05 abril 2010

Porque a Igreja não quer e não pode abolir o Celibato - Por Leonardo Boff

Nota: Essa é uma pergunta que eu sempre quis ver respondida. Aqui temos a palavra do Frei Leonardo Boff, que fala agora sobre o Celibato e as denúnicas recentes.



"O homem só amadurece sob o olhar da mulher e a mulher sob o olhar do homem. Homem e mulher são recíprocos e complementares." - Leonardo Boff

O levantamento dos padres pedófilos em quase todos os países da cristandade católica está ainda em curso, revelando a extensão deste crime que tantos prejuízos têm provocado em suas vítimas. É pouco dizer que a pedofilia envergonha a Igreja, pedir desculpas e fazer orações. É pior. Ela representa uma dívida impagável àqueles menores que foram abusados sob a capa da credibilidade e da confiança que a função de PADRE encarna.

A tese central do Papa Ratzinger que cansei de ouvir em suas conferências e aulas vai por água abaixo. Para ele, o importante não é que a Igreja seja numerosa. Basta que seja um "pequeno rebanho", constituído de pessoas altamente espiritualizadas. Ela é um pequeno "mundo reconciliado" que representa os outros e toda a humanidade. Ocorre que dentro deste pequeno rebanho há pecadores criminosos e é tudo menos um "mundo reconciliado". Ela tem que humildemente acolher o que dizia a tradição: a Igreja é santa e pecadora e é uma "casta meretriz" como diziam alguns Padres antigos. Não é suficiente ser Igreja. Ela tem que trilhar, como todos, pelo caminho do bem e integrar as pulsões da sexualidade que já possui um bilhão de anos de memória biológica, para que seja expressão de enternecimento e de amor e não de obsessão e de violência contra menores.

O escândalo da pedofilia se constitui num sinal dos tempos atuais. Do Vaticano II (1962-1965) aprendemos que cumpre identificar nos sinais uma interpelação que Deus nos quer transmitir. Vejo que a interpelação vai nesta linha: está na hora de a Igreja romano-católica fazer o que todas as demais Igrejas fizeram: abolir o celibato imposto por lei eclesiástica e liberá-lo para aqueles que vêem sentido nele e conseguem vivê-lo com jovialidade e leveza de espírito. Mas esta lição não está sendo tirada pelas autoridades romanas. Ao contrário, apesar dos escândalos, reafirmam o celibato com mais vigor.

Sabemos como é insuficiente a educação para a integração da sexualidade no processo de formação dos padres. Ela é feita longe do contacto normal com as mulheres, o que produz certa atrofia na construção da identidade. As ciências da psiqué nos deixaram claro: o homem só amadurece sob o olhar da mulher e a mulher sob o olhar do homem. Homem e mulher são recíprocos e complementares. O sexo genético-celular mostrou que a diferença entre homem e mulher em termos de cromossomas, se reduz a apenas um cromossoma. A mulher possui dois cromossomas XX e o homem um cromossoma X e outro Y. Donde se depreende que o sexo-base é o feminino (XX), sendo o masculino (XY) uma diferenciação dele. Não há pois um sexo absoluto, mas apenas um dominante. Em cada ser humano, homem e mulher, existe "um segundo sexo". Na integração do "animus" e da "anima", vale dizer das dimensões de feminino e do masculino presentes em cada ser humano, se gesta a maturidade sexual.

Esta integração vem dificultada pela ausência de uma das partes, da mulher, que é substituída pela imaginação e pelos fantasmas que se não forem submetidos à disciplina podem gerar distorções.

O que se ensinava nos seminários não é sem sabedoria: quem controla a imaginação, controla a sexualidade. Em grande parte, assim é. Mas a sexualidade possui um vigor vulcânico. Paul Ricoeur que muito refletiu filosoficamente sobre a teoria psicanalítica de Freud, reconhece que a sexualidade escapa ao controle da razão, das normas morais e das leis. Ela vive entre a lei do dia onde valem as regras e os comportamentos estatuídos, e a lei da noite onde funciona a pulsão, a força da vitalidade espontânea. Só um projeto ético e humanístico de vida (o que queremos ser) pode dar direção à sexualidade e transformá-la em força de humanização e de relações fecundas.

Neste processo o celibato não é excluído. Ele é uma das opções possíveis que eu defendo. Mas o celibato não pode nascer de uma carência de amor, ao contrário, deve resultar de uma superabundância de amor a Deus que transborda aos que estão à sua volta.

Por que a Igreja romano-católica não dá um passo e abole a lei do celibato? Porque é contraditório à sua estrutura. Ela é uma instituição total, autoritária patriarcal, altamente hierarquizada e um dos últimos bastiões de conservadorismo no mundo. Ela abarca a pessoa do nascimento à morte. O poder conferido ao Papa, para uma consciência cidadã mínima, é simplesmente tirânico. O cânon 331 é claro. Trata-se de um poder "ordinário, supremo, pleno, imediato e universal". Se riscarmos a palavra Papa e colocarmos Deus, funciona perfeitamente. Por isso se dizia: "o Papa é o deus menor na terra", como muitos canonistas afirmaram. Uma Igreja que coloca o poder em seu centro, fecha as portas e as janelas para o amor, a ternura e o sentido da compaixão. O celibatário é funcional a este tipo de Igreja, porque ela nega ao celibatário aquilo que o faz mais profundamente humano, o amor, a ternura, o encontro afetivo com as pessoas, o que seria mais facilmente propiciado se os padres estivessem casados. Eles se tornam totalmente disponíveis à instituição que ora pode mandá-los para Paris ora pode enviá-los à Coréia do Sul. O celibato implica cooptar o sacerdote totalmente a serviço, não da humanidade, mas deste tipo Igreja. Ele só deverá amar a Igreja. Quando descobre que ela não é apenas “a santa madre Igreja” mas pode ser madrasta que usa seus ministros para a lógica do poder, se decepciona, deixa o ministério com o celibato obrigatório e se casa. Enquanto esta lógica de poder absolutista e centralizador perdurar, não esperemos que a lei do celibato seja abolida por mais escândalos que aconteçam. O celibato é muito cômodo e útil para ela.

Mas como fica o sonho de Jesus de uma comunidade fraterna e igualitária? Bem, isso é um outro problema, talvez o principal. A partir dele colocaríamos diferentemente a questão do celibato e do estilo de Igreja que seria mais adequado ao sonho do Nazareno.

Por Leonardo Boff

4 comentários:

  1. A mente do Leonardo Boff é de uma clareza cristalina. Ele consegue analisar a estrutura da Igreja como poucos.

    Infelizmente, para mim, fiquei mais pessimista com relação aos últimos acontecimentos, depois de ler esta sua crônica, que é lúcida, clara, e vai direto ao coração do problema.

    Abraços,

    Dihelson Mendonça

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  2. A Bíblia deixa claríssimo quando depois de Deus ter criado homem e mulher falou: crescei e multiplicai-vos em Gênesis.

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  3. Polêmica.
    Primeiro, em nenhum canôm católico há uma proibição de homens casados serem ordenadas, tanto é que há padres ordenados e casados em muitos lugares, mas o que ocorre é que a igreja prefere eleger ao sacerdócio aqueles que declaram sua opção pelo celibato por diversos motivos, pois a administração de uma igreja demanda tempo e por experiencias antigas foi visto que era bastante complicado a um padre administrar a igreja ao mesmo tempo que mantinha sua casa. Os casos de pedofilia e outras coisas que vemos não devem ser apontados como consequencias do celibato, pois ocorrem casos de pedofilia, escandalos sexuais numerosos também em igrejas protestantes, evangélicas e inclusives em outros credos que não aderem ao celibato. o caso é, não podemos culpar uma escolha de vida como sendo culpada de um desvio moral e sexual, pois entendo que independente de ser padre, ou celibatário, o criminoso que pratica estes atos praticaria do mesmo modo.
    Agora falando apenas do celibato, é uma escolha de vida para se seguir a um caminho, do mesmo modo que alguém que decide ser um lutador de sumô se submete a um regime de engorda. Imagine então se os orientais de constume poligamico questionasem a monogamia ocidental? O que seria dito de quem defende-se a poligamia na nossa cultura? no fim, Leonardo Boff (afastado de suas funções clericais pela sua, muitas vezes impensada e emotiva, maneira de se expressar), me desculpe, mas há escolhas na vida que se fazem, uma delas você fez e não cumpriu que foi o celibato de seu voto. Uma pessoa de carater integro, quando faz uma escolha, deve manter sua posição e não mudá-la se porventura descobrir que não era aquilo que desejava, a vida é um rio com diversas veredas, algumas delas sem retorno.

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  4. Só tem um detalhe: o vocacionado e o seminarista SABEM que serão celibatários e escolhem (vocacionam) esse estilo de vida.

    Boff escreve como se os religiosos só soubessem que a Igreja exigia o celibato quando não há mais volta. Se assim fosse, o texto dele até poderia fazer sentido. Mas como "ignora" esse singelo fato -- e é notório que os religiosos sabem do celibato antes de se tornarem tais -- o texto é falacioso do começo ao fim.

    É como dizer que o casamento devia ser poligâmico porque, uma vez celebrado, impõe uma regra de exclusividade entre os cônjuges da qual não podem escapar. Ora, qualquer nubente sabe dessa regra antes de se casar. Ninguém descobre que não pode trair a esposa depois de casá-la.

    Aliás, pedir a opinião sobre celibato de alguém que não conseguiu guardá-lo é como pedir opinião sobre casamento de um solteiro convicto. O solteirão convicto não entende como tem gente que consegue permanecer casado por anos, assim como o ex-celibatário não entende as pessoas que cumpriram com um voto no qual ele falhou. Tem muito de experiência pessoal no texto do Boff que ele apresenta como verdade absoluta...

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