17 janeiro 2010

UM CANTO PARA O HAITI*

Por José Cícero

O que será de ti, Haiti.
Agora que o tremor da Terra
é uma febre terçã;
querendo engolir a tua gente
como um dragão medonho
com sede e com fome de morte.
O que será de ti, Haiti
diante do tremor das mãos
dos teus velhinhos valentes.
O tremor do chão.
O grito.
A lágrima quente.
O choro abafado pelo concreto
do ferro e do cimento armado
espremendo o pulmão
dos teus irmãos
e o coração de Zilda Arns.
O soterramento da tua última ilusão
As ruínas dos teus monumentos
como mãos levantadas,
pedindo perdão aos céus.
Assim como água, pão e mel.
O que será de ti, Haiti
agora que o solo
dos teus ancestrais
se nega a firmeza do passo,
assim como da vida.
Restando apenasa tragédia
a morte em precipitação.
A despedida antecipadaao sonho.
O desencontro sem palavra.
A partida...
O fim das quimeras
dos soldados da verde-pátria.
E as velhas utopias rasgadas,
Cortadas, tiradas aos nacos da própria carne.
A ferida aberta
em carne viva.
O sofrimento expresso no olhar
cabisbaixodos teus poetas,
das tuas donzelase
dos teus últimos jovens
revolucionários.
Assim como as antigas
brincadeiras das tuas crianças.
Restando apenas
o soluço das mães solitárias
no meio das ruas desérticas
fétidas,
cheias de mortes;
cadáveres apodrecidos
aos montes
entre os escombros.
Covas rasas e coletivas:
Sementes que nunca nascerão
para a vida.
Saudade da mulher amada.
Dos filhos, dos parentes.
Uma amizade cortada
Com fio de aço
e com navalha incandescente.
O sussurro das criancinhas
a ecoar pelas montanhas
como o cantar de um pássaro
atacado pelos abutres.
Epitáfio estranho.
O tremor das mãos
dos anciãos.
A dúvida,
a angústia da viúva.
O desespero,
o medo de que, ficou sem os pais.
A esperança comprometida
da tua juventudesob o peso laje.
Tanto tempo... em segundos.
Fragilizada pelo uso das armas.
Assim como o pensamento
o desejode sentir como dantes,
o ar puro da tua atmosfera,
como um altar montado
no topo do mundo
em oferecimento ao sonho.
Ai de ti, Haiti
Agora que a esperança
do tempo futuro
que te resta,
depressa,
velha ao teu socorro,
como um pai
que no meio da guerra
salva o filho
oferecendo seu corpo
às balas.
Haiti,o que será de ti.
Agora que teu povo
corajoso
está ferido de morte,
chorando a tragédia,
comprometendo
o esforço de plantar o pão
de regar a semente
de amor e paz.
Que será de ti, Haiti
agora que os deuses
como por descuido
deixaram que a terra
encharcada de sangue
e miséria,
tremessese sacudisse
como que querendol
ivrar-se do mal.
Qual um cão sardento
molhado ao léu
em desesperança...
O que será de ti, Haiti
agora que o teu futuro
de vez foi ameaçado.
Agora que a esperança
do teu povofoi posto em xeque.
O que serádas tuas criançinhas
sem pai e sem mãe
deixadas aos cuidados
dos que não têm
quase mais a nada
a cuidar.
Ao sabor da sorte.
Ai de ti, Haiti
se a valentiados teus
não for dedicada
agora, como nunca
em favor do teu futuro
de esperançae de superação.
O que será de ti, Haiti
se depois do tremor do chão
a guerra entre teus irmãos
não desaparecerpara sempre
entre os escombros
desta catástrofe
inominável.
Haiti, Haiti...
Não deixai
que o único fio de esperança
que te resta
possa também sucumbir
nesta hecatombe.
Porque a ti, Haiti.
toda solidariedade
do mundo
deve ser garantida.
Ai de ti, Haiti...
_ José Cícero*
Secretário de Cultura - Aurora-CE
In Minhas Metáforas Cotidianas(Inédito – 2010)

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