14 julho 2011

A Morte de Joli - Por: Francisco Gonçalves de Oliveira


O intenso sol nordestino da Rua São Geraldo em Icó, estado do ceará, compunha o cenário para ambientar a história que eu vou contar. Graciliano Ramos certamente teria escrito sobre joli, melhor do que disse sobre a cadelinha baleia através de sua pena, em que humaniza o animal e animaliza o humano, muito embora, em torno de baleia tudo se humanize. O que tenho para contar são apenas memórias, e memórias são sempre traiçoeiras. Vejo joli deitado, ou trotando ao encontro de alguma sombra que começa a se formar na calçada. Joli, como quase todos os cachorros da rua, tinha dono, mas era como se não tivesse. Havia por parte dos donos um misto de posse e de abandono. Parecia conhecer os moradores da rua, sempre que alguém passava por ele recebia de sua parte qualquer tipo de manifestação, um abano de rabo ou algum latido amistoso. Era uma forma dele dizer: “Oi! como vai tudo bem? Como está quente hoje hem!”

Devido a sua avançada idade, sofria de uma terrível flatulência e também não tinha o mesmo vigor físico de outrora. Mas, apesar da idade e do péssimo estado físico, ainda acompanhava a matilha, nas gandaias pela velha e histórica cidade de Icó, quando pressentia que havia alguma cadela no ciu, não tanto pelo faro, pois esse já não era tão aguçado como outrora, mas pelo entusiasmo, por ser ainda um cão da matilha, os cães, o consideravam o tiozão! Eliminava seus gazes mesmo que estivesse em sono profundo e que nem sempre eram silenciosos. E quando isso acontecia, ele acordava e corria pela rua a latir, talvez imaginando que sua paz estivesse ameaçada. Muitos garotos não muito amistosos com o coitado atiravam-lhe pedras, e o pobre cão corria com seu andar cambaleante tentando livrar-se do apedrejamento, mas mesmo assim ele era um animal da família.

O Rio Salgado, um rio muito importante do ceará, é afluente do rio Jaguaribe. Nasce no cariri e vem banhando o sertão do ceará quando deságua no rio Jaguaribe, outro grande rio onde foi construído o açude de Orós. Suas margens eram utilizadas para, além de uma pelada depois do banho, também como quaradouros, onde podia se avistar uma infinidade de roupas a secar sobre um sol intenso e o vento que amenizava o calor... Era também uma área onde se deixavam os animais mortos. No meu tempo de criança, tínhamos mais medo de cachorro louco que de cobra, animal comum nesse rio, em época de cheia... E como não havia clinicas veterinária para o tratamento de animais e nem campanhas de vacinações como hoje, quando um cão adoecia logo a sabedoria popular sentenciava: É hidrofobia! Uma palavra formada de duas outras palavras de origem grega que significam respectivamente: Hidro= água e Fobia=Temor. E quando um cão contraia essa doença não havia outro jeito senão matá-lo.

Joli esta louco! Correu a noticia e com ela o alvoroço pela rua, era o fim do nosso amigo, e o medo da doença do cão misturava-se com o amor que todos da nossa rua aprendemos a sentir por ele. Acho que os últimos momentos da morte de qualquer vivente são sempre os mesmos, repletos de sonhos, de desejos não realizados, de pena de si, ninguém poderá confirmar nem tampouco dizer o contrário. Na imagem criada por Graciliano Ramos, nos momentos finais de baleia ela ver muitos preás, mas não entende o porquê estão fazendo aquilo com ela, pois está sendo morta pelos próprios amigos, amigo esses, que ela nunca os abandonou e que agora, sem nenhuma explicação, tiram lhe a vida... Joli também não entendia porque naquele momento todos se revoltavam contra ele. Armados de paus, pedras, e uma espingarda previamente preparada para aquele fim, com apenas um tiro, mas um tiro de chumbo, de grosso calibre! joli, com suas patinhas postas, uma de encontro a outra, como que perdoando a todos, despede-se do nosso convívio, da minha rua, da nossa rua, a rua da minha infância...

Por: Francisco Gonçalves de Oliveira

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