20 dezembro 2010

Um jeito de falar esquecido no tempo – Por Carlos Eduardo Esmeraldo


Eu sou de um tempo em que tínhamos mais juízo, pois não víamos televisão, coisa desconhecida por nós cratenses. Falávamos nosso próprio dialeto, hoje substituído pela linguagem padronizada das novelas globais.

Nas tardes de domingo íamos aos programas de auditório das Rádios Educadora do Cariri e Araripe, para vaiar com um sonoro “fiufiu” os calouros que “levavam” “gongo”. E os locutores dessas “estações” de rádio eram chamados de “espiques”.

Que tempos bons aqueles em que nos divertíamos nos dias de feira! As ruas ficavam “apinhadas” de “beradeiros”, que de “boca aberta” “espiavam” “abismados” as janelas do Banco Caixeiral. Mal chegávamos à feira, os “moleques de rua”, “doidinhos” para ganhar alguns “tostões”, iam logo perguntando: “tem carrego”? “Tadinho deles!” Exclamavam algumas “beatas Filhas de Maria”, “compadecidas” daquelas crianças “sem pai nem mãe”. E como era bom ouvir os “chapeados” conduzindo pelas ruas e calçadas “caixões de pinho”, ou grandes “balaios” com as compras e, sufocados pelo peso, gritarem “Óia a mala, óia a mala, óia a mala!...” para pedir passagem no meio da “matutada”.

E quantas vezes eu fiquei na “entradinha” da “Rua da Cruz” esperando a “sopa” para ir ao Juazeiro? Quando as “peruas”, não passavam “entulhadas” de passageiros, eu ia nelas. “Doutras vezes”, algum “chofer” de caminhão “mais camarada" oferecia um “bigu” na “boléia”. Mas para o São José, como “dava só uma légua”, eu ia mesmo era “de pés”. Mas só chegava lá pela “boquinha da noite”, cansado e com “dor desviada”.

Nas seções matinais das séries do Cassino, em dias de domingo, havia uns “cabinhas” “enrolões” que passavam “checho” no porteiro e entravam “de graça”. Era comum a fita “cortar” “parando” o filme. Ouvia-se logo um grito de algum “maloqueiro” exigindo uma “reparação”: “meu dinheiro!” E nós meninos, influenciados por essas séries, quando fazíamos alguma brincadeira mais “arriscada” para “empunhar” os amigos, gritávamos: “thantantan: o perigo da série”!

Perdi a conta de quantas viagens eu fiz no “Misto” do Bodocó que subia a serra pela ladeira da “Matança” e descia na “banda de lá” pela ladeira do “Cancão”, até chegar no “Novo Exu”.

Fui freguês da Casa Abidoral, onde comprava uma porção de “alvaiade” para deixar branquinhos os meus “fanabus” e assim não tirar nota baixa nas aulas de “Educação Física”, que aconteciam às cinco horas da madruga. Quem não fosse com os “fanabus” bem limpinhos levava um grande “carão” do professor, que não tolerava “fanabus emporcalhados”.

Nas noites de domingo as “meninas moças”, usando um “califon” bem maior para os seus tamanhos, “tirado escondido” da mamãe ou das irmãs mais velhas, vestindo “saia godê” sobre “anáguas” com ”bicos” e “bem engomadinhas” e uma blusa “banlon” “arrodeavam” a Praça Siqueira Campos. Perdemos a conta do número de voltas que elas davam em torno da praça. Mas se elas fossem “enfileiradas” na estrada, daria para ir “inté” Fortaleza. Nós, “marmanjos”, ficávamos postados em pé na “beirada” da calçada, vestidos numa calça “faroeste” ou de “tergal” e finíssima camisa “volta ao mundo” para “flertar” com aquelas que nos dirigiam um “encabulado” olhar. E elas comentavam entre si: O meu flerte é um "pão", mas muito "acanhado"! Já faz quatro domingos que ele lança “um olhar pidão” e ainda não teve coragem de “encostar”. E aqueles rapazes mais “atirados” corriam o risco de receber uma “rabissaca” e a qualificação de “bicho veio enxerido”.

De um lado da praça, um grupo de “marmanjos” ficava na calçada da Loja Frigidere para “espiar” as “brechas” dadas pelas “balzaquianas”, quando elas sentavam nos bancos e, provocava os curiosos cruzando as pernas. Em certas ocasiões, as mais “sem cerimônia” recebiam uma “salva de palmas”.

Os “brotinhos” recebiam das mamães a recomendação para voltarem cedo para casa, pois não havia luz elétrica na cidade e, as ruas eram um verdadeiro “breu”. Elas tinham medo dos “rabos de burro”! Então, às nove horas da noite do domingo, a praça ficava um “ôco”. E nós íamos “merendar” na Sorveteria Bantim. Pedíamos uma “bananada”, ou “abacatada”, enquanto alguns comiam um “pão com ovo” acompanhado de “ponche” de maracujá

Quando arranjávamos uma namorada, uns três meses depois, os amigos perguntavam: “Já pegou na mão”? Era a maior ousadia que se permitia e a suspeita de que o namoro “era pra casar”. E quando um casal andava pelas calçadas e o namorado não cedia o lado da parede para a namorada, surgia logo a pergunta: “Tá vendendo?

Todos os dias, “depois” do almoço, “um magote de faladores da vida alheia”, sentava-se no “patamar” da Igreja da Sé para “tirar o couro” de quem passasse “rua abaixo ou rua acima”. Se por acaso um “barbeiro” “guiasse” um velho jipe 52 do pai e “arranhasse” a marcha, vinha logo a exclamação: “Uma abacatada!” E quando se ia contar um boato, perguntava-se antes: vocês me pagam as “alvíssaras”? Se o fato já fosse conhecido, respondiam: “boneco!” Ou substituíam a fala por um gesto equivalente: segurando a ponta da camisa e prendendo-a com os dedos “cata piolho” e o “fura bolo” em forma de circulo.

Naquele tempo, na seleção cratense, o “golquíper” era um Anjo, os “beques”: Silvio e Charuto, os “ralfes”: Peba e Enoque e o “centerfor” era Anduiá. Depois que trocaram os nomes dessas posições, o Crato nunca mais teve futebol que valesse “dois vinténs”.

Se você, amigo leitor, que se “deu ao trabalho” de ler até aqui “essas mal traçadas linhas”, tiver mais de sessenta anos, e não entendeu “patavina”, então é porque você não é “de” Crato! Uma cidade “metida a besta”, que hoje tem costumes globalizados.

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

6 comentários:

  1. Caro Dihelson

    Aí está o texto. Aconteceu que minha internet saiu um pouco do ar, "aliás dos cabos" e eu fui repousar um pouco após o almoço!

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  2. Caro Carlos:
    Li com prazer esta sua crônica.
    Cravei um ótimo na avaliação.
    Identifiquei-me com a mentalidade e ambiente daquele Crato aí descrito.
    Parabéns por sua incursão no campo da Sociologia.
    Armando

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  3. Muito obrigado, Carlos,

    Eu não sei se você concorda comigo, mas devido à proliferação de muitos Blogs na região do Cariri, nós que escrevemos, além do trabalho da escrita, aparece-nos outro grande, que é ter que postar em todos. E vez por outra esquecemo-nos de algum. E o administrador daquele Blog tem aprêço por nossas postagens e se sente magoado se não postarmos lá também.

    E é um prazer que o administrador tem ao ver um bom texto em seu Blog.

    Assim, para um escritor, deve ser meio complicado hoje em dia, se a pessoa estiver cadastrada como escritor, ter de postrar por exemplo no:

    - Blog do Crato
    - Cariri Agora
    - Blog do Sanharol
    - Blog do juazeiro
    - Blog de Barbalha
    - Blog de Farias Brito
    - Cariricult
    - Blog da Ponta da Serra
    - Cultura no Cariri
    - Cariricaturas
    - Coletivo Camaradas
    - Chapada do Araripe onLine
    - Rede Blogs do Cariri
    - Cariri Cangaço

    Quer dizer, um monte de Blogs 14 postagens, 14 esforços, e cada um quer essa postagem lá. Leva-se muito tempo para cobrir todos.

    Eu vou tentar conversar com os administradores dos Blogs da região para propor uma coisa simples: A Rede Blogs do Cariri surgiu para congregar os mais de 100 Blogs que existem aqui na região. Essa é sua função. Muita gente já esta fazendo isso, postando lá no Blog da Rede Blogs do Cariri, e os participantes da Rede, podem pegar à vontade os textos e publicá-los nos seus respectivos Blogs, sem ter que aborrecer e dar trabalho aos autores. As postagens lá seriam livres, ou seja, se a pessoa postou lá, é porque deseja que ela se replique. Daí, se a postagem faltar em algum Blog da região, o administrador pega a matéria lá na central.

    A pergunta: E porque não pegar de qualquer outro Blog ?

    Resposta: Essa prática não é boa, porque muita gente publica em um site mas não concede autorização para que outros Blogs publiquem. Por exemplo, o Zé Flávio não publica seus textos no Blog do Crato. Eu não posso por exemplo, copiar os textos dele para outro espaço sem autorização. O Armando Rafael já publica com exclusividade a sua Coluna Cariri no nosso Blog ( o que somos muitos gratos ), e isso não pode ser replicado. O J. Lopes também. Exclusivo.

    Mas diversos artigos são escritos para serem replicados mesmo, então se a pessoa escrever lá na Rede Blogs do Cariri, estaria concedendo direitos de publicação para quem desejasse. Todos os Blogs. Assim, ninguém ficaria prejudicado e os textos não deixariam de serem publicados.

    O que vocês acham dessa idéia, meus amigos ?

    Abraços,
    FELIZ NATAL - Faltam apenas 4 dias dias! - Falando em Natal, Carlos e Magali, aonde vocês irão passar o natal e Ano Novo, em Crato ou em Fortaleza ?

    Dihelson Mendonça

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  4. Um dica:

    Quando escreverem um comentário muito grande como esse que eu escrevi, geralmente aparece uma mensagem de erro. Essa mensagem muitas vezes não quer dizer nada, basta retornar ao comentário e ele geralmente é publicado.

    Uma dica: Sempre que terminar de escrever seu comentário, selecione todo o texto e copie, antes de publicar. Eu já perdi inúmeros comentários importantes, que gastei quase uma hora redigindo, por não copiar em algum lugar e ao publicar, dá uma pane na internet e o comentário se perdeu. Agora, sempre copio meus comentários.

    Outra dica:

    Quem quer agilizade na internet, deve sempre usar a forma: Abrir link em outra janela, ou outra aba.

    por exemplo, para ver os comentários, nao precisa clicar diretamente no nome X comentários. Você pode clicar com o botão direito e mandar abrir em outra aba. Com isso, evita-se ter que voltar e recarregar toda a página principal, o que demora bastante.

    Outra Dica: Porque os Blogs demoram tanto para carregar ? Se um site é acessado frequentemente, o computador guarda as fotos e os textos numa área chamada CACHE. Se a pessoa demora muitos dias para acessar a mesma página e esta página muda com frequencia ( caso dos Blogs ), o que acontece é que o computador precisa recarregar a página do ponto zero. uma maneira de agilizar mesmo é acessar os sites com mais frequência. Sites com muitas fotos e vídeos demoram mais para carregar.

    Usem sempre a dica de navegar usando muitas janelas. Aprendam a abrir diversas janelas. trabalhos que levariam horas, às vezes, ganha-se a agilidade de minutos.

    Abraços,

    Dihelson Mendonça

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  5. AGORA, SOBRE O TEXTO:

    Carlos Eduardo, uma obra-prima em miniatura. Digo isso com toda sinceridade, porque já havia lido lá no Sanharol. Eu não sei como foi que você conseguiu reunir em um pequeno texto desses e de forma ao mesmo tempo, coerente e lógica, formar uma estória ( ou história ) quase que somente usando esses termos.

    Confesso que alguns eu não sabia, como "Espiques" ( locutores ), mas dá pra entender o porque do nome espiques, que deve vir do Inglês "Speakers" ( que quando traduziram deu em espiques ). Eu percebo muitas palavras dessas usadas antigamente, que tem sua origem na língua inglêsa, francesa ou até alemã. De vez em quando eu flagro uma delas. Vou tentar gravar algumas quando passar por mim.

    Parabéns pelo excelente texto. Infelizmente, os jovens de hoje ( que serão os Velhos de amanhã ), não conheceram essa parte boa do "nosso tempo". E olha que eu sou de 1966, mas já deu pra ver e ouvir algumas coisinhas, não tanto como os mais experientes, mas coisas de qualquer um de hoje se espantar.

    E o mais, cuidado com os Tira-Figo...rs rs rs

    ( Tira-figo ( ou tiradores de fígado eram o que hoje são os "Homens de Preto", uns sujeitos esquisitos que tiravam o fígado das pessoas e botavam um dinheiro em cima para o enterro. Na minha rua em Farias Brito, tinha um velho tão feio que diziam que ele era um "Tira-Figo". Quando ele vinha meio "chumbado" subindo a ladeira, a garotada gritava: "Eita, lá vem o Tira-Figo", e todo mundo corria com medo para suas casas e se escondia até ele passar... )

    Dihelson Mendonça

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  6. Caros amigos Dihelson e Armando

    Esse texto surgiu de uma lembrança que eu tive de uma reunião da Coelce, ocorrida há mais de vinte anos. Estavam presentes os diretores e vários colegas engenheiros. Havia um colega do interior da Paraíba que perguntou: "que ponche é esse?" quando foi servido um refresco com salgados no intervalo. Ele foi vítima de muitas piadas e gracejos. Ou seja, todos “mangaram” muito do “ponche dele. Então eu me lembrei que no Crato da minha infância e adolescência usávamos muitos desses termos hoje sepultados por influencia dos meios de comunicação social. Escrevi o texto de uma vez só, mas fui colocando os termos e parágrafos à medida em que ia me lembrando. Agradeço a participação de vocês.
    Sim, esqueci-me do “papa figo e do “Vicente Finim.” Um grande abraço e Boas Festas

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