20 junho 2010

Circulo estrelado ou nosso mundinho de artista


Por Alexandre Lucas

O gueto é um mundo fechado com discurso de liberdade, tal qual festinha de artistas. Quanto mais os artistas se fecham nos seus círculos estrelados, mas a arte se distancia do grande público, em especial na contemporaneidade, na qual muitos artistas tentam a todo custo fazer sobressair a forma em detrimento do conteúdo, ou, muitas vezes o conteúdo é tão distante da realidade das camadas populares, que acaba criando não só o estranhamento, mas a própria aversão a muita coisa do que é produzido.

No Renascimento, os humanistas por exemplo preferiam escrever em latim do que na sua própria língua para distanciasse das massas. Na atualidade muito dos nossos artistas falam para dentro dos seus guetos e produzem para eles. A arte torna-se um entretenimento para ser mostrada aos amigos, criando uma espécie de moeda de troca entre iguais, somente os dos círculos estrelados entendem (faz de conta que entendem) e somente a eles bastam!

O povo que se lasque! O povo é um corpo estranhado neste circulo estrelado. O povo não entende de arte? (será?). Na acepção de muitos artistas, as camadas populares são alienadas e tem uma preferência estética das piores e por isso não compreendem as grandes maravilhas dos iluminados (grandes iluminações?).

Parece-me que vezes, a arte para alguns guetos é um entorpecente, um fim por si só. O contentamento (o prazer) é gerado em reunir os amigos em um só canto, num canto de afinidades e pronto, ponto final mesmo.

Pertenço a esse circulo, apesar de me ver fora dele. Cansei de fazer arte para artistas. Quero uma arte conjugada com o povo e com a dimensão da vida. Uma arte que tenha as cores verdes e amarelas, vermelha e branca, o batuque dos ancestrais e o som eletrônico, o cheiro das rosas e o suor do descarrego, o sorriso gratuito e a revolta contra a opressão, o olhar da inquietação e de inclusão, uma arte que possa ser festa pública e não festinha para artistas. Uma arte que seja sinônimo de participação ativa, de coletividade, de fraternidade e humanização.

Espero que um dia possamos ser um exército de artistas que falem, pintem, dramatizem, dancem e cantem para os excluídos da arte, ou melhor, que a arte não seja roubada da vida de cada um.

Acho que sou (somos) um corpo estranhado neste círculo estrelado.

*Coordenador do Coletivo Camaradas, pedagogo e artista/educador.


2 comentários:

  1. Mas se a massa não quer saber da nossa arte, o que fazer?

    Implorar ao povo para que leiam nossas poesias em livros artesanais?

    Pedir ardentemente para que vejam nossas esculturas lá em casa?

    Clamar para que escutem nossa música (re)produzidas nas nossas garagens?

    Desculpe discordar (pela primeira vez), Alexandre, mas acho que os artistas já fazem demais em produzir suas obras e disponibilizá-las para todos (mesmo que todos sejam artistas também). A massa é que tem que vir atrás e não nós dela.

    Abraços

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  2. Meu caro Matheaus,
    Na verdade a arte na sociedade capitalista a cada dia se distancia das massas, torna-se uma coisa estranha a própria massa. Esse efeito é provocado pelas próprias condições de sistematização deste modo de produção, outro fator é que a arte assumir uma ideologia de classe também. Sugiro que leia Arte e Grande Público - Uma distância a ser extinta, da autora Maria Inês H. Peixoto. É uma obra muito interessante e didática para essa compreensão.

    Compreendo o seu discurso, apesar de discorda. O seu discurso
    "re-afirma" o posicionamento do texto.

    Abraços camaradas!

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