05 novembro 2009

Da genialidade como defeito ( III ) – Por: José Nilton Mariano Saraiva

Há toneladas de sentidos divergentes e mesmo contraditórios nas profusas declarações de Lula à imprensa. E também nos comícios ou, como se prefere oficialmente, nos atos de governo para fiscalização ou inauguração de obras. Pululam frases que rendem panos e mais panos para mangas e mais mangas na prosa dos comentaristas políticos. A elas se dedicam os exegetas hodiernos, intrigados com o fato de que as palavras desajeitadas do presidente contrastam com a precisão inacreditável de seus movimentos na arena política. De que modo elas os explicariam? Por meio de que charadas, de que cifras, de quais enigmas? Como interpretá-las? Como, por meio delas, entender um pouco melhor o personagem?
A fala de Lula sobre os atos de Lula é fraca. É insuficiente. Sempre. A fala de Lula é constrangedoramente inferior à performance de Lula. Mesmo assim espera-se dela que ilumine os milhões de pontos escuros de seu estilo prático. Espera-se com razão. Fora seu discurso, não há muitos outros lugares de onde tirar a chave para os movimentos que ele faz. Por isso, suas entrevistas e suas declarações se revestem de tão grande interesse. Não só por ele ser o maior político em atividade hoje no Brasil. Não só por ele ser a autoridade máxima no Estado. Também porque existe esse descompasso enervante entre a clareza premonitória de seus atos na disputa política – quase sempre bem sucedidos – e a precariedade de suas palavras, que só são mais expressivas quando são mais desastradas. É esse desacerto e essa imprevisibilidade aparentemente fora de controle, que tornam tão atraentes as declarações de Lula.
Há aqui uma distinção necessária: quando fala para os eleitores ou para os públicos internacionais, Lula é claríssimo. Sua comunicação é quase impecável. O ruído acontece quando dele se quer ouvir a teoria sobre a política que ele faz. Aí é que o sentido se bifurca sucessivamente. Quando fala de seu modo de agir, a fala de Lula é sempre insuficiente e refratária. Enfim, das declarações de Lula à imprensa não se conseguem extrair explicações cristalinas sobre sua ação política. No entanto, quando ele escorrega, quando erra no jeito de falar, acaba revelando involuntariamente o que talvez preferisse manter invisível. Lula se explica melhor quando se trai pela fala. Por isso é que, também nas suas entrevistas e nos seus pronunciamentos, os sentidos cruzados aparecem. E, nesse caso, são muito, mas muito mais interessantes do que os sentidos arrevesados dos que o criticam duramente por ser genial. Não que Lula não tenha consciência de seu lugar na História. Passados já sete anos de governo, é indiscutível que ele domina bem o papel que lhe cabe. Tanto para o que é bom, modernizante, justo etc., como para o que não é tão bom assim – como os pactos com o fisiologismo e o pragmatismo excessivo, que ele dá sinais de firmar por não enxergar alternativa. O ponto é que sabemos que Lula tem essa consciência de si não pelo que ele diz, mas pelo que ele faz. São os seus gestos que transmitem essa consciência.
A sua fala apenas confunde o observador. O Lula orador não é um bom intérprete do agente Lula – daí a sensação de que, talvez, ele mesmo não se compreenda muito bem. Talvez por isso mesmo, sua fala segue tão irresistível. Por baixo dos sentidos aparentes, insinua-se um riquíssimo acervo de revelações inadvertidas. Vale repetir: também as entrevistas de Lula têm seus múltiplos sentidos.
Texto: Eugênio Bucci (Observatório da Imprensa)
Postagem: José Niltoon Mariano Saraiva

6 comentários:

  1. Esse negócio não já foi postado ?

    Abraço.

    Ad Infinitum...

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  2. É...

    O Único defeito do Lula é o de ser Gênio.

    Entre Lula e o Einstein, seria parada dura...

    Dihelson Mendonça

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  3. Ilustre Dihelson,
    Voltou com preguiça, foi ???
    Leia comentário da postagem anterior ( a II ), porque a postagem IV (e final) está no fôrno para sair.

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  4. Olá, Mariano,

    Estou aqui pra tirar um dia inteiro a fim de ver uma das coisas: Ou os Filmes de Harry Potter completos, ou esses textos sobre a Genialidade do Lula.

    O problema está em decidir qual é o mais fantasioso...

    rs rs rs

    Abraços,

    Dihelson Mendonça

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  5. Dihelson,
    Como quem o postou "originalmente" foi você, fica fácil decidir onde há fantasia, não ???
    A nossa intenção, ao apresentá-lo "fatiado", foi exatamente estimular sua leitura.
    Sacou ???

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  6. José Nilton Mariano está servindo Pão dormido aos leitores.

    Eu mesmo fui quem postou esse texto dias atrás, mas ele gostou tanto, que fatiou o texto todo e está apresentando como se fora algo novo!

    E ainda reclama da puxada que eu dei ontem no texto do Fernando Henrique Cardoso que nunca havia sido postado.

    Ah essa esquerda Festiva...

    Abraços,

    Dihelson Mendonça

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