04 agosto 2010

CRATO - Histórias e Estórias do Crato de Antigamente - A Sorveteria Glória - Por: Ivens Mourão


A SORVETERIA GLÓRIA


O meu tio, Luís Gonzaga Bezerra Martins, irmão da minha mãe (Giseuda de Araújo Mourão), é uma pessoa fora do comum. Encontrar o Luís, “bater um papo” com ele, é a certeza de ganhar o dia. Homem de aguçada inteligência, memória privilegiada e grande senso de humor, tem sempre um prato feito para animar qualquer reunião. A estas qualidades já citadas, acrescente-se o grande dom de contar estórias, dando-lhes um sabor todo especial.

Luís em duas épocas: 1950 e 2003

Ele tem inúmeras estórias engraçadas e pitorescas, de pessoas que viveram no Crato/CE, nas décadas de quarenta a sessenta. São personagens e fatos que não mais encontram ambiente de reprodução nos dias atuais. A vida relativamente calma daquela época propiciava às pessoas o preenchimento do seu tempo com conversas, ações e atitudes, nas quais pontilhavam o senso de humor, a presença de espírito, a ironia. As “rodas de calçada” ou os “bancos de praça” eram o cenário ideal de inúmeras estórias contadas e, muitas vezes, vividas. A televisão e a informática definitivamente baniram do nosso dia-a-dia essas conversas e o ambiente para o surgimento de novos personagens.

São figuras que agregam uma série de detalhes de personalidade que poderiam constar como personagens de muitos livros. Todos eles eram de uma riqueza que as gerações atuais não fazem a menor idéia. Numa mesma época, o Crato foi repleto de pessoas ilustres, inteligentes, literatas, historiadoras, repentistas, críticas, poliglotas, questionadoras políticas etc. E o mais grave e triste: estão volatilizando os últimos vestígios desta verdadeira seleção, com o natural desaparecimento desses personagens e daqueles que conviveram com eles. Eram tempos felizes, nos quais as pessoas viviam com mais espontaneidade, encontrando satisfação nas coisas simples do cotidiano.

Aliás, esta tradição de ser um povo espirituoso, ter sempre uma resposta pronta, é antiga. No século XIX, existiu o Padre Alexandre Francisco Cerbelon Verdeixa (1803 – 1872), cratense que, além de padre, foi jornalista e Deputado Provincial. Morou um tempo em Fortaleza e tinha uma empregada novinha, cuidando dos serviços da casa. Mas, nos falatórios, diziam ser a mesma, amante dele. O Bispo, sabendo desta estória, chamou-o ao Palácio:

- “Padre, você sabe que este povo é maledicente. Faça o seguinte: troque esta sua empregada por uma senhora de sessenta anos. Assim vão parar estes comentários indesejados”.
Como era uma determinação, o Padre submeteu-se. Ao sair, ia pensativo... De súbito, virou-se para o Bispo e, apontando dois dedos, disse:
- “Mas, Senhor Bispo, não serviriam melhor duas de trinta anos?”.

Estórias como esta, do Pe. Verdeixa, o Luís tem inúmeras. Portanto, resolvi entrevistá-lo, em seguidas conversas gravadas, visando perpetuar alguma coisa dessas figuras quase lendárias, para o conhecimento das gerações atuais e futuras. Memórias destes tempos que já não existem mais, numa sociedade de medo em que nos transformamos. O Luís foi personagem, espectador e testemunha de todas as estórias aqui contadas. Algumas delas fazem parte das minhas lembranças ou me foram contadas pelos meus pais e irmãos. Durante um largo período de tempo, o Luís foi proprietário da principal sorveteria do Crato: Sorveteria Glória, no térreo do Grande Hotel, localizado em frente à Praça Siqueira Campos, hoje demolido. Esta Praça era o “coração da cidade”, ponto de encontro diário da sociedade cratense, em “passeios” em torno dela, das seis às nove horas da noite. Depois, muitas dessas pessoas ficavam em conversas até altas horas da noite (doze horas...). Reuniam-se em grupos heterogêneos. O Crato já estava sentindo a deficiência da energia elétrica, gerada na própria cidade, na turbina da Nascente. A energia de Paulo Afonso não era sequer sonhada. O Luís resolveu instalar um gerador a diesel, na sua sorveteria. Com isso pôde implantar quatro postes, que iluminavam o trecho da praça Siqueira Campos, onde se reuniam esses “boêmios”.

Sorveteria Glória no térreo do Grande Hotel. À esquerda a Casa dos Leões, também demolida. E hoje, uma vaga lembrança. No local da Casa dos Leões foi construído o BEC, hoje Bradesco.

O prédio da Sorveteria Glória, poucos meses antes da sua demolição.

O que restou da Sorveteria Glória. O Crato perdendo suas tradições e memórias.

Posteriormente, o Luís passou um período trabalhando no Rio de Janeiro, quando a sua casa transformou-se na embaixada do Crato, na cidade maravilhosa. Retornando à cidade, a sala de espera da sua Imobiliária, no mesmo prédio do Grande Hotel, passou a ser o novo ponto de encontro dos “boêmios”.
O que vou relatar a seguir são estórias verdadeiras, dos anos dourados do Crato. Este, portanto, é um livro de culto à memória de um tempo feliz... Propositadamente alguns nomes dos personagens foram omitidos, visando preservar a intimidade.

Interior da Sorveteria Glória. Fotos colhidas na ocasião em que oficiais da Aeronáutica foram ao Crato para inspecionar o local do aeroporto, sendo recepcionados por autoridades cratenses e integrantes do Rotary Clube. O meu pai, na época presidente do Rotary, é o que aparece na primeira foto olhando para a câmera.

Por: Ivens Mourão - Direitos de publicação cedidos ao Blog do Crato pelo autor. Proibida a reprodução sem autorização do autor.

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