08 outubro 2011

Caririensidade -- por Armando Lopes Rafael


O povoamento do Cariri, dizem os historiadores, teve início provavelmente por volta de 1703. Foi quando criadores baianos e sergipanos – seguindo o caminho dos rios – chegaram a esta região vindo – com seus rebanhos – pela ribeira do Rio Salgado e Riacho dos Porcos. Alguns desses colonizadores se fixaram inicialmente na povoação de São José dos Cariris Novos, atual cidade de Missão Velha.

Só depois apareceu por aqui o lendário frei Carlos Maria de Ferrara, responsável pelo surgimento da Missão do Miranda do Brejo Grande, atual cidade de Crato. São, portanto, mais de 300 anos. Tempo no qual a população sul-cearense construiu sua história, saberes e fazeres, usos e costumes, enfim plasmou uma identidade cultural própria.
Temos raízes.
A mim me parece, no entanto, que o atual e globalizado caririense ainda conserva – lá no recôndito da alma – quando nada, a nostalgia dessa caririensidade. Perguntinha ingênua: existiria ainda – num mundo tão globalizado como o nosso – e, particularmente, numa região tão eclética como o Cariri, espaço para defendermos a existência do sentimento que se convencionou chamar de “caririensidade”?
Hoje falamos o linguajar que nos foi imposto pela televisão gerada a partir do sudeste. Vestimo-nos como a população se veste nas demais regiões do mundo: calça jeans, camisa polo ou xadrez. Calçamos o tênis. Igualzinho ao palestino, ou ao arqui-inimigo deste, o israelense. Este, por sua vez, traja igualzinho aos manifestantes que derrubaram as ditaduras no Egito, na Tunísia e na Líbia. Sabemos todos, que o sonho de consumo da paupérrima população cubana é vestir-se igual aos “decadentes” capitalistas norte-americanos. Por isso, o promissor comércio da prostituição cubana fez da calça jeans uma moeda de conversão.
E as comidas que consumimos no Cariri? Se formos a um restaurante caro (ou mesmo a um bom self service) o cardápio destaca logo: Pizza, Spaghetti, lasanha, risoto, Paella... Se optamos por um fast-food, existem dezenas de sugestões, que vão desde o sandwich de salsicha simples, ao hambúrguer com batatas fritas e a inevitável Coca-Cola (e aí meu chefe? vai de light, diet ou KS?).
Sem esquecer outras sugestões como o Beirute, ou as esfihas. As de bacon são as mais consumidas. Como sobremesa, uma boa pedida é o mousse de maracujá. Suprema humilhação: hoje no Cariri se vende mais queijo mussarela do que o de coalho.
Agora experimente numa festa tocar um autêntico forró Pé-de-Serra. A pista de dança fica logo cheia! Ou mande um caririense escolher entre as sugestões do cardápio e um sarapatel... Sugira uma panelada, galinha cabidela, cozido com pirão de farinha, paçoca pilada no pilão com cebola roxa, buchada de bode, baião-de-dois com carne de sol e queijo de coalho...

Aí, meu irmão, prevalecerá a caririensidade...

Um comentário:

  1. Boa lembrança do Armando. Quando ele pergunta, digo nada ingênua: "existiria ainda – num mundo tão globalizado como o nosso – e, particularmente, numa região tão eclética como o Cariri, espaço para defendermos a existência do sentimento que se convencionou chamar de “caririensidade”?
    Claro que existe. A globalização, por mais que queiram, não destitui a cultural local. Há sempre um movimento de resistência que faz reter valores sociais no interior das culturas.
    Da da tapioca à galinha de cabidela, passando pelo beirute, dos primórdios de nossa colonização todos os traços culturais haverão de permanecer, enquanto houver a consaguinidade e a herança social a girar a roda do tempo.

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