19 fevereiro 2012

BOM DOMINGO - Histórias e Estórias do Crato de Antigamente - Ivens Mourão*



O MILAGRE

Numa determinada época, chegou no Cabaré da Glorinha uma menina muita “famosa”. Era uma morena do tipo que hoje seria chamada de “avião”. E o Melito foi um dos seus primeiros “passageiros”. Foi contar as peripécias do “vôo” para o meu avô, Luís Martins. Estavam sentados numa mesa da Sorveteria Glória, e o Melito com um ar de mistério e assombro, começou:
- “Seu Luís, o Senhor sabe que chegou uma menina nova na Glorinha? A negra Lourdes? Mas ela não é negra não! É uma morena bonita demais, seu Luís!!!”
- “Já, eu já ouvi falar”.
- “Pois bem, seu Luís, quando me falaram nessa morena fui logo à Glorinha. Quando cheguei lá, eram cinco para seis horas da tarde, hora em que as putas estão tomando banho. Contratei logo a Lourdes para aquela noite. E ela combinou que eu seria o primeiro!”.
E meu avô já começou a rir. E o Melito continuou.
- “Mas seu Luís, quando foi de sete para oito horas eu cheguei lá na Glorinha e fui logo para o quarto com a Lourdes. Mas seu Luís, a negra era alta e do cabelo grande. E nós começamos a fazer o “serviço” e esta negra começou a “judiar” de mim. Me jogava “prum” lado da cama, me jogava pra cima dela, ficava em cima de mim com aquele peso enorme... E eu suando... Ela passava a perna em mim e eu já estava que não me agüentava mais. Que negra para gostar de homem! Taí, uma profissional que gosta de agradar! E ela “judiando”, “judiando”, até que ficou numa posição que quase me imobilizou! E eu procurava ar, seu Luís, e não tinha. E o cabelo da negra suado, caindo no meu rosto... E eu, Seu Luís, nada de ar! Aí, seu Luís, quando eu vi que ia morrer mesmo, me lembrei da nossa Padroeira, a Nossa Senhora da Penha! Fiz uma promessa: se ela me tirasse daquela situação, eu nunca mais na vida voltaria a fazer essas coisas. E, eu tou vivo. Fui valido, seu Luís..., fui valido!”


SARGENTO MORAIS

Quando o Jô Soares apresentava o seu quadro do soldado Geléia, lembrava-me sempre do Sargento Morais, da polícia civil do Crato. Ambos eram extremamente medrosos. A diferença é que o cratense não era gordo.
Mas o Sargento Morais tinha até um pouco de razão em ter medo. Quando era soldado, numa missão, foi esfaqueado por um marginal. Como seqüela ficou com um defeito no braço. A promoção para Sargento foi devido a este fato. Mas, a partir deste incidente ficou extremamente medroso, não se metendo mais em nenhuma confusão. Quando chamado para resolver algum problema, dirigia-se logo para o lado contrário Às segundas-feiras, dia da grande feira do Crato, o índice de bêbados aumentava e, também, as ocorrências policiais. O Sargento Morais era escalado para ficar na beira do rio. Certa vez houve uma briga e não pode fugir, por ter sido perto dele. Então, deu ordem de prisão e o bêbado não se rebelou. Levou o preso para a delegacia, conduzindo-o pelo braço. Mas segurando de leve. Nada de violência. A cadeia ficava na Praça da Sé, prédio histórico onde hoje funciona um Museu. O Sargento teve que passar pela Praça Siqueira Campos. No Café Crato, que ficava na Praça, tinha um grupo de pessoas tomando café. Então alguém comentou:
- “Aquele é o Sargento Morais levando um preso?”
- “É mesmo! Ei! Sargento Morais! Sargento Morais! Vai levando um hoje, hein?”
Quando o preso ouviu isso, parou. Olhou para o Sargento e disse:
- “Espere! Você é que é o Sargento Morais?”
- “Sou sim”.
Então, deu um cotoco para o Sargento e disse:
- “ ‘Taqui’ que eu vou preso!!!”
E foi embora!

O TRATO

Ao final do expediente diário, o Sr. Teófilo, juntamente com o Xenofonte, seu funcionário, fechava o “caixa” que, na verdade, era uma gaveta e recolhia o apurado. Na manhã seguinte o Xenofonte ou um segundo funcionário abria a farmácia. Aconteceu, num determinado dia, do Sr. Teófilo chegar primeiro que todos os funcionários. Ele mesmo abriu a farmácia. Por coincidência, um freguês que estava à espera comprou um produto. O Sr. Teófilo recolheu o patacão na gaveta. Logo em seguida chegou o segundo funcionário e encontrou a farmácia aberta e o Sr. Teófilo trabalhando no laboratório, aviando umas receitas. Nesse ínterim entrou um novo cliente e comprou um medicamento. Quando esse funcionário foi guardar o dinheiro, encontrou um patacão. Então pensou que ficara esquecido. Não teve dúvidas, embolsou o dinheiro. Pouco depois chegou o Xenofonte e se explicou sobre o motivo do atraso. Chegou um novo cliente e desta vez foi atendido pelo Sr. Teófilo. Ao abrir a gaveta para passar o troco, percebeu a falta do patacão. Não teve dúvidas. Chamou o funcionário à parte e disse-lhe:
- “Vamos fazer um negócio. Toda venda que eu fizer o dinheiro é meu. A que você fizer, pode roubar. Assim, devolva o meu patacão.”


A FARINHA

José Teunas Soares foi um dos grandes empreendedores do Crato. Tinha um comércio de atacado de grãos e amealhou uma boa fortuna, possibilitando atuar na área financeira como sócio em Banco Regional. O Sr. Teunas fazia questão de alimentar a idéia de que estava sempre em dificuldades financeiras, criando a fama de avarento, ou seja, popularmente conhecido como “mão fechada”. Mas tudo não passava de uma estratégia, uma forma de exteriorizar o seu senso de humor fino. E com isso, foi criando esta fama.
Ele e sua esposa, Dona Iolanda, eram grandes amigos dos meus pais. E nós amigos dos filhos deles, principalmente do Melchior.
No entanto, quando precisava gastar, não fazia economia. Quando um dos filhos passou por um aperto financeiro, o Sr. Teunas pagou todas as dívidas dele. A Dona Iolanda comentou com minha mãe:
- “Mas Giseuda, eu não sabia que o Teunas era tão rico!”
Em certa ocasião ele estava vindo de Araripina/PE, para o Crato, em um caminhão de boléia aberta, trazendo uma carrada de farinha. O caminhão estava descendo a serra e sobrou numa curva, tombando. O braço direito dele ficou preso debaixo da carroceria, chegando a quebrar. Lembro-me bem de vê-lo com o braço engessado. O motorista se apressou em socorrê-lo. Mas ele, debaixo do caminhão, com uma voz meio espremida, disse:
- “Salve primeiro a minha farinha”.

QUEBRA CADEIRA

O Padre Frederico, além de alto, mais de 1,90 m, era forte. Pesava mais de cem quilos. Em uma festa de aniversário, deram para ele sentar uma cadeira dessas de conjunto de mesa de jantar. Eram ditas ‘modernas’!. Suas pernas eram finas com a seção reduzindo de cima para baixo. Ele olhou para a cadeira, segurou-a numa mão só e girou-a, dizendo:
- “Esta cadeira ‘non’ agüentar”.

Interior da Igreja de São Vicente. A nave central era reservada às mulheres. Os homens ficavam nas laterais.

E o dono da casa:
- “Não padre, pode sentar, agüenta sim!”
- “Olhe lá! Cadeira vai quebrar!”
- “Não Padre, não tenha receio”.
Pe. Frederico não teve dúvidas. Sentou-se com todo gosto! A cadeira se despedaçou toda! Mais que de repente, levantou-se e já foi agarrando a segunda cadeira para sentar-se e ir quebrando uma a uma! Foi quando o dono da festa pediu-lhe pelo amor de Deus para não sentar e arranjou-lhe uma cadeira de ferro. Acomodou-se, em meio à famosa gargalhada.

Fonte: Ivens Mourão
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