18 julho 2012

Recomendações de Leitura: "A Traição dos Intelectuais".

 Filósofo e polemista de centro-esquerda, Julien Benda nasceu em 1867, militou contra os monarquistas, militaristas e anti-semitas durante o Caso Dreyfus, e foi dos primeiros a alertar, na França, sobre a ameaça fascista nas décadas de 20 e 30. É já nesse contexto antifascista que ele publicou A Traição dos Clérigos em 1927. Prefere falar de “clérigos” em vez de “intelectuais”. Se os dois termos são na prática intercambiáveis (pois Benda pode dar o título de “clérigo” qualquer poeta, pintor, dramaturgo, filósofo ou cientista), o emprego de um termo mais arcaico que o de “intelectual” serve para acentuar a continuidade, desde a Idade Média, de uma categoria de homens claramente identificáveis. São aqueles

cuja atividade, por essência, não busca atingir fins práticos, mas que, encontrando sua alegria no exercício da arte, da ciência ou da especulação metafísica, numa palavra: na posse de um bem não temporal, dizem de algum modo: “meu reino não é deste mundo”.

A Traição dos Clérigos começa citando Tolstoi, que em um de seus escritos lembrava sua experiência como oficial do exército russo. O autor de Guerra e Paz acompanhava um pelotão em marcha, quando viu um de seus colegas espancar brutalmente um soldado que se distanciava do grupo. Tolstoi perguntou para o oficial se ele não se envergonhava de tratar assim um semelhante: “o senhor nunca leu o Evangelho?” Ao que o oficial respondeu: “e o senhor? Nunca leu o regulamento militar?” Esta resposta, diz Benda, é a que o poder temporal, o poder terreno, sempre dirigirá ao poder espiritual, às pessoas que representam os imperativos “que não são deste mundo”.

Para Benda, a traição dos clérigos surge no momento em que estes passam a dizer: “não somos de modo algum os servidores do espiritual; somos os servidores do temporal, de um partido político, de uma nação. Só que, em vez de servi-los com a espada, nós os servimos por meio da escrita. Somos a milícia espiritual do temporal.”

Benda visava sobretudo os escritores e filósofos de direita, os ultranacionalistas de diversos países, tanto Kipling, na Inglaterra, quanto d’Annunzio na Itália e Barrès na França. É principalmente uma frase escandalosa de Maurice Barrès, que para Benda traduz todo o sistema da “traição dos intelectuais”. O célebre esteta conservador, ídolo de uma geração inteira de escritores, declarou certa vez que “a pátria, mesmo se estiver errada, temos de lhe dar razão”. “Right or wrong, my country”: o conhecido lema dos países anglo-saxões recebe, das mãos de Barrès, uma formulação um pouco mais alambicada, embora inequívoca.

Benda critica todas as variantes desse tipo de raciocínio. Em especial, a idéia de que exista uma “verdade particular”, uma “moral particular”, própria a cada época e a cada país, ou, se quisermos, a cada classe e cada pessoa. Eis um em que as idéias de Benda parecem inapelavelmente antiquadas. Com efeito, nada mais comum hoje em dia do que ouvirmos frases como “cada um tem a sua verdade”, ou “esta é a minha verdade, pode não ser a sua”... O problema é que a partir daí, institui-se, é claro, o vale-tudo –na ética, na política, na filosofia.

Escrito por Marcelo Coelho

Um comentário:

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