20 março 2011

E aí, CUT e entidades populares, cadê os protestos contra o Imperialismo Americano?


Eis artigo do publicitário e poeta Ricardo Alcântara, que aproveita a primeira visita de Obama ao Brasil para dar boas bordoadas em entidades como a CUT que, no passado, já estaria nas ruas protestando contra o Imperialismo Americano. Confira:

No, they can´t.
Houve tempo em que a presença de um presidente dos Estados Unidos atraía por toda parte centenas de pessoas para manifestações de protesto contra a ação deletéria daquele país sobre a autonomia dos povos. No Brasil, o centro de operação dos protestos estava no movimento estudantil, cujos destacados militantes são agora pessoas de Estado – e não precisa citar outro exemplo: a presidente da república é uma delas.

Apesar dos agravantes hoje inexistentes, como o clima radical da Guerra Fria e a ditadura militar, no fundamental, quase nada mudou no modo como a América pensa o seu papel e trata o resto do mundo. Sob o pretexto de combater regimes autoritários, impõe ocupações militares em países que contrariam seus interesses. No Iraque, por exemplo, com alegadas motivações de eliminar armas químicas sabidamente inexistentes.

Por outro lado, revela quão retórica é sua defesa dos ideais democráticos ao dar sustentação a ditaduras de longa duração em outros países – pretorados instalados próximos a regiões refratárias à causa imperialista. Comunismo ao chão, o argumento fantasmagórico de combatê-lo perdeu força como motivação para intervenções arbitrárias, enquanto se expandia o circuito das economias liberais, com oportunidades para novos atores. Logo, a América, grande vencedor da Guerra Fria, também perdeu alguns anéis quando o inimigo assinou sua rendição. Passa hoje um processo de adaptação, mas longe de recuar na medida da expectativa internacional.

É, contudo, e o será por muito tempo, por sua expressão econômica e afinidades culturais, um parceiro necessário, embora ainda fiel à sua prática de usurpação – o termo é forte apenas para quem desconhece os números. Decepciona que a CUT, antes tão independente, tenha recuado em seu propósito de mobilizar militantes para uma manifestação pública de desagravo à política externa dos EUA durante a visita de Barack Obama. Grave é que o recuo tenha se decidido sob pressão daquela mesma geração que, agora aboletada no poder, quer recepcionar Obama com uma aparência de uniformidade estranha à paisagem pública dos países democráticos.

Nem precisaria evidenciar que ao governo brasileiro cabe receber chefes de Estado com cordial dignidade, ainda mais a um parceiro tradicional e num momento de aproximação necessária aos interesses comuns. Ponto. Mas é perverso, danoso à democracia, o peleguismo explícito de uma central sindical que se atrela às razões do Estado, silenciando um sentimento cuja expressão é necessária e, mesmo que não o fosse, ainda assim legítimo.

Quem diria que o governo de Lula, um sindicalista que entrou para a história como líder de uma vigorosa reação ao peleguismo, tenha deixado como legado ao país um sindicalismo não muito diferente do que encontrou. A crença de que possa haver um “peleguismo do bem” é prima legítima daquela outra, de que “o fim justifica os meios” – ambas sacramentadas na pia batismal da tirania, de cuja água, turva, um democrata vacinado não bebe.

* Ricardo Alcântara, Publicitário e poeta.
(Foto Portal Uol)

Um comentário:

  1. Como diria o filófoso Homer Simpson: "Nunca diga qualquer coisa a não ser que tenha certeza que todo mundo pensa o mesmo."

    Eis o Brasil de hoje!

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