29 junho 2010

Médicos duvidam da eficácia dos genéricos


Há mais de uma década no mercado, os remédios similares e genéricos ainda enfrentam a resistência de médicos e não são usados por hospitais de ponta como o Albert Einstein, o Sírio-Libanês, o Oswaldo Cruz e o São Luiz.Esses medicamentos, líderes em vendas e os mais indicados no SUS, têm sua eficácia questionada por médicos de várias áreas, que não os receitam aos pacientes. Ao mesmo tempo, como lembra Gilberto de Nucci, professor de farmacologia da USP e da Unicamp, não existem estudos científicos que justifiquem a desconfiança.

"Perdi a confiança nos genéricos", diz o professor aposentado de farmacologia e clínica médica da USP Antonio Carlos Zanini. "Se é um medicamento do qual possa depender a vida, eu não uso e não deixo ninguém em casa usar", diz.

TESTES

Zanini, que comandou a vigilância sanitária nos anos 80, diz que a fiscalização é falha. Hoje, exige-se teste no licenciamento do genérico e, daí para a frente, "ninguém sabe o que ocorre", diz.Para o professor, o órgão deveria fazer testes de surpresa, criando alguma incerteza capaz de levar os laboratórios a manter a qualidade. Mas a maioria dos médicos concentra seus ataques nos similares, já que muitos deles, ao contrário dos genéricos, não passaram por testes de bioequivalência. Esses testes provam que o remédio é absorvido pelo organismo em igual quantidade e na mesma velocidade do medicamento de referência. Os similares respondem por 65% das vendas no país. Por causa dos preços mais baixos, tornaram-se os mais usados no SUS, segundo pesquisa da Escola Nacional de Saúde Pública, da Fiocruz. O Ministério da Saúde diz que cumpre a lei de licitações, que privilegia o menor preço. Alega que, até 2014, todos os similares terão comprovada a bioequivalência. "Eu não deixo meus pacientes usarem [os similares], não admito", afirma o presidente da SBCM (Sociedade Brasileira de Clínica Médica), Antonio Carlos Lopes, que é também professor titular da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Para ele, como os similares não passam por esses testes de bioequivalência, não são confiáveis. Porém, quando atende no hospital público, Lopes diz não ter escolha. " É a licitação que manda." O infectologista Artur Timerman diz que evita prescrever antibióticos similares porque, em algumas situações, o remédio (cloridrato de ciprofloxacino) não funcionou. "Aconteceu tanto no tratamento de infecção urinária quanto de gonorreia." Na mesma toada vai João Massud Filho, da Unifesp, pesquisador na área de novos medicamentos: "Os similares são uma aberração. É como a jabuticaba; só existem no Brasil".

Apesar da resistência, a Anvisa e a Alanac (Associação dos Laboratórios Farmacêuticos Nacionais) afirmam que esses medicamentos são seguros e eficazes. Por determinação legal, os similares não são considerados "intercambiáveis" com os medicamentos de referência, ou seja, não podem substituir os de marca, como acontece com os genéricos. De Nucci tem uma explicação singela para a resistência dos colegas: "Pesquisas mostraram que 92% dos médicos receberam brindes da indústria farmacêutica. E os outros 8% são mentirosos. Eu posso dizer, porque sou médico". Massud relativiza o argumento, lembrando que fabricantes de genéricos e similares fazem parte da indústria e também distribuem benesses para médicos e bônus para farmácias.

Fonte: Folha.com

2 comentários:

  1. Este foi um dos artigos mais interessantes sobre Genéricos e Similares que eu li. Trata-se de um assunto sério e extremamente complexo, pois os motivos para comentários passionais são muitos. Com conhecimento de causa eu afirmo que Dr. Antonio Carlos Zanini foi um dos palestrantes que viajou a Brasil inteiro defendendo os genéricos (custos pagos pela Indústria de Genéricos), sua decepção é duvidosa, mas outras desconfianças são relevantes, pois é do conhecimento de todos que vivem no meio, aqueles que realmente se interessa pelo assunto, que a lei dos genéricos foi uma decisão política e bem aproveitada inicialmente por meia dúzia de laboratórios nacionais, que fizeram fortunas e continuam a fazer, incentivando a automedicação e a troca de prescrição médica mediante comissões a balconistas, ou seja, política comercial agressiva de bonificações altíssimas para os comerciantes (eles compravam 100 unidades e recebiam até + 200 unidades sem pagar nada), os jeitos que eram dados com a fiscalização eram os mais diversos, hoje esta mais difícil, mas se faz alguma coisa parecida. Com a Lei dos Genéricos e o então Ministro da Saúde que nada conhecia sobre saúde e seus players fazendo propaganda em benefício deste segmento farmacêutico e mostrando como trocar uma prescrição, usando inclusive um produto de referência diante das câmeras, estes inteligentes fabricantes aproveitaram a oportunidade e a ignorância dos consumidores, como a maioria é até hoje no assunto, para deitar e rolar. Genéricos e Similares de qualidade devem ser respeitado, prescrito e dispensados nas farmácias, mas algumas bombas precisam ser fiscalizadas e punidos seus fabricantes e comerciantes. Estas bombas existem.

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  2. Os comentário do Dr. De Nucci foram infelizes, entrou para falar de um assunto que não domina. Existem suspeitos neste mercado, mas temos muito mais gente séria do que ele imagina, inclusive em sua classe profissional (médicos). A verdade é: A Indústria Farmacêutica é forte no Marketing, agressiva em suas políticas comerciais, silenciosa e muito importante para sociedade, junto a ela vêm diversos profissionais éticos e suspeitos, tais como: Executivos, médicos (inclusive professores de instituições renomadas no Brasil e no mundo), farmacêuticos, comerciantes e muitos aproveitadores. Caso nossos Governos Federal e Estadual deixasse de se preocupar com peixinhos que ficam na malha e olhasse para os tubarões que passam sobre ela, muita coisa mudava.

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