10 novembro 2009

Nostradamus - Por JFlavio Vieira.


A casa de Saturnino Cafimfim tornara-se uma espécie de oráculo de Delfos em Matozinho. O Nostradamus matozense transformou-se em figura importantíssima naquele fim de mundo, por uma habilidade unica: entre tantas advinhações e revelações, o homem era profeta. Vivendo numa região tão arida em que peixe muitas vezes completava cinco anos e ainda não sabia nadar, Saturnino detinha em suas mãos os profundos segredos da natureza. Vai ter inverno? Quando começa? Chove muito ou só neblina? A resposta a perguntas tão simples muitas vezes significava a fuga da fome e da miséria, e, em muitas situações, a própria sobrevivência. E sobreviver, no sertão, não é brincadeira não. Depende de tantos e tantos fatores: da chuva, da praga, da solidariedade dos outros sertanejos, da tempera do caboclo. Só não depende de governo que quando não se faz ausente, é relapso, e, a maior parte das vezes, profundamente mal intencionado. O sertanejo, assim, não tem muita escolha: sua vida está pendente entre dois santos: ou São Pedro ou São Paulo. Não se pode, pois, estranhar o grande prestigio de Saturnino em Matozinho.

Nosso profeta usava métodos pouco convencionais para tirar suas conclusões meteorológicas. Nada de pedra de sal, posição dos planetas, vento, acasalamento dos bichos e barra desenhada no céu durante o Natal. Saturnino detinha-se em sinais quase imperceptíveis, colhidos da cuidadosa observação da natureza, a sua volta. E, antes de tudo, guardava segredos quase que maçônicos da sua ciência. Irreverente, zombava de todos especuladores do seu oficio e, por outro lado, dava de lambuja nestes órgãos do governo que teimam em querer adivinhar chuva. Muito frequentemente, suas previsões iam de encontro àquela conversa mole de El Nino, La Nina, temperatura de oceano. Uma coisa dizia a boca miúda, em Matozinho: ninguém confiava em chuva de doutor, quem sabia das coisas nestes segredos de corisco, pai-da-coalhada, cruviana de chuva molhadeira era Cafimfim.

Naquele 15 de Outubro, de céu invariavelmente limpo como panela areiada, tradicionalmente se reunia à metade de Matozinho no terreiro de Saturnino. Olhos esperançosos aguardavam, todos, as infalíveis previsões para o inverno vindouro. Voz grave, olhar transido, nosso profeta sentado numa pedra grande, com todos os circunstantes ao seu redor, soltou a previsão para o ano seguinte:

O inverno vai ser bom, começa no meio de Novembro, encomprida até comecinho de Dezembro. Aí estia um pouco e volta a chover pesado no Natal. Em Janeiro e fevereiro não vai ser diferente, até odia de São Jose em Março, quando devagarzinho as chuvas vão desaparecer e o inverno vai acabar. Os caboclos respiram fundo com a possibilidade de uma safrinha melhor. Aos poucos, no entanto, começam a discutir sobre as previsões das chuvas. Fubuia lembra que não é bom chover no Natal, pois é o dia da renovação da sua casa. Zabé Virginia lembra que em Janeiro tem festa da padroeira e aí vai atrapalhar tudo. Outros vão também colocando empecilhos em fevereiro e março. Cafimfim, pouco a pouco, buscou atender as diversas solicitações de mudanças nas datas previstas para o inverno, até que alguém lembrou que atendidas a todas as conveniências, não tinha jeito, o próximo ano seria seco. Diante da catástrofe previsível, afobado, Saturnino deu sua palavra final:

Pois agora tou puto! Vocês querem lá inverno, bando de filhos de umas éguas. Pois saibam que em novembro não vai chover, em Dezembro estia, em janeiro não cai um pingo, e em fevereiro mereja uma nublina e em março o inverno acaba! O povo tentou negociar com Saturnino uma outra previsão, mas não teve jeito, o homem fincou o pé e não mais voltou atrás. A desgraça estava feita. Na multidão, esperando o oráculo de Cafimfim estava uma resadeira Regina Levanta Espinhela. Já vinha chateada a dias, pois uma filha única sua empenhara e o responsável pelo bucho desapareceu sem deixar rastro. Regina diante de outra previsão tão sombria resolveu enfrentar Cafimfim. Pois Saturnino, eu acho que você ta é doido, o inverno vai ser é muito do bom. Eu passei ontem e vi um ninho de rolinha no sangradouro do açude, nas minhas experiências é sinal certo de chuva! Saturnino, confrontado nos seus brios proféticos, não perdoou: Dona Regina, eu vou lhe dar um conselho: olhe num vá por cabeça de rola não, Dona Regina! Sua filha taí de prova, foi com essa historinha de confiar em cabeça de rola e se lascou todinha.

Dr. J. flavio Vieira ( Via Blog do Sanharol )


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