29 setembro 2009

SEMINÁRIO NO CARIRI - Lampião é avaliado como ´bandido´ - Reportagem: Antonio Vicelmo

LAMPIÃO E BANDO, em foto reproduzida no painel que divulgou o seminário "Cariri Cangaço"

(Foto: ANTÔNIO VICELMO)

Missão Velha. O "Cariri Cangaço" foi o maior acontecimento do gênero realizado no Nordeste. A declaração é do presidente em exercício da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço (SBEC), Ângelo Osmiro Barreto, no encerramento do encontro que reuniu cerca de 70 historiadores, pesquisadores, ensaístas, professores e estudantes de todo o Brasil. O encerramento ocorreu domingo, com uma palestra de João Bosco André sobre as ligações de Lampião com o município, que é considerado a porta de entrada do Cariri. Apesar da paixão pelo tema, a maioria dos integrantes não vê os cangaceiros como heróis. Ao contrário, Lampião e seu grupo foram apresentados como bandidos sem nenhuma causa social. "Foram os cangaceiros que introduziram o seqüestro em larga escala no Brasil". Faziam reféns em troca de dinheiro para financiar novos crimes. Caso não recebessem o resgate, torturavam e matavam as vítimas, a tiro ou punhaladas, disse o escritor José Peixoto Júnior, autor do livro "Bom Deveras e Seus Irmãos". Peixoto lembra que, no século passado, o Cariri estava povoado de cangaceiros. Os irmãos Marcelinos, por exemplo, cobravam imposto de quem transitava em cima da serra do Araripe. O escritor reproduz várias cartas assinadas pelos cangaceiros "Bom Deveras", "Lua Branca" e "João-22", ameaçando incendiar fazendas e matar o gado do proprietário rural que não lhes enviasse uma determinada quantia. O escritor Magérbio Lucena destaca que os cangaceiros ofereciam salvo-condutos, com os quais garantiam proteção a quem lhes desse abrigo e cobertura, os chamados coiteiros. Eles também, segundo Magérbio, "sempre foram implacáveis com quem atravessava seus caminhos: estupravam, castravam, aterrorizavam. Corrompiam militares e autoridades civis, de quem recebiam armas e munição. Um arsenal bélico sempre mais moderno e com maior poder de fogo que aquele utilizado pelas tropas que os combatiam". Com o comentário, o escritor diz que a atual violência nas grandes cidades é uma cópia do comportamento dos cangaceiros de ontem.

Entusiasmado com o sucesso do evento, o coordenador do "Cariri Cangaço", Manoel Severo, anunciou o próximo encontro para agosto de 2010, quando serão debatidos dois temas: "O Fogo das Guaribas" e "Os Nazarenos".

O primeiro tema refere-se à mais violenta batalha ocorrida no Ceará, no município de Porteiras, tendo como protagonista o considerado mais valente de todos os coronéis do sertão do Cariri, Francisco Lucena, conhecido por "Chico Chicote", que não era propriamente um cangaceiro, mas um daqueles valentões típicos da sociedade sertaneja de 1920, no sul do Ceará. Um dia, Chicote trabalhava no campo quando sua casa foi cercada por uma "volante" cearense, comandada pelo tenente José Gonçalves Bezerra. Um amigo de Chicote, de nome Joaquim Morais, o primeiro a tentar resistir, foi logo morto. Duas outras "volantes", uma pernambucana e outra paraibana, que se achavam próximas, inclusive reforçadas por cangaceiros da família Salviano, inimiga de Chicote, vieram reforçar o cerco. "Foi uma das brigas mais feias daqueles tempos do cangaço", escreveu o escritor Abelardo Montenegro. Já "Os Nazarenos" faz referência a um grupo familiar que dedicava tempo integral na busca e, se possível, destruição de Lampião e seu bando. Eles entraram na Polícia com o objetivo de vingar a morte de parentes. Eram moradores da Vila de Nazaré, hoje Carqueja, no interior de Pernambuco, que se tornaram eternos perseguidores de Lampião. O mais famoso dos Nazarenos foi o tenente David Jurubeba, que morreu em Serra Talhada, terra natal de Lampião, há cinco anos.

Os bandidos de hoje são os cangaceiros de ontem. A violência sem medidas é a mesma"
Magérbio Lucena
Médico e escritor

ANTÔNIO VICELMO
Repórter do Jornal Diário do Nordeste

Colaborador do Jornal Chapada do Araripe

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