21 agosto 2010

CHRONICAS CARIRIANAS - Por: José Nilton de Figueiredo

Essa doeu!

Por Zé Nilton*

Parece mais um pesadelo quando se vai virando página por página do livro “História do Brasil com Empreendedores”, do escritor Jorge Caldeira, São Paulo: Mameluco, 2009. O homem dá uma estocada lá no fígado de certa intelectualidade pródiga em explicar a historia da formação brasileira pelo viés marxista. Qual um carrasco, no que este tem de impiedoso, o cara se reveste de um maquinário argumentativo e documental de agudas pontas, e se investe terrivelmente na desconstrução axiológica da metodologia do famoso Caio Prado Júnior, na sua obra inaugural “Evolução Política do Brasil”. É paulada pura!

E nós, das Ciências Sociais, que fomos “obrigados”, apesar de você (a ditadura), nos anos sessenta e setenta, a pensar o Brasil pela ótica conceitual de Caio Prado Júnior. Que decepção, a ser verdade as revelações de origem, de formação e de sinceridade intelectual do dito cujo.

É complicado entender que o homem escreve uma obra marcante na interpretação de nossa formação enquanto sociedade periférica, enquadrando-a num referencial teórico de iluminação marxista, sem ainda ter plenificado sua compreensão do materialismo histórico.

Pior, segundo o cruel Caldeira, ele passa a limpo as interpretações históricas de nossas gêneses capitalistas a cópia fiel dos escritos do positivista e racista Oliveira Viana. Pode ?

Não estou fazendo uma resenha do livro. É bom que todos leiam e tirem suas conclusões. Eu já tirei as minhas...

Minha preocupação desde muito é com a História do Cariri do século XVIII e XIX. Aí entra uma particularidade do livro de Jorge Caldeira. Ele fala do pouco alcance da explicação tanto marxista quanto conservadora sobre a economia do século XVIII no Brasil. Ambas não deram conta do que realmente significou a dinâmica do capital por aqui, pois ao reificar o constructo do modelo exportador de nossas riquezas, deixou de lado a existência de uma classe de empreendedores que, “ligada à produção independente e à pequena propriedade, produziu uma economia dinâmica, que crescia em taxas mais elevadas que a da Metrópole – mesmo tendo de lutar contra a ação do governo. Resultado: a economia brasileira, em 1800, era bem maior que a de Portugal”.

É aí onde quero chegar. Era incalculável a riqueza de certas famílias no interior desse Brasil, no período da colonização, principalmente nos sertões distantes do mercado exportador.

Pois quando da elevação do povoado do Tauá em Vila Real de São João do Príncipe, em 3 de maio de 1802, segundo o historiador dos Inhamuns, o eminente Antonio Gomes de Freitas, no seu livro, Inhamuns, Terra e Homens, Editora Henriqueta Galeno, Fortaleza, 1972, o garbo, o fausto e o brilho das famílias empreendedoras da região se fizeram notar, no momento mesmo do ato público de criação da Vila.

Diz Freitas reproduzindo documentos da época:

“No patamar da Igreja via-se reunida em torno do Ouvidor, naquele três de maio, a sociedade tauaense, ofuscando com o brilho, com o esplendor, a comitiva que não se cansava de olhar aquele quadro bizarro de fausto e pompa.

Eram as damas da terra, as senhoras dos fazendeiros e as sinhazinhas, suas filhas, num luxo vienense, de surpreendente elegância com espartilhas a comprimir a cintura, vestidos de anquinhas, enfeitados de renda Racine, vindos do Reino, calçados de velbutina, marroquim ou camurça, grandes pentes de ouro, enfiados em cocós ou, quando sem eles, um pano delicado, uma mantilha de preço, cobrindo-lhes a cabeça. Enfeitavam-lhes gemas belíssimas de ouro e pedras preciosas, brincos, gargantilhas, redomas, trancelins, pulseiras de berloques, longos cordões de ouro, que chegavam a medir até duas braças(sic).

O fausto com que se apresentavam os “grandes” da nova metrópole do Inhamuns, traduzia fielmente a riqueza da terra. Metidos em casacas ou sobrecasacas de pano fino azul ou preto, jaqueta de mangas-justas, algumas vezes enfeitadas de renda na altura dos punhos, coletes de musselina, um por dentro do outro, calções acolchoados abotoados ao joelho, que se casavam com meias de seda fina de Saragoça, colarinhos duros, levantados, com gravatas e meio lenço, chapéus legítimos de Braga e guarda-sóis de variegadas cores, de preferência vigorosas... De par com estes, o capitão-mor dos Inhamuns, José Alves Feitosa.... e demais oficiais das Ordenanças. Garbosos, em vistosos uniformes de gala, com chapéu fino, armado, atadas à cinta longas espadas, de copos de ouro, que se conservava guardadas em estojos de prata. Os sapatos em verniz, de entrada baixa, cravados de fivelas de precioso metal”.

Pra você ver, como quer Caldeira, internamente havia o enriquecimento de grupos que não produziam para exportação e que viviam numa riqueza fenomenal.

Terminando, eu digo que aprendi a desconfiar das teorias totalizadoras que teimam em não reconhecer que o mundo é feito de partes.

*Antropólogo. Professor do Departamento de Ciências Sociais da URCA.
www. figueiredo.jnilton@gmail.com

6 comentários:

  1. Maravilha, meu querido Zé Nilton.

    A propósito do seu excelente artigo, em que revela a preocupação sobre a história do Cariri, eu ouvi de camarote ontem a sua entrevista para o programa Cariri Encantado na Rádio Educadora do Cariri e fiquei maravilhado com o seu trabalho de pesquisa acerca do povoamento do Cariri ( povoamento dos povos não indígenas, diga-se passagem. Povoamento que sempre traz uma espécie de aniquilação de outra cultura ).

    Meu amigo, você já assistiu ao filme: APOCALYPTO com o Mel Gibson ?

    Quero convidá-lo para assistirmos a esse filme juntos aqui em casa em qualquer fim de semana desses.

    Abraços,

    Dihelson Mendonça

    ResponderExcluir
  2. -- 1 --

    Caríssimo Zénilton:
    Beleza de postagem!
    Ela me animou a comprar “História do Brasil com Empreendedores”, de Jorge Caldeira. Dele já conheço “Mauá, Empresário do Império”.
    Quanto ao último livro de Caldeira (História do Brasil com Empreendedores) sei apenas que o autor teria encontrada as idéias fundamentais da obra em Oliveira Vianna e Caio Prado Jr. e não em Marx, como soe acontecer com parte 9felizmente agora minoritária) da intelectualidade brasileira.

    Melhor ainda, Caldeira desmitifica um dos monstros sagrados de nossas ciências sociais, Caio Prado Jr. festejado e celebrado como pioneiro do uso do marxismo na interpretação do país.

    E com sua genialidade costumeira, Jorge Caldeira repõe à verdade reduzindo a avassaladora influência de Caio Prado, junto aos professores das universidades públicas que omitem desvaladamente a importância que os empreendedores tiveram, desde a colônia, na formação da economia e da sociedade brasileiras.

    ResponderExcluir
  3. -- 2 --

    Aliás, comentando o último livro de Caldeira, a revista VEJA publicou longa matéria da qual destaco o texto abaixo:

    “O mercado interno brasileiro não era apenas pujante: ele era maior e mais dinâmico do que o setor voltado para a exportação; por volta de 1800, representava algo em torno de 84% do total da economia. Mas, para que se possa começar a entender a existência e o funcionamento desse mercado, é preciso aceitar a existência de um novo personagem na história – o empreendedor, disposto a buscar a fortuna nas trocas com outros homens. A segunda parte do livro de Caldeira é toda dedicada a explorar a miríade de relações contratuais em que os homens livres do Brasil colônia se engajavam cotidianamente, e eram capazes de produzir meios não apenas de subsistência, mas também de acumulação de riqueza. É assim que se fecha o raciocínio deste livro vigoroso e desassombrado – que terá, para muitos, um sabor de heresia”.

    ResponderExcluir
  4. Zé,

    Também fui "vítima" da interpretação marxista da história (melhor seria usar o termo "enquadramento" ou "engessamento"). Claro que o materialismo histórico, enquanto corrente historiográfica, não pode ser demonizado como foi, por exemplo, o positivismo como um todo. Todas as correntes tem suas validades, seja ao seu tempo seja na contribuição que deram e ainda dão à salutar e imprescindível diversidade ideológica. Ministro a disciplina de História Econômica e utilizo várias categorias do marxismo, como o conceito de modo de produção, mas não procuro incutir nos alunos dogmas de nenhuma ordem. Como já dizia o genial Millor Fernandes - livre pensar é só pensar - é muito mais útil ajudar a desenvolver a capacidade crítica do que apresentar a história como se fosse uma receita qualquer, onde os ingridientes já vem prescrito para que o sabor nunca mude.

    Gostei da sua postagem. Valeu!

    ResponderExcluir
  5. Zé Nilton, esse livro pode ser encontrado na NOBEL ?

    DM

    ResponderExcluir
  6. Caros amigos. Estava lá no Rancho A Morada da Vida, no platô da Chapada, e só agora pude ver suas mensagens.
    Armando, é uma obra desmitificadora, certo, mas como disse muito bem o prof. Rafael, a culpa não é do materialismo histórico e sim de doutrinação, o que também termina por ser uma religião, no sentido em que o próprio Marx coloca.
    Rafael, conheço seu pensamento e tenho em você um ser humano cuja prática beira ao que seria um socialista. Você distribui afeto, fidelidade e o pão a todos amigos ou não.
    Dihelson, vi o filme e o tenho comigo. Mas será bom ver de novo trocando comentários.
    O livro comprei no Iguatemi. Acho que terá na Nobel.
    Abraços em todos.

    ResponderExcluir

Visite a página oficial do Blog do Crato - www.blogdocrato.com - Há 10 Anos, o Crato na Internet.