03 junho 2010

Um gesto de humildade – Por Magali de Figueiredo Esmeraldo

Há alguns anos, eu estava assistindo a celebração do Lava-pés, na Quinta-feira Santa, na paróquia que participo em Fortaleza. É muito significativa para a Igreja Católica essa celebração da Ceia do Senhor.

A missa do Lava-pés relembra o gesto de Jesus Cristo, que lavou os pés dos discípulos em sinal de humildade, solidariedade e igualdade entre os homens. A cerimônia lembra também, quando Jesus instituiu a Eucaristia, ao partir o pão e distribuir com os seus discípulos.

Eu estava sentada num local privilegiado, bem em frente ao altar, pois tinha sido escalada para fazer uma leitura. Dali poderia ver bem de perto a cerimônia do Lava-pés. Já tinha doze homens escolhidos com antecedência para representar os apóstolos. Anualmente são escolhidos homens conhecidos e que participam dos trabalhos da comunidade paroquial, geralmente representantes das diversas pastorais. Estavam sentados na lateral do altar, seis de cada lado. Todos vestidos com uma túnica apropriada, os pés limpos, pois o padre iria passar lavando, enxugando e beijando os pés de cada um. Quando o padre iniciou a cerimônia do Lava-pés, um mendigo entrou pela nave principal da igreja, sujo, mal vestido, com um saco preso às costas. Ele ficou em pé de frente para o altar, interessado em ver o que o padre estava fazendo. Parecia ser o mais excluído dos excluídos, tão pobre e miserável era a sua aparência. Como os lugares estivessem todos ocupados, o padre fez um sinal para que ele sentasse no batente do altar. O homem ficou atento. Pensei que o padre iria mandá-lo sair. Esse padre havia chegado à Paróquia há poucos dias e, as pessoas estavam falando que ele era antipático, pois não cumprimentava ninguém e tinha a cara muito fechada. Esse tipo de falatório ocorre sempre quando existe uma mudança de comando na direção de uma paróquia ou de qualquer organização.

Tão logo o padre terminou de lavar os pés dos homens que representavam os apóstolos, desceu o batente com a jarra de água e lavou os pés imundos daquele excluído, enxugou-os e beijou-os. O pobre homem ficou tão surpreso com esse gesto de demonstração de amor, que quis beijar o sapato do padre. Mas este não deixou.

Senti naquele momento a presença Deus, mandando um sinal para a comunidade aceitar o padre e entender que as pessoas podem ter defeitos e qualidades. Também percebi que Deus queria mandar um recado para todos nós: exercitar o amor pelos excluídos da vida. Que fazendo a nossa parte, ajudaremos a construir um mundo melhor, com mais paz e justiça para todos. Tudo isso me tocou profundamente e passei o resto da missa tentando enxugar as lágrimas que teimavam em rolar pela minha face. Para mim, foi emocionante ver o padre imitando o gesto de humildade de Cristo. Esse fato serviu de exemplo para mim e penso que para todos que estavam próximo daquele local.

Depois daquela ocorrência, muita gente que presenciou esse momento marcante passou a admirar e aceitar o padre, que com aquela atitude nos deu uma lição de como devemos exercitar a nossa humildade.

Por Magali de Figueiredo Esmeraldo

5 comentários:

  1. D. Magali, nota-se que a senhora é uma cristã de sensibilidade ao perceber numa cerimônia tão importante um verdeiro gesto cristão.
    Ao ler sempre os seus artigos identifiquei-a através de uma conterrênea do Crato, como sendo filha do Dr. Aníbal. Seu pai foi meu dentista na infância; e ainda guardo na minha memória o perfume de sua mãos (naquele tempo não se usavam luvas) cuidadosamente sempre bem lavadas após cada atendimento, além de ser um profissional educado, carinhoso com seus pacientes.

    Dion Pinheiro Teles Filho
    Fortaleza-CE

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  2. Querida Magali, veio lágrimas nos olhos agora com essa sua história de humildade e carinho. Esses bons exemplos são na minha opinião, os maiores legados da humanidade. É tão bom saber que ainda existem pessoas boas no mundo, que existem pessoas capazes de gestos grandiosos não premeditados! - E isso faz parte do caráter também.

    Eu costumo dizer sempre que:

    "O mundo precisa mais de homens de bom caráter do que de gênios".

    Um forte abraço,
    Esse foi um dos textos mais emocionantes que eu já li nos últimos tempos. E nem precisou sem crônica nem fabula. Foi um fato REAL.

    Dihelson Mendonça

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  3. Dion, muito obrigada por suas palavras incentivadoras. Fiquei também sensibilizada por você lembrar do perfume do sabão que papai usava para lavar as mãos. Pelo seu nome vejo que você é parente de Carlos, meu marido.
    Desejo-lhe felicidades e muita paz!

    Atenciosamente

    Magali

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  4. Que bom que você se comoveu com essa história, Dihelson. Já estava com esse texto pronto antes da Semana Santa, mas relutei em colocar porque houve aquela época dos ataques aos padres. Sei que não se pode generalizar os defeitos dos padres.
    Deixei para postar agora em que está reinando a paz no Blog. Deixaram os padres mais sossegados.
    Obrigada pela delicadeza de suas palavras que servem de estímulo para mim.

    Abraços

    Magali

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  5. Que ótimo, Magali. Hoje em dia o Blog do Crato transparece a própria PAZ que deve representar esse feriado de Corpus Christi. Não vemos mais por aqui aquelas intermináveis brigas de facções nem ataques gratúitos que agora mudaram de endereço. Isso me deu mais tempo para produzir mais e cuidar do espaço, e poder trazer sempre algo que edifica, que constrói. Como esse seu texto também.

    Abraços,

    DM

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