04 janeiro 2011

NUCLEAÇÕES SÓCIO-ECONÔMICAS COMO BASE PARA A FORMAÇÃO DO CARIRI


Texto de Zé Nilton*

Hoje não se tem mais dúvidas, à luz de escritos e pesquisas históricas, de que as terras sul cearenses desde Icó e em seguida o território dos Cariris Novos foram conhecidas e ocupadas na última metade do Século XVII e primeiros anos do século XVIII.

Na segunda metade do séc. XVII é criada a povoação de Icó após brutais contendas com os índios Icó, Icozinhos e outros, que habitavam as terras paraibanas e cearenses. Em seguida, sesmeiros e posseiros subiram pelo Jaguaribe, alcançaram o Rio Salgado e adentraram as terras dos Cariri. Fortes grupos familiares se estabeleceram na região do Riacho dos Porcos e para além das cabeceiras da Cachoeira de Missão Velha.

Algumas dessas famílias foram adquirindo terras em pleno Vale caririense por compra a sesmeiros ausentes, aqui chegados a partir de 1703.

Não é de todo impensável a presença de moradores assentados no Vale do Cariri a partir do primeiro lustro do Séc. XVIII. É fato que em 1703 um rio-grandense vindo de Jaguaribe, Manuel Rodrigues Ariosa, requer sesmaria de terras hoje ocupadas pelos municípios de Crato e Juazeiro do Norte e Porteiras. Contrariamente a outros sesmeiros aproveitou suas terras economicamente, e quando faleceu, em 1716, seus herdeiros venderam ditas terras para a família Lobato, estabelecida na região de Missão Velha ou Cachoeira.

Nas cabeceiras e margeando o Riacho dos Porcos, na área de Mauriti, Jardim, Milagres troncos da família Dantas se estabelecem desde 1707. Consta ainda a presença de sítios como o Muquém, em terras hoje cratenses, em pleno funcionamento em 1730. Quando da ereção da outrora localidade da Missão do Miranda em Vila Real, em 1764, famílias se encontravam situadas nos pés de serra ocupadas em atividades econômicas nos sítios Urucum, Jenipapeiro e Engenho Almécegas.

Há uma informação segura do pesquisador Pe. Antonio Gomes de Araújo que, após consulta a registros de nascimento, batizado, casamento e morte em arquivos paroquiais de Icó, Missão Velha e Missão Nova, encontráveis a partir de 1727. Diz:

“Quando a Missão do Miranda surge em documentos eclesiásticos relacionados com ela ( ele os encontrou referentes ao ano de 1741), o faz, simultaneamente, ao lado de colonos que satisfazem necessidades espirituais na Igreja da dita Missão”... E cita “os nomes de alguns dos mais topáveis (sic) nos documentos paroquiais da época.(grifo nosso). São cerca de 10 famílias cujos varões detêm patentes de alferes, capitão e coronel.

A presença de um corpo militar do Estado Português em terras da futura Vila de Crato nos leva a imaginar a existência – além de índios - de um contingente de pessoas residindo, produzindo e comercializando com gentes dos Inhamuns e Icó, por exemplo. Até porque havia os caminhos antigos por demais conhecidos como Icó-Cariris Novos e Inhamuns-Cariri, abertos por índios, batedores e grupos familiares em contenda. Continuo fuçando documentos na tentativade superar as desconexões sobre o Século XVIII no Cariri cearense, na busca de contribuir para uma compreensão da nossa formação sócio-cultural para além dos importantes registros regionais. O assunto parece não despertar atenção de acadêmicos e pesquisadores. Em 50 anos de curso de História na região do Cariri, continuamos na aceitação das verdades do discurso eurocêntrico e positivista dos pesquisadores Antonio Bezerra, Pedro Thebèrge, Antonio Gomes, Irineu Pinheiro, João Brígido e quejandos.

*Prof. Zé Nilton é antropólogo e professor do Departamento de Ciências Sociais da URCA.

2 comentários:

  1. Maravilhosa postagem, Zé Nilton.

    Não vi a bibliografia de onde a pesquisa possa ter sido corroborada, mas vindo da sua cachola, só temos que tirar o chapéu das nossas. Texto muito esclarecedor, que como todo texto histórico, pode vir a se tornar controverso.

    Parabéns por nos brindar com algo realmente valioso, dentre tantos escritos igualmente valiosos que nos tem proporcionado.

    Um forte abraço,

    Dihelson Mendonça

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  2. Caro Dihelson.
    Como estas postagens são feitas à guisa de crônicas, acho chato refenciar as fontes. Por isto, deixo sempre o meu endereço para que quem se interessar possa, abrirmos diálogos sobre o assusnto, trocando bibliografias.
    Já aconteceu assim com a Stela Brito. Envie-lhe referências sobre um tema escrito.
    E você o disse muito bem, todo tema histórico está sujeitos à controversa. Pois tudo depende dos pontos de vistas, visôes de mundo, de ideologia, de cultura e asim vai. E é muito bom que assim seja, para o bem da verdade, que é sempre relativa.
    Obrigado por suas encorajadoras palavras.

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