06 novembro 2009

Sem lenço e sem documento – Por: José Nilton Mariano Saraiva

O dia: 18/06/2008 (portanto, pouco mais de um ano atrás). A hora: 11 da manhã. O local: sede do Departamento da Polícia Federal, Bairro de Fátima, Fortaleza-Ceará.
Miseravelmente só (já que a Associação dos Aposentados do BNB, na hora "H", tirara o “braço da seringa”, deixando-nos na mais completa orfandade), sem lenço e sem documentos e “tremendo mais do que vara verde”, ali nos encontrávamos, a fim de atender à lacônica e fria Intimação para “prestar esclarecimentos de interesse da Justiça”.
Na pequena e desconfortável sala, que mal cabia os dois “birôs”, um computador, um arquivo e a cadeira do “visitante”, os dois delegados da Polícia Federal nos receberam e cumprimentaram, burocrática e formalmente.
De início, um deles indagou-nos se sabíamos por qual razão ali estávamos. Ante nossa ignorância (já que na Intimação não constava detalhes), sacou da gaveta o livro de nossa autoria “BNB-A Verdade Nua e Crua (Sobre a Era Byron Queiroz)", que havíamos publicado três anos antes (em 2005) e arrematou, convicto; “Para esclarecer e confirmar as graves acusações aqui contidas”. Quem fizera a denúncia e entregara o livro ??? Silêncio sepulcral.
E então...começou o “bombardeio”. Foram quase três horas. Experientes, preparados, passados na casca-do-alho, possuidores da refinada técnica de extrair do “convidado” aquilo a que se propõem, os dois não demonstraram seguir um roteiro pré-determinado: abriam o livro, aleatoriamente, em uma página qualquer, e indagavam sobre o ali posto. Vez por outra, refaziam uma pergunta feita lá atrás, na tentativa sutil de encontrar alguma contradição, algum escorregão, uma falha sequer; e tome perguntas, questionamentos, pedidos de esclarecimentos. Uma coisa de louco.
Como, ao receber a “Intimação”, houvéramos imaginado o que lá trataríamos (só podia ser sobre aquilo), reuníramos todos os documentos citados no livro e, assim, a cada indagação, disponibilizávamos, tecendo um breve comentário, a peça correspondente. E o melhor: a “tremedeira” passara, sumira, se fora e, repentinamente, uma aura de segurança e tranqüilidade se apossara do nosso ser.
O certo é que, ao final daquele calvário (para nós), depois de receberem e garantirem que anexariam ao processo o “caminhão” de documentos que lhes entregamos (mais de 200 páginas), a agradável surpresa: “Senhor Mariano – confidenciou um deles – parabéns pelo exercício pleno de cidadania que o senhor acaba de praticar”; ao que o segundo complementou: “Se todos agissem assim, esse nosso país seria bem diferente”.
O sol do meio da tarde brilhava forte e abrasador, quando de lá saímos, faminto mas tranqüilo, leve, em paz com a vida e com a nossa consciência. Resolvemos, então, elaborar uma espécie de “relatório”, a respeito, que encaminhamos a alguns poucos colegas do BNB. E aí, nos dias seguintes, sem que fosse essa a nossa intenção, a “coisa”, tal qual um rastilho de pólvora, se espalhou, multiplicou-se e até em uma reunião da Diretoria do BNB o assunto foi ventilado.
Inacreditavelmente, no entanto, alguns colegas aposentados do Banco, aqui e alhures, sentiram-se ofuscados, visivelmente incomodados, incompreensivelmente contrariados, constrangidos até e, a partir de então, passaram a nos denegrir, a lançarem insinuações malévolas a nosso respeito, à tentativa de nos desqualificar (mesmo em ocasiões em que o assunto não tivesse nada a ver).
Isso tem nome ??? Tem, sim !!! Qual ??? O cardápio é variado e cada um pode escolher o que achar conveniente e apropriado. Da nossa parte, uma certeza: vamos continuar a cobrar, fuçar, questionar, a, enfim, exercer nossa cidadania. Na plenitude. Contundentemente.

Post Scriptum:
1) Quando lançamos o livro (3.500 exemplares), unidades foram encaminhadas, pela Associação dos Aposentados do BNB (que, depois, como vimos, “tirou o braço da seringa”), ao Presidente da República, alguns Ministros de Estado, Senadores, Deputados Federais, Desembargadores de Tribunais, Governador do Ceará, Prefeita de Fortaleza, Deputados Estaduais, Vereadores da capital e por aí vai. Se leram, ou não, são outros quinhentos. Fizemos a nossa parte (recebemos alguns "e-mail", oriundos da Câmara Federal e Senado).
2) Byron Queiroz e demais integrantes da quadrilha, após ação impetrada pelo Ministério Público (que fora acionado pela AABNB), foram condenados, pela Justiça Federal do Ceará, a 14 anos de prisão, devolução do valor subtraído, suspensão dos direitos políticos por 8 anos, indisponibilidade dos bens e tal. Recorreram ao Tribunal Regional Federal da 5ª Região, em Recife-PE, e foram inocentados, por unanimidade (é vero, senhores, podem acreditar; afinal, o “padim” do homem é o Tasso Jereissati).
3) Há pouco mais de 60 dias (em 02.09.09), nova condenação da Justiça Federal do Ceará. Livrar-se-ão da pena ??? Possivelmente. Afinal, parece que continua a vigorar aquele esquema de que, no Brasil, só há lugar na cadeia para três espécies de categorias: pretos, pobres e prostitutas. A conferir.
4) O “rombo” que Byron Queiroz deixou no BNB foi de “insignificantes” R$ 7,5 bilhões (isso mesmo, com “B”, de bola).

Autoria e postagem: José Nilton Mariano Saraiva

6 comentários:

  1. Diga-me uma coisa, Mariano,

    Nesse tempo aí do Byron Queiroz, o Assessor do Deputado que foi flagrado com 250.000 dólares na cueca já rondava por lá ? Porque a Segunda versão para a origem dos dólares é de que a dinheirama seria para um funcionário do BNB ( propina ), por um contrato fechado pela liberação de um financiamento para construção de linhas de transmissão no Pará ( ou no Maranhão, se não me engano ).

    Existe alguma ligação entre esse esquema do Byron e o do colega de banco na liberação deste financiamento ? vc tem essa informação ?

    Abraço,

    Dihelson Mendonça

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  2. Ilustre Dihelson,
    À época, já estávamos aposentado; acompanhamos apenas pelos jornais.
    Queremos crer que o financiamento teria sido liberado na época pós-Byron.
    O envolvido não era funcionário do BNB, mas, sim, ocupante de um cargo de confiança (aqueles, que não são concursados).

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  3. Prezado Mariano

    É inadimissível que as denúncias levantas por você e comprovadas com farta documentação continuem impunes. É por isso que os colarinhos brancos continuam fazendo o que fazem, mandando e desmandando. Se houvesse um mínimo de seriedade no tratamento do bem público, com certeza sobraria dinheiro para os aposentados receberem a justa correção de suas minguadas aposentadorias, que ano após anos são subtraídas, através da distorção das suas correções.
    Parabéns pela sua coragem e pelos dois maravilhosos livros.

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  4. Carlos Eduardo,
    Por dever de justiça, só um pequeno, porém fundamental detalhe: as denúncias, levantadas e ofertadas ao Ministério Público, e que acabaram levando à condenação de Byron Queiroz e quadrilha (inócuas, já que não cumprida), são resultado de um intenso trabalho técnico, de colegas vinculados à AABNB (Associação dos Aposentados do BNB), que, por sua vez, as representaram à Justiça.
    Apenas (e não nos pergunte como), tivemos acesso a boa parte da documentação (inclusive à disponibilizada ao próprio Ministério Público) e entendemos por bem (aí, sim, sem consultar ninguém) que não deveríamos reter tais informações e, sim, dividí-las com os colegas (99% as desconheciam).
    Daí a idéia de colocá-las em um livro (que as Associações e muitos colegas, individualmente, ajudaram a viabilizá-lo, adquirindo antecipadamente um certo número de exemplares, a fim que pudéssemos pagar a impressão - exatos R$ 6.500,00),e que foi enviado, também, a todas as agências do BNB (inclusive às de fora do Nordeste).
    No tocante ao livro anterior (e você também o conhece), aí, sim, trata-se de um apanhado de cartas, artigos e tais, de nossa autoria, encaminhados aos órgãos de imprensa durante mais de seis anos, enfocando a corrupta administração Byron Queiroz à frente do BNB.
    Até hoje, estamos "pagando" um alto preço pela "coragem" (vide a campanha difamatória da qual fomos alvo e a "síndrome de pânico" que acometeu à cara-metade, por conta das ameaças de retaliação, através de "telefonemas noturnos" aqui pra casa), mas, se pudéssemos voltar ao passado, não tenha dúvida que faríamos tudo de novo).
    Por uma simples razão: abominamos corruptos.

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  5. Mariano,

    "Queremos crer" não é suficiente. Eu também quero crer em padre Cícero, Lula e Mula sem cabeça.

    É importante saber se esse funcionário contratado ou não, e que agora eu esqueci do nome, trabalhava para quem, dentro do BNB, facilitando as negociatas ?

    Pode ser que o seu livro precise de um novo capítulo: A era pós Byron!

    Abraços,

    DM

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  6. Ilustre Dihelson,
    Agradecemos a sugestão.
    No entanto, o livro não precisa de nenhum capítulo complementar, porquanto diz respeito à era Byron Queiroz, especificamente (nem antes, nem depois).
    Com relação à tal propina, só temos certeza de uma coisa: nenhum funcionário do BNB (funcionário mesmo, concursado, de carreira, que veste a camisa do Banco), participou do esquema anunciado.
    Pesquisando no Google, deu prá descobrir que a tal figura que você inapropriadamente sugeriu ser funcionário do BNB, trata-se do senhor Kennedy Moura, que houvera sido convidado, à época, para exercer a chefia de gabinete da presidência.
    Foi posto prá fora.

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