27 maio 2010

Grata recordação - por Pedro Esmeraldo


No inicio dos anos 30, meu pai iniciou o plantio da cana-de açúcar no sítio são José. Considero-me uma pessoa privilegiada, pois tive a sorte de conviver no meio da bagaceira, já que meu pai possuía dois engenhos, um em Crato e outro no município de Barro - CE. Deixou-me ele, como legado, um patrimônio auspicioso que foi a educação. Esse engenho teve inicio em 1930. A principio, de forma rudimentar, movido à tração a bois. No meio da década de 30, mudou para engenho a vapor que perdurou até a vinda da energia elétrica de Paulo Afonso no ano de 1970, quando desapareceu o predomínio da rapadura, substituída pelos alimentos sofisticados dos tempos modernos.
Quando passo pelas ruínas do antigo engenho, no sítio Pau Seco, neste município, tenho grandes recordações daqueles tempos áureos de minha infância. Há mais ou menos 50 anos, ali era um lugar aprazível, aconchegante e que favorecia uma relação harmoniosa de paz de espírito.
Convivi naquele local no meio de pessoas humildes, com comportamentos inusitados, constituído de varias naturezas, com semblante rústico, precisando de muito sutileza no equilíbrio emocional, decorrente da fadiga pela luta árdua e das canseiras diárias.
Meu pai, um cidadão sério, agricultor arrojado, praticava as atividades agrícolas por vocação. Sabia projetar com equilíbrio o trabalho agrícola. Conduzia com perfeição as manhas dos trabalhadores, mas manejava com altivez e bom senso critico. Livrava-se dos perigos, utilizando palavras hábeis. Fugia com muita tranquilidade das pessoas ardilosas que o obrigavam a se comportar com o máximo grau de bondade que o respeitavam e o obedeciam com sinceridade as suas ordens.
Como já relatei acima, meu pai, homem destemido e hábil, tinha o cuidado de colocar trabalhadores certos nos lugares certos. Autodidata por natureza, dirigia corn perfeição e conhecimento todos os trabalhos inerentes ao campo agrícola, saindo-se muito bem nessa atividade espinhosas, levando com brilhantismo e com direção arejada a luta do campo ; sempre acompanhado de trabalhadores experientes, a fim de adquirir melhoria de produtividade, já que desejava aumentar o seu património dentro da tecnologia aperfeiçoada.
Seus trabalhadores tinham uma conduta séria e comportamento exemplar. Por isso meu granjeou muitas amizades entre eles, projetando bom desempenho, mostrando que com trabalho sério e honestidade o homem chega a ter sucesso em seu trabalho. Desses trabalhadores rudes, que guardo na recordação e na memória, vistos pelo comportamento zombeteiro que foram indubitavelmente os cambiteiros. Eram eles irreleverentes, de procedimentos duvidosos, senhores absolutos, anarquistas, visto que desrespeitavam a pessoa humana. Tornavam-se figuras intolerantes em seus trabalhos com a posição de homens irregulares no campo de transporte de cana do brejo para o engenho. Nem tudo era desprezo para essa classe de trabalhadores rudes já que desempenhavam com muita satisfação a sua tarefa.
Trabalhavam sem cessar, como prestadores de serviço, pois tinham por obrigação conduzir cinco animais atrelados com arreios rústicos: cangalha, peça de madeira artesanal que seria colocado no lombo do animal, revestimento de forro e pano de algodão e coro de gado , embutido com produto cactáceo existente nas catingas do Nordeste, cilha (fita de couro que prendia a cangalha na barriga do animal), focinheira (espécie de cabresto) para facilitar o manejo dos animais, rabichola que prendia a cauda do animal à cangalha, cambitos, peça de madeira que facilitava o transporte da cana.
Devido á rusticidade do trabalho, os cambiteiros eram tidos como intolerantes pelos habitantes dos arredores dos engenhos. Ninguém gostava de sua conduta. Possuidores de comportamento repreensível, tornavam-se irreverentes, fato comprovado pela anarquia, que ninguém suportava de bom grado. Eram zombeteiros, intrigantes, quando iam pela estrada se desesperavam e não queriam saber quem viessem a sua frente; se a pessoa não se submetesse ao seu comportamento cairiam no ridículo. Certa vez, observava uma cena que me deixou intrigado e que sempre preservei em minha memória: um dia, chegava ao engenho um senhor de tez branca, querendo conhecer o movimento do engenho, mas de jeito afeminado, o que foi logo observado pelos cambiteiros. Com o andar duvidoso do cidadão, um dos cambiteirosgritou:
- olha pessoal como ele é delicado!
então a vaia comeu de esmola e debaixo do alarido o pobre homem saiu desesperado para nunca mais pisar em bagaceira.
Era assim o comportamento dos cambiteiros. Mas, ainda hoje sinto saudades dos velhos tempos de outrora que não voltam mais e jamais poderão ser substituídos por este modernismo desequilibrado e algumas vezes intolerantes.
Texto de Pedro Esmeraldo

3 comentários:

  1. Pedrinho, este é o artigo que você me falou hoje lá na porta do Banco do Brasil.

    Abraços,

    Dihelson Mendonça

    ResponderExcluir
  2. Pedro

    Que belo resgate com essa memória que nos é tão cara. Conheci o engenho do Pau Sêco com motor a vapor e achava muito bonito a fumacinha branca do vapor que impulsionava as máquinas escapando por uma pequena descarga sobre o telhado do Engenho. Certa vez, um visitante perguntou a papai porque ele não instalava um motor a óleo diesel. E ele respondeu que temia haver uma nova guerra. É que, segundo ele explicava, durante a II Guerra Mundial houve um enorme racionamento de combustível. E ele teve grandes prejuizos.
    Você esqueceu do engenho da mata. Lembro que fui por lá aos 3 anos de idade.
    Parabéns! Esse foi um dos seus melhores textos.

    ResponderExcluir
  3. Parabéns Pedrinho! O tema do seu texto foi muito bem escolhido, e bem desenvolvido.

    abraços

    Magali

    ResponderExcluir

Visite a página oficial do Blog do Crato - www.blogdocrato.com - Há 10 Anos, o Crato na Internet.