06 novembro 2009

CRATO - Histórias e Estórias do Crato de Antigamente - Por: Ivens Mourão

IX – LUÍS APOSENTADO

Na década de oitenta, o Luís se aposentou. Comprou uma excelente casa no Lameiro, próximo da Cascata, que é um local de banho tradicional na cidade. Um riacho que desce da Serra forma uma pequena cascata, numa grande pedra existente. Próximo, tem uma pequena vila com uma igrejinha. Esta vila pouco mudou, desde que passei o meu último Natal com Papai Noel, no ano de 1950. Foi numa das casas dessa vila. Papai alugou para passarmos as férias de fim de ano. Recordo-me que o dia ainda não tinha amanhecido e eu procurando o brinquedo embaixo da minha rede, até que minha mão tocou no papel celofane que embrulhava a bola. Nunca esqueci aquele barulho, que ainda me soa agradável. Mal o dia amanheceu já estava dando meus chutes lá fora. Nessa mesma casa a empregada estava balançando o Marcelo, que tinha dois anos. Em dado momento ela balançou com tanta força que o menino foi arremessado para fora da rede, indo bater com a cabeça na parede e no chão cimentado. Ainda recordo do barulho da pancada. Quando o Marcelo aprontava das suas, a gente chegava a pensar que ele não regulava direito e eu dizia: “Foi aquela queda, lá na vila do Lameiro”. Esta verdadeira chácara, escolhida pelo Luís para a vida de aposentado, ficava afastada do centro da cidade, que já fora muito alterado. A televisão prendeu as pessoas em casa. Ninguém mais fazia “caminhadas” na Praça Siqueira Campos. Muitos dos velhos componentes das Câmaras (Comuns e Lordes) não mais existiam. Mas o Lameiro ainda preservava um pouco daquele ambiente dos anos cinqüenta. E o Luís encontrou personagens fantásticos, que deixaram saudades. O que segue são as memórias dos últimos brilhos daqueles anos dourados...

A FORÇA DA PALAVRA

O Cel. Nelson da Franca Alencar marcou a vida do Lameiro. Um é sinônimo do outro. Dono de engenho, figura tradicional do Crato, não admitia que uma ordem sua fosse contestada. Aliás, moramos numa rua cujo nome era em sua homenagem, e a casa, número 94, era de propriedade do seu filho, Sr. Aderson da Franca Alencar. Quando o Cel Nelson já estava idoso, a administração dos negócios passou para o filho, mas o velho ainda tinha condições de mandar. Um dia chegou um morador e pediu-lhe para recolher as mangas que estavam debaixo das mangueiras, com a finalidade de ir à cidade vender em proveito próprio. O velho tinha um bom coração e o autorizou a colher também aquelas mangas maduras que ainda estivessem no pé.. Em seguida, um outro morador chegou para o Cel. Nelson e pediu emprestado um animal para levar uma carga ao mercado. E o velho:

- “Pois não, pode pegar um animal lá no curral”.
O morador voltou ao Cel. Nelson e disse:
- “Coronel eu esqueci de pedir a cangalha. O senhor poderia me dar uma cangalha”.
- “Pois não, pode pegar uma, lá no estábulo”.

Cel. Nelson Alencar, homem de palavra e opinião.

Quando o morador voltou, foi agradecer ao Cel. Nelson e devolver o animal e a cangalha, que ele emprestara. O Cel Nelson disse:

- “O animal você pode colocar lá no curral. A cangalha você pode levar, ela é sua. Você não pediu emprestado. Você me pediu uma cangalha e eu lhe dei.”


CORREIO ESTRANHO

O Coronel Nelson da Franca Alencar era muito amigo do Padre Cícero. No Lameiro, quem mandava era ele. Quando os jagunços do Padre Cícero invadiram o Crato, tinham uma determinação de não chegar nem perto do Lameiro. Tanto que o padre mandou um aviso para o povo do Crato. Fugissem pelo Lameiro, pois se fossem por outras saídas seriam atacados pelos jagunços. Essa amizade era alimentada com a troca de bilhetes, sempre tratando de política. O portador era um empregado do Cel. Nelson, o Sr. Vicente. O Luís o conheceu já com idade avançada, mas pelo seu porte e o tamanho dos braços, demonstrava ter sido um homem de força descomunal.

O Coronel Nelson, para testar a lealdade do Sr. Vicente, quando mandava os bilhetes para o Padre Cícero exigia que ele fosse sem camisa e segurando um gato no ombro. E dizia mais:

- “Não vá bater no gato”.


No bilhete de volta, o Padre dizia: “Compadre, o homem chegou aqui todo unhado”.


Padre Cícero Romão Batista


Fonte: Livro "Só no Crato" de Ivens Mourão - Direitos de Publicação concedidos ao Blog do Crato pelo autor - TODOS OS DIREITOS RESERVADOS

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