04 junho 2011

A Filha do Rio Verde – por Armando Lopes Rafael


Lembro-me bem do meu primeiro livro de leitura. Era um volume fino e comprido, em papel couché, capa grossa e com o titulo “A Filha do Rio Verde”, escrito por Lúcia Miguel Pereira (foto ao lado). Contava a história de uma menina que um dia subira em um peixe e descendo o Rio Verde fora conhecer novas paisagens e descobrir o mundo. Devia ter por volta de 6 a 7 anos quando recebi este livro, dado por meu pai, Antônio Rafael Dias, um entusiasta dos livros, o qual, com o presente, incentivava-me ao hábito da leitura. Coisa que se tornou presente no meu modo de vida até os presentes dias.

Só adulto, senti na plenitude aquele gesto do meu pai. Homem pobre, com muitos filhos para criar, o livro que me presenteara – adquirido numa livraria de Crato, em meados dos anos cinquenta – deve ter custado a ele um bom dinheiro, dado o seu modesto salário. Em troca, restou em mim uma doce recordação que guardei ao longo da minha existência.

Outro dia, recebi um exemplar do Jornal da ANE-Associação Nacional dos Escritores, entidade presidida por José Peixoto Júnior, caririense de Caririmirim (ou Caririzinho) vilarejo localizado no lado pernambucano da Chapada do Araripe. Lá estava publicado um artigo sobre Lúcia Miguel Pereira, a autora de “A Filha do Rio Verde”. Consta no jornal a seguinte informação: “Miguel Pereira, o grande médico brasileiro das duas primeiras décadas do século passado, teve uma vasta prole. Lúcia Vera, ou apenas Lúcia, como ela mesmo se encarregou de simplificar, foi a segunda dos seus seis filhos, precedida apenas pela irmã Helena. Nascida em 12 de dezembro de 1901, era mineira por acaso. Sua mãe, para fugir do calor do verão do Rio de Janeiro, passava uma temporada em Barbacena, quando deu à luz, sem tempo de voltar ao Rio para fazê-lo, como era seu desejo”.

Lúcia Miguel Pereira tornou-se escritora ainda adolescente. Em 1936, escreveu e publicou o livro “Machado de Assis–estudo crítico e biográfico”. Escreveu também uma biografia do poeta Gonçalves Dias, intitulado “Prosa de Ficção”. É autora de quatro livros infantis. O artigo do Jornal da ANE, sobre Lúcia Miguel Pinheiro, foi encerrado assim: “Filha exemplar, companheira perfeita, mãe e avó incomparável, amiga atenta e presente, intelectual e escritora como poucas o Brasil conheceu, a vida de Lúcia Miguel Pereira, encerrada tragicamente, ao lado do seu amado, em 22 de dezembro de 1959, encontrou sua melhor definição na síntese irretocável que sobre ela produziu seu primo e discípulo Antônio Cândido de Mello e Souza: “Lúcia foi um ser de exceção”.

Para mim, na minha meninice, Lúcia Miguel Pereira fez-me descobrir os livros, povoando meus sonhos infantis com a menina Esmeralda montada num enorme peixe, descendo o Rio Verde...
Texto e postagem: Armando Lopes Rafael

Um comentário:

  1. Rapaz, mas você se lembra dessas coisas ainda ? Eu não me lembro do primeiro livro, mas teve um livrinho que me acompanhou do Jardim da Infância até bem pouco tempo eu o tinha, um Atlas, com Mapa Mundi, Mapa do Brasil com os estados, e tinha uma parte de astronomia. Talvez por isso eu sempre fui fascinado pelas estrelas, pelo estudo dos astros.

    Que maravilhosa postagem, Armando! Parabéns. Levou-me para bem longe...

    Abraços,

    DM

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