

 Desejei que os eleitores do Crato perguntassem aos seus candidatos de que maneira eles irão resolver o forte impacto ambiental sobre a Chapada do Araripe, o pé de serra, a fauna, a flora e as nascentes d’água da região. Com o crescimento demográfico, fugiu ao controle da prefeitura e do Ibama as construções em áreas de encostas, os desmatamentos, o lixo jogado em lugares sagrados. Os políticos permanecem com a mesma conversa antiga de que o Crato é um paraíso da natureza, lugar ideal para o desenvolvimento turístico, terra da cultura e blá, blá, blá. Parece que não caminham pelo município que se propõem administrar, não enxergam que as nascentes d’água foram fechadas em tanques de cimento de onde partem dezenas de canos PVC, que o lixo se acumula em torno dos balneários públicos, que não existe silêncio nem recolhimento para curtir a natureza.


 Nunca compreendi porque o rio Granjeiro, que atravessava a cidade no seu leito de areia e pedras, que há alguns anos atrás possuía uma pequena mata ciliar, precisou ser contido dentro de um canal, onde jogam os esgotos das casas. Isso não aconteceu em Paris, Londres, Budapeste e Praga. Aqui no Brasil, é comum os rios serem transformados em esgotos. Vez por outra eles cobram seus espaços de volta e tome alagamentos e destruição. Um dos graves problemas que o futuro prefeito terá de resolver será esse: reconstruir o canal do Granjeiro (reparem que não escrevo rio Granjeiro), destruído na última cheia.
 E já que falamos em esgotos, também gostaria de perguntar quais os planos do futuro prefeito para o saneamento da cidade. Não adianta investir em saúde, sem primeiro cuidar de abastecimento d’água e saneamento básico. O maior percentual de doenças continua sendo de transmissão hídrica, sobretudo na infância, tratadas sem que se ataque a causa geradora.

 Os candidatos precisam acabar com o ufanismo pelo que não existe mais. 80% da população do cariri mora nas cidades, principalmente em periferias. Cidades com os mesmos problemas e complexidade dos grandes centros urbanos. Desfaçam de uma vez por todas o romantismo de um Crato rural, com engenhos de rapadura e cachaça, nascentes correndo livres de serra abaixo. Como dizia o poeta popular Fabião das Queimadas, isso tudo “já morreu, já se acabou e está fechada a questão”.

(*) Ronaldo Correia de Brito  é escritor, dramaturgo e médico. Cearense radicado em Pernambuco, é autor dos livros de contos Faca, Livro dos Homens e Retratos Imorais e do romance Galileia, entre outros.
E-mail: ronaldo_correia@terra.com.br.

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