18 novembro 2010

A MOÇA DE LAVRAS DA MANGABEIRA - TEXTO DE RAQUEL DE QUEIROZ - Por Edilma Rocha


Uma pintora ilustre, consagrada; quadros seus espalhados pelos museus e pinacotecas de sua terra e do estrangeiro; mais carregada de medalhas de ouro que muito marechal vencedor de batalhas. Exposições vitoriosas. Crítica laudatórias. Consagração na Academia Brasileira de Belas Artes. Currículo tão brilhante é raro: e conquista-lo representa uma vida inteira de dedicação e luta, e principalmente trabalho, trabalho. No final, a gória.

Mas onde começou esta glória ? Em Paris, em Roma, no Rio, nos inúmeros lugares da Europa e América por onde a pintora andou ? Não, por essas terras não eram mais começos, era batalha plena. Tudo começou em uma pequena velha cidade do sul do Ceará - Lavras da Mangabeira. Lá nasceu a moça, de lá alçou vôo. Ah, quem começa na cidade grande não terá nunca a idéia do que representa começar por ser uma moça de Lavras da Mangabeira. Eu sei, porque comecei também por ser uma moça de Quixadá, mesmo Estado, mesma região, mesma linha de trem, sertão, tudo. O Quixadá ainda mais ríspido e difícil, emparedado no seu ninho de monólitos, Lavras, pelo menos mais amena, lavada nos ares frescos do Cariri; na minha zona o boi e o algodão; na de Lavras já a cana, o açúcar, a agricultura superior. Mas tudo Ceará, tudo Nordeste, tudo distância; a moça que nasceu para pintar, como a moça que nasceu para escrever, sentem ambas que aquele reino não é o seu; tem fôlego largo no peito, precisa expandir-se. A terra pequena, com suas limitações, a incompreensão geral, ante a vocação inesperada da menina, as nenhumas possibilidades para exercício e desafio - e ela quer fazer, ela tem que fazer, ela há de fazer !

No começo tudo são flores, admirações, até vaidade alimentada por pai, mãe, tios, amigos. O primeiro desenho, o primeiro verso: meu Deus, que menina mais inteligente, como é que ela sabe copiar uma flor, traçar o risco de um pássaro no céu, desenhar aquela cabeça de homem que parece mesmo estar vivo ? No colégio de freiras ensinam-lhe a técnica do fusain, a cópia de modelos de flores e volutas, as primícias da aquarela; tudo copiado de outros desenhos, outras aquarelas, claro. O resto, a fuga daquelas primicias inocentes, ela tem que fazer sozinha, em casa enquanto prepara o vôo para longe.

Pode-se imaginar a importância do salto, o esforço, as lutas e as lágrimas que lhe custou o desprender-se da cidade pequena, da família, das imposições do ambiente do tempo, da sua condição de moça de boa família, à qual parece mal-soante a sua vocação artística. Ninguem entende - ou talvez só uma pessoa a entenda - a mãe? O pai? Uma irmã mais velha? No caso de Sinhá não sei, no meu, para a fuga, tive facilidade extra - a cumplicidade inteligente de pai e mãe. Mas o resto, o círculo geral, fechava-se em ferro e condenações. Mas Sinhá foi para a Escola de Belas Artes, a Nacional, a do Rio. Cursou a Academia de Belas Artes de Florença. Salto incrível esse segundo, já não mais Brasil, mas Europa, Itália, o estrangeiro. Verdade que aí já tinha a autoridade do êxito; não´há como o êxito para dar segurança e força.

Mas a tarefa de ser uma grande pintora não se mede apenas em termos de êxito pois ela precisa ser pintora em primeiro lugar para ela própria - realizar-se artisticamente, satisfazer-se; terminar a obra, contempla-la e poder dizer a si mesma que aquilo está bem. A sua arte não é apenas inspiração espontânea; a maior parte dela é a técnica, aprendizado, progresso. O laborioso, humilde aprendizado que não acaba nunca; aos vinte, aos trinta. aos cinquenta, aos setenta, aos oitenta anos como agora - trabalhando sempre, progredindo sempre, descobrindo sempre.

Assim se fez, assim continua a refazer-se esta grande pintora, esta grande dama, esta brasileira que, por mares além, tem levado na sua arte o nome do Brasil: Sinhá D´Amora, cearense de Lavras da Mangabeira, orgulho da sua terra, que a gente saúda e abraça com comovida alegria vaidosa de poder declarar de público que é sua amiga, sua admiradora, sua fã.
Deus a abençõe, Sinhá.

Raquel de Queiroz

Texto publicado no livro - Sinhá D´Amora - 40 anos de vida artistica. Tela intitulada - Paisagem do Engenho, de sua autoria ,hoje pretence ao acêrvo doMuseu de Arte Vicente Leite do Crato

2 comentários:

  1. Valeu, Edilma,

    É muito bom que o aniversário de uma das maiores escritoras Brasileiras, Rachel de Queiroz, não passe aqui apenas como uma nota num Almanaque. O texto é muito pertinente, útil.

    Parabéns por trazê-lo a nós.

    Um abração,

    Dihelson Mendonça

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  2. Edilma

    Nem sempre é possível se expor um texto pertinente e original ao mesmo tempo.

    Esse tipo de texto presta serviço à cultura.

    Abraço,

    Claude

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