16 junho 2010

Coisas do futebol – Por Carlos Eduardo Esmeraldo


A terceira partida do Brasil na Copa do Mundo de 1958 era contra a poderosa seleção da antiga União Soviética. O Brasil não poderia sequer empatar. Segundo os jornais da época, o esquema de jogo da URSS era armado por poderosos cérebros eletrônicos. Antes do jogo, o técnico Feola orientava os jogadores assim: “Nilton Santos e Zito desarmam as investidas dos russos e lançam para Didi no meio do campo. Didi dá um passe de cinqüenta metros para Garrincha na ponta direita. Garrincha dribla dois defensores do time adversário e cruza para Vavá na entrada da área. Entenderam?” Perguntava o técnico. Ai Garrincha falou: “Só uma dúvida, seu Feola. O senhor combinou isso com os russos?”
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A propósito, o gorducho Vicente Feola, além de entender de futebol, sabia lidar com o psiquismo humano, como poucos psicólogos fariam. Na véspera do jogo contra a URSS ele precisava barrar Joel, o ponta direita titular e escalar Garrincha em seu lugar. Então, ele reuniu os jogadores e comunicou solenemente: “Pessoal a partir de hoje o Joel será o chefe de disciplina dos atletas. Quem precisar se ausentar da concentração deverá pedir permissão a Joel. Qualquer problema que tiverem, conversem com o Joel.” Claro que Joel ficou morto de satisfeito quando seus companheiros pediam permissão para irem até a calçada do hotel. No dia seguinte, antes do jogo, Feola começou a distribuir as camisas. Então sem dizer nada ao Joel entregou a camisa a Garrincha. Joel não pôde protestar. Afinal ele era o chefe da disciplina da equipe.
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Em 1958, o Ceará possuía um dos maiores goleadores da história do futebol cearense, o centro avante Gildo. O jogo contra o obscuro Nacional era importante, pois se o Ceará perdesse ou empatasse se distanciaria mais ainda do Fortaleza que liderava o campeonato. Aconteceu que o goleiro do Nacional, um certo Jairo, estava fechando o gol. Fazia defesas sensacionais. Aos quarenta minutos do segundo tempo, Gildo recebeu uma bola cara a cara com o goleiro. Colocou bem no canto e o Jairo segurou a bola, sem nenhum rebote. Gildo então se dirigiu ao goleiro do time adversário e assim falou: “Jairo, essa sua defesa foi a mais bonita que eu já vi um goleiro fazer. Desejo lhe cumprimentar. Toque aqui.” Ao ouvir isso, o ingênuo Jairo, cheio de contentamento, soltou a bola, esquecendo-se de que a havia recolocada em jogo. Então foi apertar a mão do Gildo. Este, ao ver a bola no chão, imediatamente a chutou para o fundo das redes. Gol do Ceará. É claro que o juiz validou o gol, a bola estava em jogo.
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Em 1959 o time do Botafogo do Rio de Janeiro excursionava pela América do Sul. Todos queriam ver seus campeões mundiais Nilton Santos, Didi, Garrincha e Zagalo. Num jogo no interior da Colômbia Garrincha driblou toda a defesa do time adversário e ficou na frente do goleiro fingindo que ia chutar. O técnico gritava desesperado, mas mesmo assim Garrincha demorou a fazer o gol. No vestiário, o técnico perguntou por que ele havia demorado tanto para chutar aquela bola. E Garrincha respondeu: “Seu João, o goleiro deles demorou a abrir as pernas...”
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Na quinta-feira da Semana Santa de 1961, o Vasco da Gama do Rio de Janeiro, time do meu coração, jogava contra o Santos de Pelé, em pleno Pacaembu e, aos quarenta e quatro minutos do segundo tempo ganhava o jogo por dois a zero. Naquela época, o Vasco possuía uma temível dupla de zagueiros praticamente intransponível: Brito e Fontana. Durante o jogo inteiro, Pelé não passara pela muralha que eram esses dois jogadores. Foi aí que Fontana abriu a boca para irritar o rei Pelé. “Brito, cadê o rei? Me disseram que nós íamos jogar contra o time do rei e eu ainda não vi esse rei em campo.” Pelé ouviu tudo calado. Recebeu uma bola no meio do campo, lançou Dorval, este chutou e o goleiro do Vasco jogou para o escanteio. Na cobrança do corner Pelé pulou mais alto do que Fontana e cabeceou para o fundo da rede. Batido o centro, o próprio Pelé desarmou o ataque do Vasco em formação, correu pela direita, passou a bola por baixo das pernas de Fontana, lançou-a ao gol com um chute fortíssimo e empatou a partida. Em seguida, o próprio Pelé foi buscar a bola no fundo das redes e entregou-a ao Fontana dizendo: “Leve pra casa e entregue a sua mãe. Diga a ela que foi o Rei que mandou de presente.”

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

9 comentários:

  1. Carlos,

    E você se lembra daauele jogador famoso que foi jogar em Belém do Pará, e os repórteres perguntaram como ele se sentia jogando em Belém e ele disse:

    "Eu me sinto muito bem, jogando aqui na cidade aonde Cristo nasceu"

    Esqueci o nome desse jogador agora...

    eeheheheh

    Abraços,

    DM

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  2. Dihelson
    Não conhecia essa. Mas tal jogador era dos bons, pois pelo menos sabia que Jesus havia nascido em Belém.

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  3. Mas Carlos a melhor de garricha na copa de 58 foi ele ter comprado um radio. Chegando no hotel o Didi viu o rádio e ficou louco pelo o aparelho. Não tendo como ir comprar um igual, pensou e tascou esta em cima do garricha: Garricha liga ai esse negócio. O radio transmintindo em lingua sueca, ninguem entendeu nada. Ai Didi muito esperto diz e ai garricha voce nao entende nada para que vc quer este radio. Garrinha muito fulo da vida, naao teve outra alternativa, terminou dando o radio para o Didi.
    Jair Rolim

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  4. Caro Jair
    Conhecia outra versão em que era uma excursão do Botafogo na Alemanha e Garrincha foi o comprador dorádio ao goleiro Manga.
    Abraços e obrigado

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  5. Sendo os textos de sua autoria ou pesquisados considero as postagens do Carlos Eduardo Esmeraldo como das melhores no Blog do Crato e nos espaços onde colabora como o Blog do Juazeiro.

    Muito bom mesmo.

    Parabéns!

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  6. Caro Beto Fernandes

    Puxa, amigo Beto, você encheu a minha bola!
    Na verdade, esses episódios foram lidos em jornais na época de sua ocorrência e que guardei na memória.
    Obrigado.

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  7. Os textos autorais tem sempre prioridade sobre os textos de notícias copiativas. Por isso mesmo, eu ontem subi esse texto do Carlos Eduardo ao Topo, porque eu sabia que hoje iria ter uma enxurrada de textos que o levariam para baixo.

    Quero dar uma boa notícia de que estou contratando um outro servidor e tentando mover todo o Blog do Crato pra lá. Se isso ser certo, poderemos voltar ao estilo de nates de ter umas 40 postagens na página principal e muitos desses problemas desaparecerão.

    Abraços,

    Dihelson Mendonça

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  8. Caro Dihelson

    Obrigado pela deferência. Mas nós já nos acostumamos que escrever para um blog implica numa brevidade de exposição dos textos, graças a velocidade em que as postagens são efetuadas. Bem diferente de quando se expõe um texto em jornais, revistas ou livros.

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  9. Prezado Carlos, eu já pensei nisso também, e é por isso que estou bolando um sistema em que as crônicas serão permanentes e expostas.

    Além do mais, se Deus quiser, no fim deste ano nós faremos a comemoração dos 5 anos de Blog do Crato, quando eu pretendo lançar um volumoso livro, espécie de Enciclopédia ilustrada, com os melhores artigos de 5 anos do Blog do Crato. Um livro que não poderá faltar a quem verdadeiramente ama esta terra. Vai coincidir com vários eventos do Blog, como a premiação da garota Blog do Crato.

    Abraços,

    Dihelson Mendonça

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