13 outubro 2009

“Lição” a um professor - Por: José Nilton Mariano Saraiva

Sempre tivemos, no decorrer da vida estudantil, desde o primário e até a Universidade, uma tremenda dificuldade com as disciplinas que envolvessem qualquer espécie de cálculo, equações, fórmulas, teoremas, números, enfim. Mas, porque ainda jovem ingressamos no BNB, optamos por cursar Economia, na UFC, na perspectiva de que “combinava” com a prática do dia-a-dia, e nos ofereceria maiores oportunidades na empresa, no futuro (hoje, certamente, nos dedicaríamos à Advocacia ou ao Jornalismo).
Na Economia, a numerologia é uma festa, as equações são uma constante, os cálculos são recorrentes, principalmente nas disciplinas de Cálculo, Macroeconomia, Microeconomia, Projetos, Estatística, Econometria (horrorosa) e outras, às vezes disponibilizadas em mais de um semestre, com as extensões I, II e III.
Na Estatística, então, além dessa dificuldade, esbarramos (aqui compreendida toda a turma) com um certo professor (o trataremos por João) que fazia do “sarcasmo” sua marca registrada. No primeiro dia de aula, por exemplo, numa classe de nunca menos de 50 (cinqüenta) alunos, o professor João, do alto do seu púlpito, fazia o seguinte comentário, em alto e bom som: “Bem, segundo consta aqui no livro de chamada, temos aqui 50 alunos...”; e, contundente, concluía “...se ao final do semestre passarem 10% (dez por cento), será muito”. E o cálculo do homem era “batata”, na “mosca”: 5, 6 ou 7 aprovados. E aí o homem ganhou fama. Ser aprovado em sua disciplina era coisa pra “gênio”. O professor João era o “terror” da Faculdade de Economia. Pessoalmente, a repetimos por uns 5 ou 6 semestres, findando por desistir do curso (posteriormente retornamos e o concluímos, mas isso é uma outra história).
Depois de um certo tempo, eis que reencontramos, nos supermercados da vida, com um ex-colega de turma. Conversa vai, conversa vem, a coisa inevitavelmente desaguou na “Estatística”. E, para nossa surpresa, ele narrou que conseguira aprovação, e, por incrível que pareça, com o professor João. “Como, se você tinha verdadeiro pavor, dele e da disciplina ??? ”, indagamos-lhe. E aí tomamos conhecimento do inusitado. É que o professor João, num certo semestre, houvera se apaixonado perdidamente por uma das suas jovens alunas; ficara “bobão”, ante tanta beleza, tamanha formosura; literalmente, tinha “arriado os quatro pneus” pela dita-cuja, que exalava sensualidade por todos os poros. E esta, bravamente, resistindo às suas investidas, aos seus galanteios, às suas incursões, o que só o deixava ainda mais transtornado, capaz de qualquer coisa. Antes da prova final, entretanto, a jovem (tão nova e já bandoleira que só), precisando de uma nota um tanto quanto alta para ser aprovada (e que, tinha certeza, jamais conseguiria por vias normais), finalmente cedeu. Mas impôs uma condição: que o professor João lhe repassasse, de próprio punho e já resolvidas, as questões que iriam constar da prova final, de modo que ela apenas as copiasse, na hora. Era pegar ou largar, desistir do seu platônico sonho. E este, ante a perspectiva de ter aquela beldade, aquela verdadeira “deusa” à sua disposição num dos motéis da vida (para pelo menos vê-la nua ou tirar um tremendo dum “sarro”), caiu na armadilha: disponibilizou, de próprio punho, e detalhadamente resolvidas, todas as questões que iriam cair na prova.
Na hora da aplicação do exame, ao invés do clima pesado e tenso, normalmente presentes em suas provas, o professor João notou algo um tanto quanto estranho, desrespeitoso, até: a turma estava absolutamente descontraída, todos muito risonhos.
E, foi só autorizar o início da resolução da prova, que ele não entendeu porra nenhuma: indistintamente, todos os presentes (aqueles que não haviam desistido ao longo do semestre), consultavam, abertamente, sem maiores preocupações, uma certa folha de papel, sem se importar com a sua sinistra presença. Aproximou-se de um deles, já com a intenção de colocá-lo imediatamente pra fora da sala, mas teve que recuar – apavorado, abestalhado e aparvalhado - quando este, tranqüilamente, mostrou-lhe, com um “sorriso orelhudo” a la Daniel Dantas (de orelha a orelha), cópia da folha que o professor João houvera disponibilizado à sua aluna preferida, paixão da sua vida. É que ela, por vingança, houvera repassado a todos os colegas, a prova resolvida. Materializava-se, ali, de forma humilhante, o velho ditado: “você me come, mas eu lhe fodo”. Ao dirigir o olhar para a sua rainha, lá no final da classe, esta lhe premiou com o mais belo dos seus sorrisos. A “lição” estava dada. Resultado: todos foram aprovados e a partir de então o professor João desvencilhou-se da “soberba” que o caracterizava, ficou literalmente desmoralizado ante os futuros alunos, foi alvo de gozação geral e, pouco tempo depois, se aposentou. A aluna “piranha” virou heroína entre os colegas.

Texto e autoria: José Nilton Mariano Saraiva

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Visite a página oficial do Blog do Crato - www.blogdocrato.com - Há 10 Anos, o Crato na Internet.