23 janeiro 2011

CRATO - Histórias e Estórias do Crato de Antigamente - Por: Ivens Mourão

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O APELIDO

Esta outra estória de médico e roceiro me foi contada pelo meu pai. Mas, segundo o Luís, também circulou na Praça. Um daqueles coronéis dono de engenho, homem da roça, falou para a filha, moça, de boa instrução, que a mãe dela estava com um problema de saúde. A filha logo identificou que a mãe estava com uma crise de hemorróidas, precisando ir urgente a um médico. Com muito jeito, conseguiu convencer o pai da necessidade da consulta. Orientou-lhe para que, quando fosse falar com o médico usasse a palavra “ânus”, por ser mais elegante e apropriada ao linguajar da medicina. Foram os três para o consultório. A sala de espera do médico, repleta. O casal de velhos era conhecido por todos.

Chegando a vez deles, entram os dois. A filha fica na sala de espera. Pouco depois a porta se abre e aparece só a cabeça do velho. Com um vozeirão bem alto, bem arrastado, fala para a filha:

- “Ô filha! Como é mesmo o “apelídio” que tu botou no XX da tua mãe?

INTRIGOU-SE

Plínio Menna Barreto, como integrante da Marinha Mercante, viajou pelo mundo todo. Quando se aposentou, com uma boa poupança financeira, voltou para o Crato, a fim de fazer só o que gostava: beber cerveja e conversar com os amigos. Era um dos freqüentadores das conversas, na praça Siqueira Campos. Com um detalhe: chegava quando o grupo estava indo embora. Costumava temperar a garganta, emitindo um verdadeiro urro, que se ouvia à distância. Tanto assim que, muitas vezes, quando o grupo ia embora alguém dizia:

- Espera aí, pessoal. Não vamos agora não. Lá vem o Plínio. Não estão ouvindo o urro dele?

Um dia o Plínio apareceu com uma saliência no pescoço, como uma glândula inflamada. Resolveu ir ao Dr. Irineu Pinheiro, seu amigo de velhos tempos. O Dr Irineu era médico, mas a essa época já se aposentara e dedicava-se a escrever a história do Cariri, o que, aliás, fez muito bem. Morava vizinho à Sorveteria Glória. Hoje não mais existe a sua casa. Nota-se apenas a marca do telhado no prédio vizinho, pertencente ao Sr. Ernani Silva. Quando o Plínio foi se consultar com o Dr. Irineu, ele retrucou:

- “Plínio eu não sou mais médico não. Faz tempo que parei. Estou aposentado. Minha preocupação atual é só escrever. Aconselho a você procurar os colegas novos, daqui do Crato. Tem rapazes muito bons, recém formados, com os conhecimentos atualizados”.
- “Ah que é isso, Irineu. Quem é médico não esquece nunca. Eu vou lá me receitar com esses meninos, sem experiência. Eu confio é em você.”

Insistiu tanto que o Dr. Irineu acabou apalpando o pescoço do Plínio. Apalpa daqui, apalpa dali e disse:

- “Olha Plínio, fica muito difícil eu dar um diagnóstico sem os exames necessários. Por isso eu lhe aconselho a procurar um centro mais adiantado. Por que você não vai a Recife, ou mesmo a Fortaleza?”
- “Que nada, Irineu. Eu vou lá viajar! Já viajei demais! Eu quero é aproveitar o meu resto de vida bebendo minha cerveja e batendo papo com os amigos. Você está achando que é coisa séria, não é?.
- “Não sei, Plínio. Não posso fazer um diagnóstico apenas apalpando o seu pescoço.”
- “Já sei você não quer é dizer. É câncer, não é?
- “Não sei, Plínio. Pode ser, ou pode não ser. Insisto, vá a um centro mais adiantado.”
- “Se for câncer quanto tempo de vida eu tenho? Pode dizer, Irineu. Não estou preocupado se vou morrer.”
O Dr Irineu, já não agüentando mais aquela insistência:
- “Sei lá, Plínio”.
- “Pode dizer doutor. Eu não vou atrás de médico nenhum”.
O Dr. Irineu, já para se ver livre, sentenciou:
- “Uns seis meses, talvez”.
O Plínio não alterou em nada o seu modo de viver. Passaram-se os seis meses e nada aconteceu. O Dr Irineu costumava ficar na janela da sua casa, voltada para a praça, observando o movimento da rua. Numa dessas ocasiões, o Plínio vinha no rumo da praça. Quando chegou na calçada do Dr. Irineu, este saiu da janela e fechou-a abruptamente. O Plínio atravessou a rua e foi ao encontro dos amigos, dizendo:
- “Viu só? O Irineu, porque eu não morri, intrigou-se comigo!!!...

SARGENTO MORAIS

Quando o Jô Soares apresentava o seu quadro do soldado Geléia, lembrava-me sempre do Sargento Morais, da polícia civil do Crato. Ambos eram extremamente medrosos. A diferença é que o cratense não era gordo. Mas o Sargento Morais tinha até um pouco de razão em ter medo. Quando era soldado, numa missão, foi esfaqueado por um marginal. Como seqüela ficou com um defeito no braço. A promoção para Sargento foi devido a este fato. Mas, a partir deste incidente ficou extremamente medroso, não se metendo mais em nenhuma confusão. Quando chamado para resolver algum problema, dirigia-se logo para o lado contrário Às segundas-feiras, dia da grande feira do Crato, o índice de bêbados aumentava e, também, as ocorrências policiais. O Sargento Morais era escalado para ficar na beira do rio. Certa vez houve uma briga e não pode fugir, por ter sido perto dele. Então, deu ordem de prisão e o bêbado não se rebelou. Levou o preso para a delegacia, conduzindo-o pelo braço. Mas segurando de leve. Nada de violência. A cadeia ficava na Praça da Sé, prédio histórico onde hoje funciona um Museu. O Sargento teve que passar pela Praça Siqueira Campos. No Café Crato, que ficava na Praça, tinha um grupo de pessoas tomando café. Então alguém comentou:

- “Aquele é o Sargento Morais levando um preso?”
- “É mesmo! Ei! Sargento Morais! Sargento Morais! Vai levando um hoje, hein?”

Quando o preso ouviu isso, parou. Olhou para o Sargento e disse:

- “Espere! Você é que é o Sargento Morais?”
- “Sou sim”.
Então, deu um cotoco para o Sargento e disse:
- “ ‘Taqui’ que eu vou preso!!!”

E foi embora!

FOLCLORE

Os freqüentadores da Câmara dos Comuns gostavam de recitar os seguintes versos do grande poeta popular cratense José de Matos, falecido em 1904, tecendo comentários jocosos sobre famílias tradicionais da cidade, no que eram apoiados pelo Dr. Mozart Cardoso:
Nunca vi Teles valente,
Nem Esmeraldo trabalhador
Nem Pinheiro inteligente e
Nem Alencar rezador.
Nos versos originais do poeta, consta Quezado e não Esmeraldo. Mas, dentre as muitas poesias do José de Matos, gostavam de recitar uma na qual ele se vinga de alguém que se negou e lhe dar um piqui:
Terra boa é o Cariri,
Tem mangaba e tem piqui,
Tem muita moça bonita
E cabra bom no fuzi.

Mais arredó de sete légua,
Tem cabra fi duma égua,
Que nega até um piqui.

SUPOSITÓRIO

O Crato, desde há muito tempo, dispunha das facilidades de médicos e hospitais. Por essa razão, muitas estórias interessantes do pessoal da roça se receitando eram contadas nas reuniões dos boêmios, na Praça Siqueira Campos. Recentemente tinha chegado a novidade do supositório, vindo eliminar aqueles terríveis processos de laxantes, como óleo de rícino. Um médico receitou para um senhor de meia idade, da zona rural, esta novidade, explicando como usá-lo. Forneceu até uma amostra grátis. O senhor ficou com aquela amostra na mão, sem entender bem onde teria que colocar. Muito constrangido, muito tímido, perguntou ao médico:
- “Doutor, o senhor falou para eu meter no ânus???”
O médico, percebendo que ele não conhecia aquele sinônimo, procurou falar um português mais claro:
- “É, sim senhor. Para meter no XX!!!”
E o pobrezinho do homem, já se tremendo:
- “Doutor, não se zangue comigo não!!!”

O PAPA

O Dr. Wilson Gonçalves foi um dos políticos mais destacados do Crato. Foi Prefeito, Deputado Estadual, Federal, Senador e até Vice-Governador. Na época em que foi prefeito nasceu a idéia da Exposição de gado, hoje tão famosa. Sempre que seus afazeres o permitiam, ia ao Crato, para os habituais contatos com “as bases”. A sua residência era na Bárbara de Alencar, próxima ao Crato Hotel. Quando estava na cidade sempre tinha um grupo que não o largava para nada. Eram devotados correligionários. Dentre estes se destacava Maildo Rodovalho de Alencar. Numa dessas ocasiões, o Maildo ia passando na Praça Siqueira Campos, em direção à casa do Dr. Wilson, quando o Walter Peixoto o chamou. Waltinho era adversário político do Dr. Wilson, mas mantinha boas relações de amizade com ele. Walter, então, falou:

- “Maildo, Maildo, venha cá. Ouça aqui esta nota que saiu no jornal de Fortaleza sobre o Dr. Wilson”.

Walter tinha dobrado o jornal, de tal maneira que só se destacava a tal nota. Maildo não enxergava bem e ficou de longe, vendo o jornal. Walter passou a fazer de conta que estava lendo:
- “O Papa acaba de condenar a candidatura de Wilson Gonçalves para qualquer cargo eletivo. Quem votar nele vai para o inferno, pois além dele ser comunista, é maçom. A pena é a excomunhão automática”.
Maildo ficou lívido, pensativo. Aproximou-se mais de Walter e disse:
- “Leia esse negócio aí de novo”.
Walter voltou a “ler” e depois ainda explicou:
- “Maildo excomunhão significa não perdão na hora da morte e passagem direta para o inferno”.
Maildo ficou um tempo parado, olhando para o Walter. Em seguida deu meia volta e comentou:
- “Papa fresco”.

QUEM COM QUEM?

Vizinho ao Cine Cassino, defronte à Praça Siqueira Campos, morava um aposentado. Tinha a cabeça bem branca e os olhos bem azuis. O de que ele mais gostava na vida era das conversas na Praça. Quando via formar-se uma roda de pessoas conversando, não resistia. Saía da sua cadeira de balanço e vinha participar da conversa, para saber das novidades. Ele tinha uma filha que namorava um filho de uma conhecida personalidade do Crato. O que tem de incomum é que os dois namorados tinham, na época, apenas 14 anos, e as famílias não sabiam do namoro. Nesse dia as pessoas estavam reunidas na praça, justamente para falar do namoro das duas crianças. O velho, vendo aquela aglomeração, apressou-se em chegar até a roda. Alguma novidade, pensou.

Como era seu costume, meteu a cabeça no meio do grupo, virando-a de um lado para o outro e perguntou:
- “Quem com quem?”
Alguém se apressou em dizer:
- “Quem com quem? É a sua filha que acaba de fugir com o namorado

OS DOCUMENTOS

O Dr. Luis de Borba Maranhão era advogado, bem conceituado, e político. Tinha tentado ser Deputado várias vezes, sem obter sucesso.


Dr. Luís de Borba Maranhão.

Depois de aposentado ficou cuidando de sua propriedade que ficava para as “bandas da Batateira”, na Serra do Araripe. A Batateira é o local de uma famosa fonte de água artesiana, que jorra alguns milhares de litros por hora. É tão intensa que comporta uma mini-turbina, para gerar energia elétrica. É na subida as Serra para quem vai do Crato para Pernambuco, mais propriamente o Exu, cidade do famoso Luís Gonzaga, o Gonzagão. Na saída da cidade, depois do “Seminário dos Alemães”, existia um posto fiscal. Tinha uma fiscalização mais intensa principalmente por ser o último posto de fronteira com outro estado.

Todos que por lá passavam, tinham que se submeter a uma revista. Portanto, só se passava quando o “guarda autorizava”... Para o Dr. Luís não tinha essas revistas. Todos os guardas já o conheciam e ele passava direto. Mas, um belo dia, estava de serviço um guardinha novato. E, portanto, não conhecia o Dr. Maranhão. Sendo assim, ordenou que parasse. Por essa razão, dessa vez, ele teve que se submeter à revista, muito a contragosto.

O guarda se dirigiu até ele e disse a conhecida frase:
- Os documentos, por favor.
O Dr. Luís não titubeou. De imediato abriu a braguilha e, facilitado pela cueca “samba canção”, juntou tudo com as duas mãos e disse:
- “Taqui” os documentos...

Nunca mais foi parado...

Por: Ivens Mourão - Todos os direitos Reservados

5 comentários:

  1. Impressionante:
    Na primeira foto desta postagem (mostrando, a Rua João Pessoa, na década 40 com o prefeito Alexandre Arraes de terno branco, acompanhando um desfile, tendo ao lado Banda de Música, seguida do Tiro de Guerra) de todos os prédios ali fotografados só restam 2: As torres da Sé Catedral e, ao lado esquerdo, no meio do quarteirão, quase invisível, o da antiga Casa Tamoio.
    Fosse na Europa estaria quase tudo preservado...

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  2. Pois é, Armando! No Brasil é assim, meu amigo!

    Abraços,
    Bom Domingo!

    Dihelson Mendonça

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  3. Armando

    nota-se um pouco do casarão do Coronel Antonio Luiz, não tão bem preservado, claro, mas ainda de pé. Até quando não sabemos.

    Fico imaginando todo esse casario intacto em pleno século XXI, com vários carros de turistas organizadamente estacionados nos becos... e sempre algum jornal de Fortaleza a fazer referência a velha e charmosa cidade do Crato, sul do Ceará, um dos mais belos exemplos de preservação do estado...quimeras, mas sonhar não dá multa.

    Será que isso é, como diz o jargão, o preço do "progresso"???

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  4. Aristides:
    Agora veja a realidade:
    O quarteirão que forma a Rua Miguel Limaverde (que possuía casarões de azulejos portugueses), teve esses prédios aniquilados -- já na década 80 -- por decisão do prefeito Walter Peixoto, sob a alegativa de que era para “alargar” aquela rua e facilitar a passagem dos carros... A prioridade não era o patrimônio artístico construído ao longo de décadas e sim os veículos automotores...
    Povo sem memória é povo sem história!
    A capital do Maranhão, São Luís, preservou seu casario de azulejos os quais foram reconhecidos como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO.

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  5. Pois é. Conversando outro dia com o professor Flávio Queiroz, ele me dizia que era perfeitamente possivel que o Crato tivesse crescido para outros locais. O casario até hoje estaria preservado e seria uma uma atração turística das mais concorridas. Mas infelizmente, como bem lembrado, a visão torta de progresso prevaleceu.

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