25 agosto 2011

DEFENDAMOS O SÍTIO FUNDÃO! - Por Cacá Araújo




O que restou de placa afixada pelo Governo Estadual na entrada do Sítio Fundão, bem próximo da guarita onde deveria ter um guarda mas está abandonada (foto de Cacá Araújo)

A população do Crato, do Cariri e o do Ceará está indignada e revoltada com o descaso do governo estadual para com um dos maiores patrimônios ecológicos e históricos do Ceará: o Sítio Fundão, em Crato-CE, reserva de 97 hectares pertencente ao Estado. Resquício de mata atlântica, fauna e flora diversificadas, o leito do rio Batateiras, ruínas de casarão, barragem feita por escravos, uma casa de taipa com dois pavimentos e um antiqüíssimo engenho de pau que, segundo o historiador J. de Figueiredo Filho, fora "introduzido no Brasil por volta do século XVII, graças à iniciativa dum sacerdote católico, castelhano, vindo do Peru (...)¹".

Segundo o ambientalista Ed Alencar, aquele secular engenho de pau, único na cidade do Crato e uma das poucas relíquias ainda existentes no Nordeste brasileiro, símbolo de importante fase do nosso desenvolvimento econômico e social, ficou fora do processo de restauração e, "depois de três anos nas mãos do governo, continua no abandono", correndo o risco de se perder para sempre. Ele relata que, em março deste ano, o novo Presidente do COMPAM, Paulo Henrique Lustosa, fez politicagem lá na reserva quando convidou a sociedade e autoridades para inaugurar apenas uma placa indicando a restauração da casa, obra feita por pressão do Ministério Público. "Prometeram restaurar o engenho e até hoje...", afirma com revolta completando que ficou sabendo por vias oficiais que mais nada do que estava projetado
e apresentado na URCA iria ser realizado, apesar da liberação de mais de 1 milhão de reais cujo destino não se sabe.

Leiam a emocionante crônica escrita por Ed Alencar:

DE PAI PARA FILHO - O HERDEIRO DA ÚLTIMA MOAGEM

Ainda criança montado na garupa do cavalo, agarrado a cintura do seu pai Abdon, o promissor ecologista mirim, Jefferson da Franca Alencar, deixava o casarão branco e azul onde moravam, ainda hoje existente às margens da estrada do Lameiro, para trabalharem na tradicional moagem da cana-de-açúcar no velho engenho de pau do Sítio Fundão.

Entre 1927 e 1928, após a morte dos seus pais, Jefferson herdou o Fundão e o velho engenho para dar continuidade à principal atividade que existia no sítio, as moagens, dedicando-se, posteriormente, a fazer da propriedade uma reserva ecológica.

Em 1949 teve a triste missão de encerrar o ciclo familiar das moagens, motivado pela praga da cana que atingiu na época os canaviais da região, além das dificuldades de encontrar bois adestrados, para a formação de juntas que tracionavam as moendas do velho engenho gemedor, tão famoso pela sua estrutura e engenharia seculares. Eu não alcancei estes bons tempos de moagens, mas me lembro que quando criança corria em volta do velho engenho aposentado para espantar os morcegos que se penduravam no telhado do galpão e ouvia as histórias que meu avô contava sentado na calçada ou andando pela mata.

O tempo passou! O herdeiro, Deus chamou! E hoje, ao olhar o que resta desse passado, que dia-a-dia vem morrendo nas mãos do Governo do Estado por falta de atitude, expresso meu sentimento de revolta pelo descaso com a história que é do Crato, do Cariri, do Ceará, do Mundo!!!
______________________________

¹FILHO FIGUEIREDO, José de. Engenhos de Rapadura do Cariri. Fortaleza-CE: (Fac-símile da edição de 1958, publicada pelo Serviço Nacional de Informação Agrícola, Rio de Janeiro) Coedição Secult-CE, Edições URCA, Edições UFC, p. 14, 2010.

Ruínas do engenho de pau do Sítio Fundão (foto de Cacá Araújo)


4 comentários:

  1. ANDRÉ HERZOG COMENTA:

    "Lamentavel. Na minha modesta e interessada opiniao deveria integrar o Geopark Araripe. Assim pensamos e o Professor e Arquiteto José Sales elaborou mesmo proposta para tal"

    André Herzog

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  2. A area que vai da nascente do Rio da Batateiras ate o Sítio Fundão, e seu entrono proximo, possui um significado unico e de multiplas dimensões (mitologica, geocientifica, ecologica e cultural). Notadamente proximo a Cascata temos um afloramento singular do que eh denominado Formação Batateiras, um grupo de sedimentos distintos que registram a transição da Formação Missão Velha, predominantemente composta por depositos de natureza fluvial, para a Formação Crato, composta por sedimentos de natureza lacustre. Possivelmente nao exista em todo territorio um local onde essa transicao importante esteja tao evidente e destacada.
    Dai, na minha opiniao, um importante elemento adicional a justificar a integracao do curso das Batateiras e do Sitio Fundão ao Geopark Araripe, proporcionando ao Crato um dos mais belos exemplos de preservação da natureza, paisagem e cultura, integradas ao unico territorio ou bem do Estado reconhecido pela UNESCO.
    há 4 horas · Curtir

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  3. Que bom ver você postando diretamente aqui, André. Fique sempre conosco nesses assuntos tão pertinentes. Vou trnasformar seu comentário em tópico.

    Abraço,

    Dihelson Mendonça

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  4. Incrível como o prof. André Herzog tem na memória o conhecimento do patrimônio cultural e ecológico do Cariri. Ele coordenou a implantação do Geopark Araripe, à época que foi reitor da Universidade Regional do Cariri.

    Lembro-me de que – naquele tempo – Herzog já defendia que o nosso Geopark – o primeiro do continente americano e do Hemisfério Sul – deveria ser inserido em uma estratégia de desenvolvimento econômico sustentável da Região do Araripe.

    Os que faziam radical e barulhenta oposição ao trabalho de Herzog, chamavam, à socapa, o Geopark de “Geoplacas” (Sic). Essas mesmas pessoas, posteriormente administrando a Urca, fizeram do Geopark Araripe a vitrine das realizações da Universidade Regional do Cariri sem informarem quem teve ideia de implantar o primeiro geoparque brasileiro.

    Nas palestras que proferia, Herzog citava de cor os 7 geotopes e os 26 geocítios que integravam o nascente Geopark Araripe, os quais, segundo ele, formavam verdadeiras janelas educativas da história da evolução do planeta Terra e da vida.

    No comentário acima, o prof. André Herzog aludiu aos microfósseis – cujo estudo é denominado de Micropaleontologia – eque são fósseis visíveis apenas através de microscópio.

    Eles existem nas pedras da Cascata do Lameiro. Poucos cratenses, quiçá raros caririenses – que desfrutam o lazer na velha cascata têm conhecimento da riqueza fossílifera ali existente...

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