30 agosto 2011

São Josemaría Escrivá e o Brasil – por monsenhor Pedro Barreto Celestino (*)



"O Brasil é um continente!". Foram precisamente essas as primeiras palavras de carinho para com o nosso país que ouvi de São Josemaría Escrivá, quando o conheci, em meados de outubro de 1965. Depois, nos dois anos e meio em que vivi perto dele, em Roma, em muitas ocasiões escutei de novo essa afirmação ou outras semelhantes, que manifestavam o interesse e a medida das suas esperanças com relação ao Brasil.

Atrevo-me a dizer que o que à primeira vista fascinou a monsenhor Escrivá no Brasil foi ver a convivência fraterna de pessoas de procedências tão diversas. "O Brasil! A primeira coisa que vi foi uma mãe grande, formosa, fecunda, terna, que abre os braços a todos, sem distinção de línguas, de raças, de nações, e a todos chama filhos", disse. "Grande coisa é o Brasil! Depois vi que vos tratais de uma maneira fraterna, e emocionei-me."

São Josemaría Escrivá esteve 17 dias no Brasil. Chegou ao Rio de Janeiro no início da noite de 22 de maio de 1974 e daqui foi para São Paulo, que era, na altura, a única cidade onde o Opus Dei desenvolvia atividades estáveis. Naqueles dias, reuniu-se com muitos milhares de pessoas, em grupos numerosos ou reduzidos. Com os ouvidos bem atentos, escutou suas perguntas e conheceu episódios que lhe queriam contar.

Surpreendeu-nos a acuidade com que captou os traços mestres do caráter do país. "Tendes que fazer sobrenaturalmente o que fazeis naturalmente; e, depois, levar esses afãs de caridade, de fraternidade e de compreensão, de amor, de espírito cristão, a todos os povos da terra. Entendo que o brasileiro é e será um povo missionário, um grande povo de Deus, e que as grandezas do Senhor, as sabereis vós cantar em toda a terra."

Acho que, em 1974, os próprios brasileiros tínhamos só uma ideia bem limitada dessas possibilidades. Sabíamos, naturalmente, que o Brasil limita-se com 10 países e que não tem disputas de fronteiras; já era conhecida a habilidade de alguns diplomatas brasileiros nos organismos internacionais. Mas a penetração internacional do Brasil ainda era muito pequena. Os jornais não falavam de homens de negócios daqui que ocupassem cargos de relevo em firmas internacionais, e os jogadores de futebol no exterior ainda se contavam com os dedos das mãos. A ajuda que os brésilieurs tinham prestado na cristianização da África francesa parecia um fato histórico isolado, e não nos passava pela cabeça que, na estratégia de Deus, o Brasil estivesse chamado a ocupar um papel importante na difusão das verdades do Evangelho fora das suas fronteiras.

Naqueles dias luminosos do outono de 1974, o fundador do Opus Dei viu com clareza tantos valores positivos que fazem parte do modo de ser e da cultura dos brasileiros. "Há muito trabalho que fazer. Há muitas almas boas no Brasil. E vós tendes no coração o fogo de Deus, aquele que Jesus veio trazer a terra. É preciso pegá-lo aos outros corações. Tendes simpatia e bondade, capacidade humana e sobrenatural para fazê-lo."

Contudo, nada mais equivocado do que pensar que a visão de São Josemaría Escrivá a respeito do Brasil foi de deslumbramento ingênuo. Junto com as coisas boas, percebeu também com agudeza as deficiências e as necessidades. Só que não as viu com o espírito crítico de um observador alheio: viu-as com olhos fraternos, paternos, de sacerdote. Num daqueles dias comentou: "No Brasil, nós os católicos temos muito que fazer, porque se vê gente necessitada das coisas mais elementares: de instrução religiosa e também de elementos de cultura comuns. Temos de promovê-los de tal maneira que não fique ninguém sem trabalho; que não exista um ancião que se preocupe por estar mal assistido; que nenhum doente se veja abandonado; que não haja ninguém com fome e sede de justiça, e não possa saciá-la." Dá segurança pensar que um santo do céu sofreu ao perceber essas deficiências e sonhou com a solução delas.

O bem-aventurado João Paulo II, na sua segunda viagem ao Brasil, disse numa homilia em Cuiabá: "O Brasil precisa de santos, de muitos santos". Embora não tenha nascido aqui, podemos dizer que São Josemaría Escrivá é muito nosso, tem muito a ver com o Brasil.

(*) Monsenhor Pedro Barreto Celestino, nasceu em Juazeiro do Norte. É Doutor em Ciências da Educação (1967) e em Direito Canônico (1970) pela Universidade de Navarra (Espanha). Ordenado sacerdote em 1971, trabalhou até 1990 em São Paulo, como capelão universitário. Atualmente é vigário da Delegação da Prelazia do Opus Dei no Rio de Janeiro.

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