29 agosto 2012

ENTREVISTA - Dr. Humbero Macário conta sua trajetória de vida e porque deixou a Política



Wilson Rodrigues

Humberto Macário de Brito, 83 anos de idade, nascido no ano de 1929 na cidade de Campos Sales, micro região Cariri/Oeste. Filho de Pedro Macário de Brito e Tereza de Norões Brito. Veio para o Crato em 1945 com 16 anos de idade estudar no Ginásio do Crato, onde cursou até a 8ª serie e depois seguiu para Salvador na Bahia para terminar os estudos no colégio irmãos maristas, residindo no pensionato do padre Camilo Terrand. Lá fez vestibular e ingressou na escola baiana de medicina, chegando a se formar em 1958 com 29 anos de idade. Voltou para o Crato para trabalhar no hospital São Francisco, na época o único do município e no ano seguinte montou sua clinica, a maior da cidade. Especializou-se em cirurgia geral e urologia. Ingressou na política na década de 60, eleito prefeito municipal do Crato, depois deputado estadual, secretário de saúde do estado e superintendente da Superintendência de Desenvolvimento do Ceará SUDEC. Com o falecimento do ex governador Virgilio Távora, de quem era amigo e parceiro político, decidiu abandonar a política e dedicar seu tempo exclusivamente a medicina. Humberto Macário de Brito recebeu a reportagem do Jornal do Cariri em sua residência, Rua Carolino Sucupira 256, centro do Crato, para falar de sua vida publica.

JC – Quando o senhor era menino em Campos Sales, pensava chegar aonde chegou?

HM – Não, fui recebendo influencias e procurando assimilar o que era interessante. Até aos meus 15 anos de idade ajudava meu pai na agricultura e nos negócios dele. Mas eu tinha um tio, Jacob Cortez ( Jacozinho ), homem culto e com vasto conhecimento, que ajudou-me muito, me preparou para a vida adulta e me incentivou vir para o Crato estudar no melhor colégio, que era o ginásio do Crato. Aqui fui encorajado por outro meu tio, Antonio Macário de Brito, que havia se formado em medicina em Salvador e me incentivou ir para a capital baiana, onde me formei medico e depois voltei para o Crato.

JC – Chegando ao Crato, como foi o começou de sua atividade medica. Quais eram os seus planos?

HM – Eu cheguei pronto para trabalhar com segurança porque havia me formado em uma das melhores escolas do Nordeste. Comecei a exercer a profissão ao lado dos já consagrados baluartes da medicina estadual como, Antonio Gesteira, Mauricio Teles, Fabio Pinheiro Esmeraldo, Eldon Gutenberg, Carlos Barreto de Carvalho, José Ulisses e Egberto Esmeraldo. Como o único hospital da cidade era o São Francisco, que atendia o município e região, decidi montar a minha própria clinica, sendo a maior do Crato na época e passei a trabalhar dobrado, já que não abrir mão de dar expediente hospitalar. Eu era o único urologista especialista em cirurgia de próstata, a grande novidade da época.

JC – Como cirurgião de próstata, sendo esta a grande revolução da época, o senhor destacaria alguma situação proeminente?

HM – Sim. Eu recebi no hospital São Francisco o velho Januário, pai do rei do baião, Luiz Gonzaga. Ao examiná-lo diagnostiquei que a próstata do paciente estava inflamada e teria que operá-la, porem Januário tinha quase 90 anos de idade, mas com permissão da família fiz a cirurgia e o velho escapou e só veio falecer em 1988. A repercussão foi grande em todo o Ceará. Sem sombra de duvida este meu trabalho me deu uma projeção maior do que imaginava, Até porque, Luiz Gonzaga fez uma musica, ( Vovô do Baião ), sucesso em todo o Brasil, divulgando o meu nome e enaltecendo a operação cirúrgica.

JC – Esse seu trabalho como medico foi a porta de entrada para o senhor ingressar na política?

HM – Sem sombra de duvidas. Os meus pais em Campos Sales não tinham vocação política e na minha adolescência nunca falei com eles sobre isso e nem eles comigo. Acredito que esse trabalho de destaque como medico chamou a atenção de alguns lideres políticos do estado e do município do Crato. Certo dia recebi a visita das lideranças, Filemon Teles, José Horacio Pequeno e Ossian Alencar Araripe me convidando para ser candidato a prefeito do município. Eu pedi um tempo para pensar e fui pedir orientação ao meu pai em Campos Sales. Ele apoiou a idéia e resolvi aceitar o desafio. Filiei-me a União Democrática Nacional UDN, enfrentei o desafio e ganhei a eleição. Administrei o município cratense entre 1967 a 1970. Acredito que fiz uma boa administração.

JC – Como prefeito, quais as obras publicas que o senhor destacaria?

HM – Naquele prédio onde hoje é o museu histórico, funcionavam no pavimento superior, a prefeitura, câmara de vereadores, o fórum e a junta de serviço militar. Na parte inferior ficava a cadeia publica. A minha primeira iniciativa foi alugar um prédio na Rua Ratisbona, Bairro Pinto Madeira, para instalar a prefeitura, comprei outro imóvel para funcionar a câmara de vereadores onde está até hoje e com o apoio do governo do estado construir um novo presídio, o qual serviu de cadeia até poucos dias atrás. Outra obra que eu destaco na minha administração foi a construção de 70 % do prédio onde é hoje a prefeitura. Fui eu que fiz as fundações e entreguei a obra em fase de acabamento, vindo a ser concluída pelo ex prefeito Ariovaldo Carvalho. Também conseguir implantar infraestrutura nos Distritos e zona rural, dotando essas localidades de telefonia, calçamento, água, energia elétrica e escolas.

JC – No governo Virgilio Távora, o senhor foi secretário de saúde do estado nos anos de 1978 a 1982. Esse convite o senhor atribui a sua atuação como medico ou como prefeito do Crato?

HM – Olha, foram as duas coisas juntas. Virgilio Távora era um político observador, articulador e sempre de olho nas coisas. Convidou-me para a pasta da saúde confiando na minha competência medica e na minha experiência como administrador. Desempenhei a função com capacidade, habilidade, idoneidade e aptidão. Esse desempenho me rendeu outro convite que foi o de ser superintendente da Superintendência de Desenvolvimento do Ceará. Função que exerci entre 1983 a 1986. Sai do órgão para me candidatar a deputado estadual, fui eleito e assumir o cargo de 1986 a 1990. Foi ai onde resolvi deixar a política.

JC – Por que o senhor com uma carreira tão brilhante na política decidiu abandoná-la?

HM – Olha como te falei no inicio, eu tinha Virgilio Távora como o meu conselheiro, amigo, uma amizade infinda. Tanto era assim que, não conto as vezes que ele dormiu na minha casa. Éramos irmãos na política. E agora vou te contar a maior tristeza que senti na vida. Nunca havia chorado por outro homem. Mas neste momento eu não suportei, não consegui segurar as lagrimas. Certo dia, fui deixar Virgilio no aeroporto em Fortaleza para ele viajar a São Paulo e pediu minha companhia pra ir até ao banheiro e ele, ao fazer xixi, urinava sangue puro. Eu como urologista fiquei sabendo que aquele momento era o ultimo que eu estava ali junto com meu amigo. Nunca havia visto a olho NU tanta infecção. E não deu outra, dias depois voltei ao aeroporto para receber o meu amigo no caixão. Foi nesse dia que decidi não seguir mais na política, onde fiz muitos amigos e não me arrependo de nada.

JC – O senhor pretende escrever algum livro registrando sua trajetória de vida?

HM – Pretendo sim. Inclusive já tenho muito material selecionado e guardado. Discursos, registros, cartas, correspondências, fotografias, atas e outros documentos que reúnem curiosidades e momentos da minha vida como medico e como político. Não sei quando esta obra literária estará pronta, mas pretendo concluí-la o mais rápido possível e encerrou a entrevista com lagrimas nos olhos.

Humberto Macário de Brito é casado com a senhora Noemita Arraes e Silva de Brito com quem teve três filhos. George Hugo da Silva Macário de Brito, Ana Carolina Macário de Brito e Humberto Macário de Brito Filho. Com 83 anos de idade não exerce mais a profissão de medico de onde, segundo disse, conseguiu bens materiais e espirituais. Conta que a sua profissão de medico lhe deu um patrimônio valiosíssimo: seus amigos e sua família, concluiu.

Por: Wilson Rodrigues para o Blog do Crato
Radialista/Repórter



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