07 janeiro 2012

O verbo árido do Ribeiro do Barro - Por: Batista de Lima


Ele veio ao mundo em 1973, em Orós, mas fez de Barro sua morada como o joão que nos dá lições de chuvas. Professor por acidente, alumiou-se lamparinoso na incandescência do verso. Estava escrito desde os cafundós das eras: serás poeta por cima de pau e pedra. Cleilson Ribeiro mira dos alpendres telúricos, varizes e rugas da terra ressequida e fareja o cheiro feudal de uma saudade incendiária. Depois, num soluço banido de seu estro, cavalga as ossaturas das cacimbas em busca de uma água sem insígnia.

Ser poeta é sua sina, o resto é presságio. É o poema que o põe em descaminho, instaurando um lugarejo de fogo, gravado no sal da palavra, verdadeiro afago de chicotes. Por isso foi, com devidas precauções, que em 2004 me hospedei nas páginas auríferas do seu "Do olhar mirando para trás". Diante de tanta fartura poética, pensei que o vate havia se esvaziado por ali, pelo resto dos dias. Mas agora vem ele sertânico, incendiário e incandescente, desembeiçando doidices metafóricas e botando as coisas para enxergá-lo no vazio. Poeta polidor de verbos, amola as ferramentas imagéticas e sai plantando atrevimentos poéticos.

Esse agora "O silêncio laminado no casulo" ganhou o prêmio Caetano Ximenes Aragão, mas merecia ganhar todos os prêmios que por aqui se distribuem como o melhor livro de poemas de 2011. Acontece que o rapaz vive de tocaia lá no Barro do Major Zé Inácio, contando os calos que a mão lhe oferece, e cantando litanias à desolação e ao desassossego. Como seu avô, vive "ansioso por ver pingar do ventre das nuvens / um certo rio acantoado, / que se guarda no coração das chuvas". Dessas chuvas brotam caudalosos rios de palavras.

O que canta esse moço? A vida que se esconde nas canções descabeladas e esquecidas sob a fuligem ancestral dos caminhos. Canta encantamentos, com seu olhar feito de mundo. Humaniza coisas predestinadas ao esquecimento de seus códices. Pode ser uma procissão de poeirentos olhares, uma tardezinha rejeitada pelo dia ou uma novena pesarosa cuja ladainha são resmungos de coisas perdidas. Por isso que, telúrico, esbanja conhecimentos do chão que o viu brotar, desde o nascimento das chuvas aos estertores da tarde que o sol salgou com sua língua de fogo.

Por conhecer seu chão, seu adubo, é que ele canta a agrestividade da falta de chuva, que inferniza a paciência dos mais velhos, rói a esperança, enquanto ciranda o desespero, estilhaçando a paisagem com as lâminas da ventania. Quando termina o dia de fogo vertical, "a noite caminha sob a salmoura das pedras", assobiando palavras desusadas. Para enfrentar essa fornalha é preciso o couro curtido, herdado das gerações pretéritas, e a palavra poética feito brisa de outubro. É preciso adormecer entre suores e acordes de palavras que brotam de "uma voz antiga retendo dores num ladrilho". Cleilson Ribeiro semeia escamas que transformam esquecimentos em lembranças, desesperos em alvíssaras. Essa mania de aguar gravetos que se tornam plantas é milagre que só poetas transfiguram, derretendo resíduos de linguagens.

Cleilson Ribeiro transforma a morte em passarinho. Depois alimenta revoadas com imagens barrocas cravadas em adjetivos inusitados e locuções provocadoras. É então que brotam: "sorrisos enferrujados", "lembranças idosas", "palavras esfaqueadas", "résteas ensanguentadas", "olho exausto", "aboio extenuado", "vilarejos desesperançados", "horizontes engaiolados" e "dias destroçados". Insatisfeito com essa adjetivação que é bem mais ampla, ele parte para o uso das locuções adjetivas ainda mais arrepiantes. Então vão aparecendo: "varizes da terra", "ossaturas das cacimbas", "sal da palavra", "afago dos chicotes", "ventre das nuvens", "fio de vento", "pólen de deus", "cinzas da eternidade", "latifúndios dos retratos" e "pupilas do tempo".

FOnte: Coluna Batista de Lima - Caderno 3 - DN
Foto: Wilson Bernardo

2 comentários:

  1. Cleilson Ribeiro além de um grande amigo é acima de tudo um irmão sobre todos os sentidos.Recentemente lançou um premiado livro No silencio laminado do casulo,livro esse ao qual eu fiz a capa,e é nos ultimos anos um dos melhores livros de poemas que eu ja vie publicado,a altura de um manoel de barros e um Francisco de Carvalho.É uma pena que a midia literaria do brasil não tenha ainda decoberto esse fino talento apurado em metonimias e parabolas do agreste de imagens simioticas de um tempo de revoluções imagisticas.Belo artista em todos sentidos.

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  2. Pois é, Wilson, foi bom você me lembrar esse texto. Ia passar despercebido no mar de textos que saem todo dia nos jornais.

    Deu até um certo trabalho para localizar dentro do DN online.

    Mas aí está. Sei que você é muito fã do Cleilson Ribeiro. Infelizmente, eu não conheço ainda o trabalho dele. Você já fez uma entrevista em vídeo com ele que inclusive está na nossa TV Chapada do Araripe aí pra todo mundom ver, a estória da mesa redonda que não é redonda, mas é quadrada.

    Abraço,

    Dihelson Mendonça

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