08 fevereiro 2010

O CARNAVAL - Por: Antonio Paiva Rodrigues


Nota do Editor: Nesta belíssima e enriquecedora matéria, o colaborador e amigo do nosso Blog, Coronel Paiva escreve um ensaio sobre a história do Carnaval, que remonta às festas dos primeiros povos na superfície do planeta. Um artigo que definitivamente, vale a pena ler!

Dizem ser o carnaval uma festa popular, mas para que tenhamos uma ideia dessa festa é de suma importância que voltemos no tempo e no espaço há uns 10.000 antes de Cristo. Dez mil amos correspondem ao final da última glaciação da Terra. Só para ser ter uma concepção do tempo 4.000 A.C., foi o mais antigo calendário do mundo. Em 3.761 A.C., corresponde à criação do calendário Judeu, os egípcios fazem a descoberta da agricultura e começa a iniciação das festas. Em 2.000 A.C., surgem os deuses campestres Dionísio na Trácia e em 605 a 657 são oficializadas as festas em homenagem a Dionísio, durante o reinado de Pisistrato, em Atenas. Já em 443 a 429 começa o reinado de Péricles, a cidade de Atenas se projeta como um grande centro de arte e tem início a repressão ao culto a Dionísio na Grécia, e referências de cultos semelhantes ao de Dionísio no Egito.

Antes de todas as nuanças aqui inseridas para se ter uma ideia mais forte e plausível da origem do carnaval deve-se salientar que a festa de deusa Isis e do touro Apis entre os hebreus, bem como a festa das Sáceas entre babilônicos, a festa da deusa Herta em 370., Atenas perde a famosa hegemonia nas artes em 186 a.C., surgiram os bacanais em Roma que transformaram em festivais de desordens e escândalos, fatos que levam o senado romano a reprimi-los. O tempo vai passando e pelos idos de 45 A.C., vem à criação do calendário Juliano pelo astrônomo Sosígenes a pedido do imperador Júlio César. No ano oito vem à reforma deste calendário a pedido do imperador Augustus que mandou acrescentar o dia 31 de agosto. Já depois de Cristo, em 325 nos famosos Concílios e no de Nicéia inicia-se as discussões sobre as festas populares.

Em 478, a grande reforma, em 590, Gregório o grande, regulamentou as datas de carnaval criando a expressão “Dominica came lavaridas” que foi com o passar dos anos abreviada até chegar à sinonímia de carnaval. Como podemos ver a história do surgimento do carnaval é antiquíssima e já parte dos anais da história. Porém a Igreja católica considerou o carnaval uma festa profana. O primeiro centro de excelência do carnaval se localiza no Egito. É o modelo mais simples de carnaval e consta de danças e cânticos em torno de fogueiras, incorporando-se máscaras adereços, na medida em que as sociedades evoluem para a divisão de classes, orgias, libertinagens, culto ao corpo, ao belo e entram na conjunção do fogo, da água, terra e ar como forças vitais, sobre as quais repousam o universo. Mesmo assim as origens são obscuras e longínquas e sua memória vem do inconsciente coletivo dos povos. Para muito carnaval deriva da palavra “carrumnavalis”, os carros navais que faziam a abertura das Dionísias Gregas, nos séculos VII e VI A.C., para outros a sinonímia de carnaval surgiu quando Gregório I, “O Grande” em 590 D.C., transferiu o início da quaresma para quarta-feira, antes do sexto domingo da páscoa.

Vejam como a história do carnaval é rica em detalhes. Ela teria surgido em Milão, em 1130, outros falam na França, em 1268. No Brasil o carnaval surgiu na festa feita pelo povo para recebimento da família real. Os nossos patrícios portugueses afirmam que o costume de se brincar no período carnavalesco foi introduzido no Brasil por eles, provavelmente no século XVI, com o nome de Entrudo. Já na Idade Média, costumava-se comemorar o período carnavalesco em Portugal com toda uma série de brincadeiras que variavam de aldeia para aldeia. Em algumas se notava a presença de grandes bonecos, chamados genericamente de "entrudos”. No Brasil, essa forma de brincar — que consistia num folguedo alegre, mas violento — já pode ser notado em meados do século XVI, persistindo, com esse nome, até as primeiras décadas do século XX. A denominação genérica de Entrudo, entretanto, engloba toda uma variedade de brincadeiras dispersas no tempo e no espaço.

Aquilo que a maioria das obras descreve como Entrudo, é apenas a forma que essas brincadeiras adquiriram a partir de finais do século XVIII na cidade do Rio de Janeiro. Mesmo aí, a brincadeira não se resumia a uma única forma. Havia, na verdade vários tipos de diversões que se modificavam de acordo com o local e com os grupos sociais envolvidos. Atualmente, como explica o pesquisador Felipe Ferreira, em “O livro de Ouro do Carnaval Brasileiro”, entende-se que existiam, no Rio de Janeiro do início do século XIX, duas categorias de Entrudos. O Familiar e o Popular. Acontecia dentro das casas senhoriais dos principais centros urbanos. Era caracterizado pelo caráter delicado e convivial e pela presença dos limões de cheiro que os Jovens lançavam entre si com o intuito de estabelecer laços sociais mais intensos entre as famílias.

Era a brincadeira violenta e grosseira que ocorria nas ruas das cidades. Seus principais atores eram os escravos e a população das ruas, e sua principal característica era o lançamento mútuo de todo tipo de líquidos (até sêmem ou urina) ou pós que estivessem disponíveis. Entre esses dois extremos havia toda uma variedade de "Entrudos" que envolviam em maior ou menor grau grande parte da população dos principais centros urbanos do país. Essa brincadeira hoje se reveste no famoso “mela-mela”, muito comum nas praias do Nordeste. A partir dos anos 1830, uma série de proibições se sucede na tentativa, sempre infrutífera, de acabar com a festa grosseira.

Combatido como jogo selvagem, o entrudo continuou a existir com esse nome até as primeiras décadas do século XX e existe até hoje no espírito das brincadeiras carnavalescas mais agressivas, como a "pipoca" do carnaval baiano ou o "mela-mela" da folia de Olinda e nas praias do Ceará. Pode ser reminiscências das festas pagãs Greco-romanas, o carnaval no Brasil através do Entrudo como citamos antes, a brincadeira de rua perigosa, além de suja, violenta do século XVIII. As marchinhas em 1641, no Rio de Janeiro foram evoluindo até a consolidação do samba e das marchinhas a partir de 1930. Os bailes de máscaras de 1835 e os desfiles de carros alegóricos em 1855, as camadas populares e a classe média de então dançavam e cantavam nas ruas ai ritmo de percussão e nos bailes ao som de bandas de música que tocavam polcas, xotes maxixe e até valsas. A partir de 1899, Chiquinha Gonzaga com o “Abre Alas” fez com que o carnaval atingisse o apogeu entre 1930 a 1960.

O carnaval assume em cada região do Brasil características próprias. O frevo é uma marcha de ritmo frenético caracterizado em Pernambuco. No Ceará e em Pernambuco o maracatu empolga pela beleza e luxo das fantasias, e o ritmo menos acelerado. Em Salvador é comum o trote. Grupos de foliões brincam cobertos com mortalhas e máscaras. Porém a atração maior é o trio elétrico. No Rio de Janeiro e São Paulo, o luxo das escolas de samba faz a festa. Bakhtin, afirma o seguinte: “O carnaval mais do que nunca é uma simples festa, uma visão do mundo onde todas as normas são questionadas, daí tudo o que é marginalizado socialmente busca libertações catárticas vencendo simbolicamente a hierarquia, a ordem, a opressão e o sagrado. Em suma, caindo-se as barreiras, geram-se uma comunicação livre e polifônica, entre pessoas e grupos todos pela alegria, pelo riso e pela ênfase à grotesca”. Cuidado, pois os exageros ferem, maltratam, doem e deixam muitas famílias a se maldizer dos tristes acontecimentos carnavalescos. Pensem nisso!

ANTONIO PAIVA RODRIGUES-MEMBRO DA ACI- DA ALOMERCE E DA AOUVIRCE


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Visite a página oficial do Blog do Crato - www.blogdocrato.com - Há 10 Anos, o Crato na Internet.