20 novembro 2010

Mas que almoço indigesto! – Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Quando estudante em Salvador, entre os companheiros de residência, havia um jovem de Alagoinhas, Wedner Costa, um amigo que não vejo há mais de quarenta anos. Soube que hoje ele é um conceituado cardiologista na capital baiana.

Na Semana Santa de 1965, a convite de Wedner, conheci Alagoinhas. Bem depressa fiquei encantado com a beleza da cidade, pois me lembrou o nosso querido Crato. Cidade quase do mesmo tamanho da nossa, igualmente limpa, bem arborizada, repleta de praças acolhedoras com jardins bem cuidados. Além do mais, o português Agostinho Ribeiro da Silva, meu quinto avô pelo lado Esmeraldo, se fixou em Alagoinhas, tão logo chegou ao Brasil ai pelo final do século XVII. Além de tudo isso, fui distinguido com fidalguia pela hospitalidade dos pais de Wedner.

Foi uma semana inesquecível em que vivemos noitadas memoráveis. Depressa fiz amizade com dois jovens de Alagoinhas, ex-colegas de Wedner: Zenon e Homero, que posteriormente foram meus colegas na Escola Politécnica. Como a maioria dos baianos, eles tocavam violão e Homero tinha uma excelente voz. E todas as noites eu os acompanhava em serenatas pelas ruas da cidade até altas horas. Durante o dia, as moças pediam para que eles fizessem serenata na rua em que elas moravam.

No domingo pela manhã, dia do nosso retorno a Salvador, o senhor Lourival, pai do Wedner, me perguntou se eu já havia comido carne de sariguê. Perguntei a ele o que era sariguê, pois nunca ouvira tal nome. E ele me respondeu que era uma pequena caça que havia em abundância por lá e que iria ao mercado para comprá-la.

Achei o almoço delicioso. A carne preparada ao molho parecia com galinha cozida no caldo. Comi e ainda repeti.

Quando terminei o almoço, o pai do Wedner me perguntou por que no Ceará a gente não comia sariguê. Respondi que não existia essa caça em nossa terra. Ele então me disse que tinha, e que sariguê era conhecido no Ceará por “cassaco” ou “gambá”. Passei o resto da tarde contendo a reviravolta do meu estômago.

Mas sariguê não foi o único prato indigesto que degustei na minha vida. Quando trabalhava na Coelce, tinha como atribuição principal o atendimento aos políticos de todas as cores e ideologia um tanto quanto paupérrima. Então me especializei em engolir “sapos”. Por isso faço questão de passar longe de um cururu. E por segurança, não aceito comidas exóticas, pois pode ser que em algum lugar cachorro ou macaco tenham nomes que sugiram algo bem apetitoso.

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

6 comentários:

  1. Oh Carlos, também lá em Bom Jesus da Lapa-Ba cidade onde morei por dois anos; degrustei uns excelentes bifes, passado ao molho sei lá de que. A cerveja bem gelada, final da farra o nosso gerente, com a maior cara de pau perguntou gostaram da carne de jegue. Mas que a carne estava boa ninguem negou. Agora ca pra nós, Carne de Gambá. Sei nao.
    Abraços meu querido primo.
    Jair Rolim

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  2. Carlos voce como sempre faz textos que nos alegra muito. Adoro seu senso de humor. Beijo em Magali.Abraço

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  3. Abraços para Jair Rolim e Claude.

    Se nós aqui no Ceará chamássemos o gambá de sariguê, talvez, por causa do nome, ele fosse um prato da nossa cozinha. Mas os bainos gostam.

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  4. Carlos, um amigo meu me contou em Campina Grande, que ele e uma turma foram comer num restaurante luxuosíssimo de Nova York. Um deles, mais boçal, querendo dar uma de rico, pediu o cardápio, e sem entender patavina dos pratos, já que estava em Nova York e diante dos amigos, resolveu esnobar e pediu o prato mais caro do restaurante.

    O Garçom foi consultar seu chef, e vieram ter certeza se aquele rapaz entendia o que pedia. Ele, sem entender nada direito, apenas confirmou que tinha entendido sim, para o espanto do garçom.

    A conversa rolou solta, o pessoal já morrendo de fome, e em certo tempo vieram vários garçons trazendo em finas panelas de prata a comida. Ao descobrir a tampa e mostrar o "caldo"...

    Eram tipo BARATAS BRANCAS, criadas em cativeiro, por serem limpas, comida exótica...

    Nem preciso dizer que o pessoal quase vomitou. É o que dá matuto ir para os Estados Unidos tentar esnobar...

    Abraços,
    Adorei sua história. Eu teria sentido o mesmo embrulho no estômago. Tanto, que nem Chouriço eu como...urra!

    Dihelson Mendonça

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  5. Embora com quase uma semana de atraso, venho lhe agradecer o seu comentário e as palavras de incentivo.
    Pedir coisa que não se sabe o que é em restaurante dá nas baratas. Parece que seus amigos não assistiram ao Documentário "Mundo Cão" que passou nos anos sessenta. Quanta comida extravagante: formigas, baratas, tanajuras, caranguejeira... se come por esse mundão afora. Eu caí na do casaco, mas juro que fui enganado com a história de caça do baiano!
    Abraços!

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