16 abril 2010

As marias de Iparana - Diário do Nordeste " Eva Especial 11/4/2010


De família cheia de artistas, as irmãs Bia, a "insistente social" e Bel, ex-presa política, utilizam o bordado num trabalho comunitário em Caucaia. Como contar a história das irmãs Bia, a "insistente social", e Bel, ex-presa política, de forma isolada? As duas parecem uma só, talvez por se complementarem na criatividade, no artesanato e no prazer em ensinar e ajudar ao próximo. Elas dividem ainda o mesmo terreno, com casas separadas, na Praia de Iparana, em Caucaia. Numa terceira, recém-construída, investem no projeto "Maria vem com as outras". O local também abriga um Ponto de Cultura com outras atividades para a comunidade, como música, percussão, maracatu e inclusão digital. Para tentar não confundir as histórias, começamos com Beliza Maria da Silva Guedes, 58 anos. Por trás da fala mansa, Bel, como é chamada, revela-se verdadeira camaleoa. Filha de professora, sempre teve muita informação e cultura. Estudava em colégio de freiras quando começou a bordar. E detestava. Ainda menina já dava aula de alfabetização dentro das igrejas. Mais tarde, ingressou no Liceu do Ceará e, a partir de então, engajou-se em movimentos políticos contra a ditadura militar. Na época, Bel recorda ter sido presa várias vezes. A Polícia queria informações sobre o paradeiro da irmã Lília, também militante política. Apavorada com as perseguições, mudou-se para o Rio de Janeiro, de carona com uma prima e o marido dela, um major da aeronáutica, com a mesma ideologia. Na Capital fluminense, arrumou emprego de recepcionista numa butique, mas seu desejo era ingressar nos Correios para localizar os amigos militantes e fazer as cartas chegarem até eles. Obstinada, conseguiu o emprego, no qual permaneceu três anos e conheceu o primeiro marido. Casada, mudou-se para Brasília, onde ingressou no curso de História e passou a lecionar, sempre engajada com a luta política.

Prisão

Em 1976, foi presa novamente. Foram dois meses encarcerada. Torturada e doente, Bel recebeu a visita da prima Miriam que deu-lhe agulha, linhas e um pano branco. Não contente, a artesã pediu o lenço da prima e, a partir dele, começou a bordar com toda a irreverência. "Na cadeia, aprendi a amar o bordado. Ele me acalma. Hoje também adoro ensiná-lo", comenta Bel. No ano de 1978, ela retornou para Fortaleza, a terra natal. Magra, perdera pelo menos 15 quilos. Doente e com sequelas da prisão, ingressou no curso de Direito, foi para Pedagogia, mas só concluiu o de Arte-educação. Curtiu a tão desejada democracia do País e ainda enfrentou a luta pela anistia dos presos políticos. Sem emprego, Bel decidiu pesquisar a vida dos moradores de rua de Fortaleza. A partir daí, começou a trabalhar no Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua do Ceará, atuando também junto à Pastoral do Menor por 12 anos. Denunciou a prostituição infantil e levou o bordado e a paixão pela cultura às crianças e adolescentes das ruas de Fortaleza. Após um infarto e com problemas decorrentes da diabetes, Bel não goza mais da mesma saúde. Tanto que não vende por preço algum um panô produzido quando se recuperava do infarto. É uma das peças mais significativas para ela. Com apenas um filho, Gabriel, 25 anos, está no segundo casamento. Sua dedicação maior é à arte. Adora teatro, aliás, é formada em Arte Dramática pela Universidade Federal do Ceará. É essa veia artística que não para de pulsar um só minuto.

Preferência pela monocromia

Calma até na forma de falar, Beatriz Maria Guedes Martins, 54 anos, a Bia, adora dizer que a artista é a irmã, Bel. Na verdade, existe uma modéstia de sua parte, pois os bordados, geralmente de uma só cor, imprimem a personalidade dela. Sem falar da herança genética: a mãe, Rosa Guedes, falecida em 1993, era professora, mas gostava de música e de violão. Os oito filhos de Rosa, dois homens e seis mulheres, seguiram carreira de cineasta, diretor de teatro, músico, enfim, o talento artístico predominou na família Guedes. Sendo assim, Bia não poderia fugir à regra. Ainda quando estudava, no Liceu do Ceará, fazia parte do grêmio estudantil e atuava em comunidades carentes. Há 30 anos, casou-se com o engenheiro civil Paulo Norberto, 52, e teve três filhos, Ricardo, 28 anos, Paulo, 27, e Lucas 21. Ainda com os meninos pequenos, Bia foi morar no Parque Potira, em Caucaia, uma comunidade muito pobre. Novamente, veio o desejo de fazer algo ao próximo, ou seja, a "insistente social", como se denomina, voltou a atuar.

Em 1986, ingressou na Pastoral da Criança, aprendeu a fazer artesanato e ajudou na fundação da União das Mulheres do Parque Potira. Em 1991, Bia mudou-se para Fortaleza, mas nunca se desligou da comunidade.

"Faço um trabalho voluntário. Tenho um vínculo afetivo com aquelas pessoas. Meu sonho é fixar o projeto ´Maria vem com as outras´ no Parque Potira também", revela. Não apenas o bordado fascina Bia. Ela adora os retalhos e, principalmente, reciclar tudo o que pode. "Até as nossas casas foram erguidas com as sobras de construção", ressalta. O terreno, localizado na Praia do Boi Choco, em Iparana, foi comprado em 1993, porém Bia só se mudou três anos mais tarde. Bel seguiu o mesmo caminho em 1999. Com todo o envolvimento social e familiar, Bia passou 30 anos longe dos cadernos. Mesmo assim, encontrou ânimo para voltar aos estudos e concluir, recentemente, a graduação de Tecnólogo em Gestão Pública, na Universidade do Parlamento, em Fortaleza. Segundo ela, o que aprendeu na teoria já está sendo aplicado em seus
projetos.

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