30 novembro 2009

EDUCAÇÃO NO CARIRI - Convivência com o semiárido - Reportagem: Antonio Vicelmo



MORADORES DO SEMIÁRIDO vivem numa região que oferece inúmeras possibilidades de desenvolvimento, desde que adotados programas e manejos adequados às especificidades ambientais, sociais, culturais e econômicas das comunidades. O semiárido brasileiro requer uma educação contextualizada como forma de conquistar o desenvolvimento local

Crato. Foi realizado neste último fim de semana, neste município, o Encontro de Educação Contextualizada do Semiárido Nordestino, um processo de formação para professores, que teve como objetivo aproximar as atividades pedagógicas desenvolvidas nas escolas às discussões sobre a proposta de convivência com o semiárido. O encontro, coordenado pela Cáritas da Diocese do Crato, buscou contribuir significativamente na afirmação da identidade das pessoas da região do Cariri, segundo destacou o coordenador Alex Sampaio, explicando que a proposta foi a valorização da cultura regional como instrumento de inclusão social. Neste contexto, segundo Alex, o encontro, que teve abertura na última sexta-feira e prosseguiu até ontem, pretendeu chamar a atenção para o processo de libertação das pessoas por meio da valorização da vida, do seu lugar e de sua cultura.

Dentro desse contexto, durante os debates foram denunciadas falhas no sistema educacional, a começar pelo município do Crato que, segundo Alex, em nome da nucleação, processo de fechamento de escolas para o fortalecimento de outras, encerrou as atividades em três escolas na zona rural do Crato. Falhas como esta, impostas pelo Ministério da Educação e Cultura, serão levadas ao conhecimento das Secretarias de Educação com o objetivo de corrigi-las, conforme destacou ele.

Os conflitos e as angústias vivenciadas, bem como a situação de miséria e pobreza em que vivem as pessoas do semiárido, diante de tantas riquezas naturais que se encontram na região, foram levantados pelos palestrantes. "Investir maciçamente nesta região, com políticas definidas e integradas com parcerias e projetos da sociedade civil, é fundamental para modificar esta realidade, que compromete o presente e o futuro de milhões de crianças e adolescentes", afirmou Alex.

Durante a programação, os participantes defenderam a escola pública, gratuita e de qualidade no semiárido e no Brasil, integridade dos direitos dos atores e atrizes do processo educacional, gestão democrática, garantindo a plena participação dos vários setores, equidade na distribuição de renda e no acesso do conhecimento cultural, científico, moral, ético e tecnológico em todos os níveis da educação, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade na construção do conhecimento, formação contextualizada e integral de educadores e educadoras abrangendo os aspectos socioculturais, político e ambientais do semiárido, sustentabilidade ambiental, social, econômica e cultural como pilares dos processos e projetos educacionais.

O encontro contou com a Assessoria da Rede de Educação para o Semiárido Brasileiro (Resab), espaço paritário, formado pela sociedade civil e poderes públicos com a finalidade de pautar a educação contextualizada com os gestores municipais, universidades e as coordenadorias de educação dos Estados do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo. Participam 30 jovens de seis municípios da Diocese do Crato.

Desafio permanente
Para o coordenador da Cáritas Diocesana, Alex Sampaio, "educar as crianças e adolescentes do semiárido cearense de forma contextualizada, respeitando as vivências regionais é um desafio constante para professores e estudantes". Entre as dificuldades enfrentadas nas escolas, segundo ele, tem-se a falta de investimento na formação continuada de professores e gestores do ensino, adaptação dos currículos das escolas da região e renovação dos materiais didáticos trabalhados, além dos esforços permanentes destinados ao combate ao trabalho infantil, financiamento e fiscalização do transporte escolar e merenda escolar na zona rural.

Mais informações
Cáritas Diocesana
Rua Teófilo Siqueira, 631
Crato - Cariri
Telefone (88) 5321.1011

ANTÔNIO VICELMO
Repórter do Jornal Diário do Nordeste

Colaborador do Blog do Crato e Jornal Chapada do Araripe

Um comentário:

  1. Acho muito pertinentes as colocações do articulista. De fato, quem está envolvido com a educação do campo no Brasil, tem se preocupado com a questão da Nucleação.

    Como professora universitaria, engajada nessa luta pela defesa da educação do campo contextualizada, estive estudando o "modelo" da nucleação e, seja aqui no Brasil (em menor grau no Nordeste, onde a maioria das escolas do campo ainda é de escolas multisseriadas) ou na Europa, a Nucleação gera polêmica, especialmente pq realizada de maneira centralizada e tendo como prioridade mais a resolução de questões administrativas que necessariamente pedagógicas, tem aumentado o afastamento das novas gerações com relação ao campo, porque exige como estrategia complementar o deslocamento dos alunos para escolas na sede dos municipios. Além disso, afasta ainda mais as familias campesinas da vida escolar dos seus filhos, uma vez que as mesmas deixam de participar das reuniões da escola (pq já não existe escola na comunidade).

    Entretanto, vale ressaltar que não se pode responsabilizar o MEC por certas práticas locais (estaduais e municipais) de fechamento abusivo de escolas do campo. Pessoalmente participei de algumas reuniões promovidas pelo próprio MInisterio para subsidiar a elaboração de uma resolução especifica sobre o funcionamento das escolas do campo.

    Nessa resolução, a Nº 2, de abril de 2008 (que pode ser acessada no site do CNE, COnselho Nacional de Educação, Câmara de Educação Básica), entre outras questões, se faz a defesa da manutenção das escolas do campo no campo. Vale a pena verificar, quem ainda não conhece essa resolução que pode ser uma importante ferramenta na luta contra as prática de fechamento de escolas do campo, realizadas de forma arbitrária.

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